Temos muita dificuldade em perdoar. É uma atitude que nos vem da nossa natureza humana: por nós, jamais esqueceríamos uma ofensa, maior ou menor que seja. A ofensa fica gravada no registo das dívidas a serem cobradas na primeira oportunidade: então, havemos de nos vingar; havemos de satisfazer o nosso ego, com o mal acontecido a quem nos ofendeu; havemos de retribuir a ofensa na mesma medida e, se possível, com alguns juros, para que sirva de recordação. Dizem-nos que é assim que se fazem os vencedores.
Ao contrário, o perdão é uma atitude divina. Em particular o “perdão de coração”, aquele esquecimento total, completo, da culpa. É a oportunidade de recomeçar, “a partir do zero”, que, por exemplo, nos é oferecida por Deus nos sacramentos do baptismo e da penitência. Deus é Aquele que perdoa, que ama de tal modo o pecador que se esquece completamente do pecado cometido.
É por isso que o perdão de alguém que nos ofendeu é uma graça que havemos de pedir constantemente, sem nunca desfalecer. E é uma verdadeira graça: seja porque é um dom de Deus, seja porque a incapacidade de perdoar uma ofensa nos corrói a alma e a vida. Alguém que traz consigo uma ofensa, alguém que é incapaz de a esquecer, vive com o pensamento e o coração detidos naquele acontecimento, incapaz de caminhar, de ir mais longe, de progredir.
Mas perdoar de coração é, também, um acto da nossa vontade. Podemos esquecer-nos dessa nossa intenção, e cair de novo no habitual discurso de ódio; mas havemos logo de nos arrepender e de fazer, uma vez mais, o propósito do perdão.
Até porque perdoar é a única condição que o Senhor coloca para também nós sermos perdoados!


















