Presidindo à solene Abertura do Ano Pastoral na Sé do Funchal, D. Nuno Brás exortou a Diocese do Funchal a corresponder ao chamamento divino com atitudes concretas, sublinhando que a Sagrada Escritura deve guiar os passos das comunidades no novo ciclo eclesial.
Sob o signo de uma profunda renovação espiritual e de compromisso comunitário, a Sé do Funchal acolheu este domingo, dia 27 de setembro, a solene Abertura do Ano Pastoral da Diocese.
Presidindo à celebração, que reuniu representantes das diferentes paróquias, movimentos e secretariados, o bispo do Funchal, D. Nuno Brás, desafiou os fiéis a escutarem de forma direta o chamamento evangélico: “«Vai hoje trabalhar na minha vinha». Esta é a ordem do Pai, o dono da vinha, que nos chega, a cada um de nós e a todos, por meio das palavras do evangelho que acabam de ser proclamadas”.
Desenvolvendo o sentido da parábola de S. Mateus, o prelado lembrou que a “vinha” constitui uma das imagens mais expressivas da Igreja, plantada pelo “celeste agricultor” e tendo Cristo como a verdadeira videira que dá fecundidade aos sarmentos.
O prelado vincou ainda que a resposta a este apelo divino não se compadece com meras palavras de assentimento, exigindo uma transformação na vida quotidiana: “A Deus que vem até nós e nos pede o empenho, a dedicação no anúncio do Evangelho, devemos corresponder, não apenas com palavras de assentimento, mas com atitudes, com vida, procurando, em cada momento, fazer a Sua vontade: cumprir os mandamentos, respeitar e amar o próximo, mostrá-lo como amor”.
Aprofundando as exigências práticas deste compromisso, o bispo do Funchal detalhou o que significa, no dia a dia das comunidades madeirenses, responder ao encargo do Pai: “Significa que Deus nos ordena: ajuda a crescer a tua comunidade; disponibiliza-te para o seu serviço; oferece do teu tempo e do teu saber, das tuas capacidades, quaisquer que sejam elas; escuta o pedido do teu pároco que necessita de catequistas; oferece-te para participar no grupo coral; inscreve-te na tua confraria; está disponível para integrar o Conselho Económico ou o Conselho Pastoral…”.
D. Nuno Brás reforçou a propósito que o objetivo passa por fazer crescer a Igreja “não somente em número mas, sobretudo, em autêntica vida cristã”, estendendo este dever às esferas da vida familiar, profissional e aos tempos de lazer.
Reconhecendo as fragilidades e receios humanos perante a magnitude da missão, o prelado apelou à confiança na graça divina, evocando as palavras proferidas pelo Papa Bento XVI no início do seu pontificado: «Os senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes». A partir deste exemplo, D. Nuno Brás sublinhou que, “se Ele chama, Ele que nos conhece tão bem, fará, igualmente, com que sejam ultrapassadas as nossas insuficiências humanas”.
A Sagrada Escritura como bússola
Apontando as diretrizes para o novo ano pastoral, o bispo do Funchal colocou o foco principal na centralidade da Bíblia, lembrando os ensinamentos do Concílio Vaticano II sobre a inspiração divina dos textos sagrados.
A respeito D. Nuno Brás destacou que, através da Escritura, “chega-nos a Palavra do Pai que é o próprio Jesus Cristo”, exortando os diocesanos a assumirem um novo compromisso com a fé: “Havemos de a conhecer melhor; havemos de a rezar, de a meditar; havemos de fazer dela a luz dos nossos passos; havemos de procurar nela, para a nossa vida, por intermédio do Espírito Santo, aquilo que o Pai nos pede, nos ordena, para nós e para o mundo que nos rodeia”.
A celebração foi também marcada por mensagens muito diretas aos vários setores da comunidade eclesial. Dirigindo-se de forma particular às novas gerações, D. Nuno Brás incentivou-as a ponderar uma consagração total ao serviço da vinha: “Se Ele convida, é porque confia em ti. Os medos e insuficiências de que estás consciente, também Ele os conhece. E, no entanto, chamou-te. Mesmo que um dia tenhas recusado fazer a vontade do Pai, arrepende-te e dispõe-te hoje ao trabalho na Sua vinha”.
Por fim, o prelado deixou palavras de reconhecimento e incentivo aos sacerdotes, em particular aos muitos que concelebraram esta Eucaristia, qualificando-os como “os grandes trabalhadores da vinha” sem os quais a comunidade não subsistiria.
D. Nuno Brás encerrou a reflexão exortando toda a Diocese a unir-se na oração: “Rezemos por todos nós, por toda a nossa Diocese. Peçamos ao Senhor da vinha que, guiados pela sua Palavra, nos disponhamos todos ao trabalho: à escuta da sua vontade; à disponibilidade para a viver; ao entusiasmo para anunciar a felicidade enorme que é ser trabalhador em tal vinha e de tal Senhor!”.











Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
ABERTURA DO ANO PASTORAL
XXVI Domingo do Tempo Comum (A)
Sé do Funchal, 27 de setembro de 2026
“Vai hoje trabalhar na minha vinha!”
“Vai hoje trabalhar na minha vinha”. Esta é a ordem do Pai, o dono da vinha, que nos chega, a cada um de nós e a todos, por meio das palavras do evangelho que acabam de ser proclamadas.
