João César das Neves: “Fátima é uma manifestação do Evangelho para este nosso tempo”

D.R.

Mais de um século depois das aparições, a Mensagem de Fátima continua a interpelar o homem contemporâneo. Num tempo marcado por guerras, insegurança, individualismo e uma profunda crise espiritual no Ocidente, o economista e professor João César das Neves considera que é precisamente neste contexto que a mensagem transmitida por Nossa Senhora aos Pastorinhos ganha nova atualidade. 

Em entrevista ao Jornal da Madeira, o autor de “O Século de Fátima” chama a atenção para o risco de se olhar para Fátima apenas à procura de profecias ou acontecimentos futuros, esquecendo aquilo que considera ser o essencial: oração, sacrifício e emenda de vida. Para João César das Neves, a resposta de Fátima para os tempos difíceis que vivemos passa pela conversão do coração e pela devoção ao Imaculado Coração de Maria, tendo o Terço e os Primeiros Sábados um lugar particular. 

O professor que, na tarde desta sexta-feira, foi orador da quinta e última conferência do ciclo dedicado à Devoção Reparadora dos Primeiros Sábados, promovido pela Sé do Funchal, considera ainda que, apesar das mudanças ocorridas ao longo dos últimos cem anos, a mensagem não perdeu atualidade, porque continua a falar ao coração humano e a apontar para Cristo. “Fátima é uma manifestação do Evangelho para este nosso tempo”, afirma. 

Passados mais de cem anos sobre as aparições, o que é que Fátima ainda tem a dizer ao homem de hoje?

Há dois níveis para responder a esta pergunta. O primeiro tem a ver com os acontecimentos. Fátima, ao contrário da maior parte das outras aparições, fala de coisas concretas. Fala da Rússia, fala da guerra que acabou e da guerra que vai começar. Portanto, Fátima é uma coisa muito aplicada.

Hoje estamos a viver um tempo que, infelizmente, está a ser parecido. E, portanto, a primeira atualidade tem a ver exatamente com este período que estamos a viver e que tem muitas semelhanças com o tempo original da mensagem.

Mas não é a esse nível que Nossa Senhora fala. Aliás, essa parte dos acontecimentos é o segredo. O primeiro segredo não se soube e, quando se soube, já tinha passado o acontecimento. Foi revelado muito posteriormente.

O ponto não é esse. Nossa Senhora vem falar daquilo que realmente conta. Está relacionado com esses acontecimentos, mas o que realmente conta é a conversão de vida. E, portanto, Nossa Senhora vem pedir oração, vem pedir sacrifício, vem pedir emenda de vida. São esses os grandes pedidos. 

“Nossa Senhora vem pedir oração, vem pedir sacrifício, vem pedir emenda de vida. São esses os grandes pedidos”. 

Há quem procure em Fátima sobretudo profecias e acontecimentos futuros. Estamos a olhar demasiado para o segredo e pouco para o essencial da mensagem?

Sim, esse foi um problema desde o princípio. O facto de haver um segredo foi imediatamente percebido. Toda a gente soube que havia um segredo, embora ninguém soubesse qual era. A Lúcia só vai revelar esse segredo muito mais tarde.

Mas o essencial da mensagem foi sempre revelado: oração, sacrifício e emenda de vida. Ainda hoje esse desfoque, isto é, virar para o assunto ao lado e não falar do essencial, continua a existir.

Mas é importante dizer outra coisa: Fátima é importante mesmo antes de se saber qual era a mensagem. Durante os primeiros anos depois das aparições, ninguém sabia praticamente nada, porque a Lúcia ainda não tinha contado. Mas havia uma multidão de pessoas a ir a Fátima. Porquê? Porque Nossa Senhora estava ali e elas queriam falar com Ela.

Portanto, essa é a razão fundamental. A mensagem é preciosa, mas o simples facto de Nossa Senhora ter aparecido ali e de nós termos coisas para falar com Ela é aquilo que leva as pessoas a Fátima. 

Foto: Luísa Gonçalves

Vivemos novamente num mundo marcado pela guerra e pelo sofrimento. Estamos perante uma atualidade particularmente forte da Mensagem de Fátima?

