Capela do Bom Despacho, Campanário

Foto: Sílvio Mendes

As açucenas chegam aos molhos, enchendo de perfume o espaço em redor da pequena capela do Caminho da Vigia, no Campanário, e anunciando a festa de Nossa Senhora do Bom Despacho. É uma imagem que se repete todos os anos e que, mais do que ornamentar o templo, identifica uma celebração profundamente ligada à paisagem e à memória da comunidade.

Ainda de madrugada, pelas 4h30, o grupo reúne-se na Volta do Pico e segue em direção às Fontainhas, nas serras da Quinta Grande, onde são apanhadas as açucenas. No regresso, as flores são trazidas em ambiente de cortejo e romagem, com uma paragem no Miradouro da Vera Cruz para o tradicional convívio, antes de os participantes prosseguirem pelo Caminho da Pedra até ao Caminho da Vigia. Estes lugares formam, assim, uma espécie de cartografia simbólica desta tradição, num percurso onde a geografia quotidiana se reveste de ritualidade e onde a caminhada, a música, a partilha e a devoção se cruzam.

Foi este cenário que impressionou o escritor Valter Hugo Mãe quando passou pelo Campanário durante a festa, em 2014. Num texto publicado no Público, o escritor reparou que “a capelinha estava enfeitada de açucenas para o dia da sua festa anual” e registou a intensidade do ambiente onde “o perfume das flores” se tornava “inebriante”. A ligação do escritor ao Campanário viria a aprofundar-se. Anos depois, escolheu esta localidade como cenário do romance “Deus na Escuridão”, inspirado também nas pessoas, nas histórias e nos modos de vida que ali encontrou.

O pequeno templo guarda, porém, uma história muito antiga. A capela foi fundada em 1672 pelo morgado Jerónimo de Atouguia Bettencourt e pela mulher, D. Catarina Espranger. O Elucidário Madeirense acrescenta que, em 1762, a capela “foi reedificada pelo padre Francisco Nicolau de Brito”, pertencendo então a um irmão deste sacerdote.

Depois de ter sido propriedade particular, a capela foi adquirida pela paróquia do Campanário, juntamente com terrenos envolventes e uma antiga casa anexa. Existem planos para a recuperação do conjunto, que aguardam uma oportunidade de concretização.

Hoje, aquele pequeno espaço continua a ser sobretudo lugar de encontro: entre residentes e emigrantes, entre arraial e devoção, entre uma história antiga e a responsabilidade de a transmitir ao futuro. E quando as açucenas voltam a cobrir a capela do Caminho da Vigia, natureza, fé e memória reencontram-se, mantendo viva uma herança que permanece cada vez mais viva.

P. Giselo Andrade