1. Num primeiro nível de leitura, o texto do evangelho de S. Mateus que escutámos é apenas mais uma parábola de Jesus. O evangelista narra as visitas que o Senhor fez ao Templo de Jerusalém, já depois de ter entrado na Cidade Santa e realizado o gesto da expulsão dos vendedores e cambistas. Escandalizados, os chefes dos judeus questionam Jesus acerca da autoridade com que actua e fala dum modo tão radical (Mt 21,23).
São incapazes de reconhecer que, à sua frente, se encontra o Messias. Mantêm viva a espera do povo mas são incapazes de perceber que o Messias se encontra ali, bem diante deles. São como o segundo filho da parábola, que diz fazer a vontade do Pai mas que, de facto, ignora o seu pedido para trabalhar na vinha.
2. Um segundo nível de leitura procura actualizar este mesmo texto: a Deus que vem até nós e nos pede o empenho, a dedicação no anúncio do Evangelho, devemos corresponder, não apenas com palavras de assentimento, mas com atitudes, com vida, procurando, em cada momento, fazer a Sua vontade: cumprir os mandamentos, respeitar e amar o próximo, mostrá-lo como amor.
Mas a nós, representantes das diferentes paróquias da nossa diocese, dos seus secretariados e movimentos, que nos reunimos nesta nossa Igreja-Mãe para assinalar o início dum novo ano pastoral, creio que o evangelho convida a ir ainda mais longe.
A “vinha” — tal como o “rebanho”, o “redil”, a “construção” ou a “Jerusalém do alto” — é uma das imagens preferidas pela Sagrada Escritura para falar da Igreja. Isso mesmo ensina o Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja, Lumen Gentium(n. 6): “Ela foi plantada pelo celeste agricultor como uma vinha eleita (Mt. 21, 33-43 par.; Is. 5,1 ss.). A verdadeira videira é Cristo que dá vida e fecundidade aos sarmentos, isto é, a nós que pela Igreja permanecemos n’Ele, sem o qual nada podemos fazer (Jo. 15, 1-5)”.
Percebemos então que o Pai se dirige a cada cristão e a toda a nossa comunidade diocesana. E diz: “Vai hoje trabalhar para a minha vinha”.
Que significa isso? Significa que Deus nos ordena: ajuda a crescer a tua comunidade; disponibiliza-te para o seu serviço; oferece do teu tempo e do teu saber, das tuas capacidades, quaisquer que elas sejam; escuta o pedido do teu pároco que necessita de catequistas; oferece-te para participar no grupo coral; inscreve-te na tua confraria; está disponível para integrar o Conselho Económico ou o Conselho Pastoral… enfim: tantas e tantas áreas em que as nossas paróquias necessitam de quem colabore, dê testemunho de vida e disponibilidade cristãs, ajude a fazer crescer a comunidade, não somente em número mas, sobretudo, em autêntica vida cristã! E significa, igualmente, um apelo dirigido pelo Pai a cada cristão para que na sua vida de família, na sua profissão ou no seu tempo de lazer assuma a tarefa de “trabalhador na vinha do Senhor”.
Recordamos as palavras do Papa Bento XVI proferidas depois da sua eleição (19 abril 2005): “Os senhores Cardeais — dizia ele — elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações”. Eis como cada um de nós deve responder ao pedido do Senhor: conscientes das nossas incapacidades mas, ao mesmo tempo, disponíveis e confiantes no Senhor. Se Ele chama, Ele que nos conhece tão bem, fará, igualmente, com que sejam ultrapassadas as nossas insuficiências humanas.
3. A missão que o Senhor nos confia chega, assim, a cada um, sobretudo através da Sagrada Escritura. De facto, apesar de escrita por homens — é ainda o Concílio Vaticano II que o ensina — a Sagrada Escritura tem Deus por autor: “As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja” (DV 11).
Eis, queridos irmãos, a razão por que, no ano pastoral que agora iniciamos, a nossa atenção é convidada a dirigir-se em especial para a Sagrada Escritura como “Palavra de Deus”. Por seu intermédio, chega-nos a Palavra do Pai que é o próprio Jesus Cristo. Assim, havemos de a conhecer melhor; havemos de a rezar, de a meditar; havemos de fazer dela a luz dos nossos passos; havemos de procurar nela, para a nossa vida, por intermédio do Espírito Santo, aquilo que o Pai nos pede, nos ordena, para nós e para o mundo que nos rodeia.
4. Deixai que me dirija dum modo particular aos jovens a quem o Senhor convida para uma consagração total, em vista do trabalho na Sua vinha. Se Ele convida, é porque confia em ti. Os medos e insuficiências de que estás consciente, também Ele os conhece. E, no entanto, chamou-te. Mesmo que um dia tenhas recusado fazer a vontade do Pai, arrepende-te e dispõe-te hoje ao trabalho na Sua vinha.
E deixai ainda que dirija uma palavra aos sacerdotes. Eles são os grandes trabalhadores da vinha! Não são os únicos, mas são os grandes trabalhadores! Sem eles, que seria da vinha do Senhor? Rezemos por eles, para que sempre se disponham a fazer a vontade do Pai, guiados pela Palavra divina.
E rezemos por todos nós, por toda a nossa Diocese. Peçamos ao Senhor da vinha que, guiados pela sua Palavra, nos disponhamos todos ao trabalho: à escuta da sua vontade; à disponibilidade para a viver; ao entusiasmo para anunciar a felicidade enorme que é ser trabalhador em tal vinha e de tal Senhor!

















