Capela dos Milagres

Foto: G.A. (2025)

Poucos lugares na Madeira concentram tanta memória num espaço tão pequeno como a Capela do Senhor dos Milagres, na Banda d’Além, em Machico. Foi naquele lugar que, segundo a tradição histórica, se celebrou a 2 de julho de 1419 a primeira missa na Madeira. Ali se ergueu a Capela de Cristo, mais tarde ligada à Misericórdia de Machico, e a própria lenda de Robert Machim e Ana d’Arfet situa naquele espaço a sepultura dos dois amantes ingleses.

A 9 de outubro de 1803, a grande aluvião que atingiu a Madeira destruiu parcialmente a então Capela de Cristo, levando consigo o altar-mor e o crucifixo. Poucos dias depois, a imagem foi recuperada no mar por uma galera americana e levada para o Funchal, onde seria restaurada. A reconstrução da capela prolongou-se durante cerca de sete anos e contou particularmente com o empenho do provedor da Misericórdia, Cristóvão Esmeraldo, da sua mulher, D. Joaquina Esmeraldo, e dos irmãos daquela instituição. Finalmente, a 15 de abril de 1813, o crucifixo regressou por mar a Machico. O escritor Carlos Cristóvão conta que a população foi ao seu encontro “empunhando archotes incandescentes, velas acesas e cantando hinos ao Senhor”. A capela passaria, então, a ser conhecida como Capela do Senhor dos Milagres.

Quando, na noite de 8 de outubro, vemos o Senhor dos Milagres sair da pequena capela em direção à Igreja Matriz, os archotes recordam a luz com que a população recebeu a imagem no seu regresso e evocam também a profunda ligação desta devoção aos pescadores. Na verdade, são luzes que atravessam os séculos.

Em 1862, a capela sofreu uma profunda reconstrução, promovida por D. Vicência Figueiroa de Freitas e impulsionada também pelo pároco Fernando Augusto de Pontes, numa altura em que o edifício ameaçava ruir. Poucos anos depois, a 15 de outubro de 1868, encontramos em “A Voz do Povo” a primeira notícia conhecida da festa, localizada pela investigação de Pedro Teixeira. Em 1871, surgem já viagens especiais de vapores costeiros entre o Funchal e Machico nos dias 8 e 9 de outubro, trazendo romeiros de toda a ilha. O arraial tornou-se um dos grandes encontros populares e religiosos da Madeira.

A configuração que hoje reconhecemos na capela deve muito às obras realizadas entre 1880 e 1883, durante as quais foram intervencionados os altares, a sacristia e parte do portal, marcado pelas cruzes da Ordem de Cristo. A 8 de outubro de 1883, D. Manuel Agostinho Barreto, bispo do Funchal, benzeu solenemente o templo restaurado.

Vale a pena atravessar o seu portal, olhar demoradamente para o crucifixo e deixar que aquelas pedras contem a sua história.