Bispo do Funchal: “O Senhor tem paciência para todos”

D. Nuno Brás desafiou os fiéis, na Festa do Senhor da Paciência, a deixarem-se olhar por Deus e a crescerem num coração “grande” para os outros.

Foto: Duarte Gomes

“O Senhor tem paciência para todos”. Foi com esta certeza que o bispo do Funchal, D. Nuno Brás, desafiou os fiéis a olhar para Deus no meio das dificuldades e a deixar-se transformar pelo seu amor, durante a Eucaristia da Festa do Senhor da Paciência, no domingo 13 de setembro, no Mosteiro de Santo António, no Lombo dos Aguiares, Funchal.

Perante muitos fiéis que participaram na celebração, o bispo do Funchal lembrou que, tal como o povo de Israel no deserto chegou a duvidar da capacidade de Deus para o salvar, também hoje o ser humano é frequentemente tentado a pensar que Deus o abandonou.

“Quantas vezes nós fomos tentados, verdadeiramente tentados, julgando que Deus não nos pode salvar. Verdadeiramente tentados, julgando que Deus não tem capacidade para nos dar a salvação”, afirmou D. Nuno Brás.

O bispo diocesano relacionou esta experiência com as dificuldades concretas da vida, marcadas tantas vezes pela tristeza, pelo sofrimento e pela ausência de esperança. “Trabalhamos e trabalhamos sem nunca termos saída. Dificuldades e dificuldades, sem termos grande razão para esperar”, observou.

É precisamente nestas circunstâncias, acrescentou, que a fé cristã é chamada a recordar que Deus permanece presente. A vida eterna, explicou, não é apenas uma realidade futura, mas “a vida de Deus” que começa já agora, “mesmo no meio de sofrimentos, mesmo no meio de dificuldades”.

Na Festa do Senhor da Paciência, D. Nuno Brás colocou particular ênfase na paciência de Deus para com cada pessoa. “Se Ele não tivesse paciência para todos, que seria de nós?”, questionou, lembrando as faltas, as palavras mal ditas e os sentimentos que tantas vezes corroem o coração e impedem o ser humano de avançar.

O bispo do Funchal lembrou, em particular, os sentimentos de ódio e ressentimento que podem permanecer durante anos e “não nos deixam viver”, fazendo com que a pessoa permaneça presa ao passado.

“Mas o Senhor tem paciência para todos”, afirmou. E essa paciência, explicou, significa que Deus “está sempre à espera” que o ser humano cresça e mude.

“Deixemo-nos olhar por Ele”

Um dos momentos centrais da homilia surgiu quando D. Nuno Brás convidou os fiéis a ultrapassarem uma atitude meramente contemplativa. Não basta olhar para Deus, afirmou. É necessário também “deixar-se olhar” por Ele.

“Olhemos para o Senhor, mas deixemo-nos, sobretudo, olhar por Ele”, pediu.

É esse olhar de Deus, explicou, que deve entrar “verdadeiramente no nosso coração” e “verdadeiramente na nossa vida”, permitindo uma transformação concreta da pessoa.

A mensagem do Senhor da Paciência, acrescentou, não pode ficar limitada à devoção ou à celebração. Deve traduzir-se numa nova forma de viver e de se relacionar com os outros.

“Ele é capaz de nos dar esta paciência e de nos tornar grandes de coração”, afirmou o bispo do Funchal.

D. Nuno Brás rejeitou ainda a ideia de que a falta de paciência seja uma pequena fragilidade. “Como se a falta de paciência fosse uma coisa pequena. Não é”, advertiu, explicando que ter paciência implica ter “o nosso coração grande como o Senhor”.

“Sermos capazes de sermos grandes de coração para os outros e para nós mesmos”, sublinhou.

A homilia partiu do episódio bíblico da serpente de bronze levantada por Moisés no deserto, apresentado como prefiguração de Cristo elevado na cruz. Tal como aqueles que olhavam para a serpente eram salvos, também o cristão é chamado a voltar o olhar para Cristo, reconhecendo nele a fonte da vida.

Na abertura da celebração, D. Nuno Brás saudou os fiéis e as entidades presentes, dirigindo também uma palavra especial às Irmãs Clarissas que acompanharam a celebração e que têm sido as guardiãs desta festa por mais de meio século. O bispo desejou que a Festa do Senhor da Paciência fosse para elas “um sinal e uma ajuda” na vivência da vida cristã e da oração.

A Eucaristia da Festa do Senhor da Paciência foi presidida pelo bispo do Funchal e concelebrada pelos padres André Pinheiro e Aires Gameiro. A ela seguiu-se a  habitual procissão numa manifestação pública de fé e devoção ao Senhor da Paciência.