Sim, eu diria que sim. O pecado, de facto, subiu outra vez e Nossa Senhora veio cá por causa disso.

Ela deu-nos uma solução, uma resposta, que é a devoção ao Imaculado Coração de Maria, e os Primeiros Sábados são o grande símbolo dessa devoção. Por isso, mais uma vez, é importante que aqueles que conhecem Fátima se redobrem no seu comportamento, porque os sinais são muito assustadores.

Não estamos ainda no tempo do Papa Pio XII, que viveu a Segunda Guerra Mundial, mas já estamos no tempo do Papa Pio XI. Quer dizer, já estamos a viver a preparação disso. Esperemos que não cheguemos lá, mas é isso mesmo que está a acontecer.

Não estamos ainda no tempo do Papa Bento XV, mas estamos no tempo de Pio XI, antes da Segunda Guerra Mundial e num período que tem muitas semelhanças com os períodos que antecederam as duas guerras mundiais.

O Papa Francisco falava numa “guerra mundial aos pedaços”, no fundo, para dizer isto. Já estamos num período em que se começa a sentir uma coisa horrorosa. Temos muita esperança de que isso não aconteça, mas a maneira de ter essa esperança é exatamente fazer aquilo que Nossa Senhora disse em Fátima. 

A Mensagem de Fátima fala de paz. Que caminho aponta para alcançar essa paz?

Os caminhos são, primeiro, a oração. A única coisa que Nossa Senhora diz em todas as seis aparições é que rezem o Terço todos os dias.

É uma das primeiras coisas que se sabe. As primeiras cartas das pessoas que foram ver e que contaram o que estava a acontecer dizem que Nossa Senhora queria que se rezasse o Terço.

Rezar o Terço, rezar em geral e, em particular, o Terço, é o primeiro passo. O segundo é a penitência, o sacrifício e o sacrifício reparador, portanto, a reparação.

É fazer um sacrifício para reparar o Coração de Maria, que é ferido pelos pecados dos homens. E, depois, sobretudo, também a emenda de vida, portanto, a nossa conversão à bondade, à caridade, à fé e à esperança. 

“O Rosário é fundamental. É uma coisa que Nossa Senhora não explicou porquê. Ela nunca disse porquê, mas diz sempre: “rezem o Terço todos os dias”.

Que importância tem, então, o Rosário nesta mensagem?

O Rosário é fundamental. É uma coisa que Nossa Senhora não explicou porquê. Ela nunca disse porquê, mas diz sempre: “rezem o Terço todos os dias”.

“Rezem muito”, diz o Anjo nas primeiras aparições, e as crianças ficam imediatamente conquistadas por isso. E rezam o Terço sucessivamente. Portanto, não rezem um, nem três, mas rezem sempre.

É uma oração muito simples. A Irmã Lúcia, nos seus textos posteriores, disse que Nossa Senhora não explicou porquê e que ela também não lhe perguntou. Mas, na sua opinião, a razão é que é uma oração muito simples, que qualquer pessoa pode rezar.

Não é preciso saber ler, não é preciso estar na igreja, pode rezar-se em qualquer sítio, em qualquer lugar. Essa simplicidade é, na opinião da Irmã Lúcia, a razão do Terço. 

O que significa hoje a promessa de Nossa Senhora de que, por fim, o seu Imaculado Coração triunfará?

Nós já interpretámos isso com a queda do Muro de Berlim e depois com a queda da União Soviética. Nessa altura pareceu evidente que, nesta fase da História, a mensagem estava muito ligada à Rússia.

Nossa Senhora fala da Rússia e, quando aconteceu aquele fenómeno completamente inesperado e fantástico, essa aplicação pareceu justificar-se. Acho que é justo fazer essa aplicação.

Mas, evidentemente, quando Nossa Senhora diz que “por fim o meu Imaculado Coração triunfará”, não está apenas a falar disso. A coisa não se esgotou quando aconteceram esses fenómenos no início da década de 1990.

Estamos a falar da certeza de que o Imaculado Coração de Maria vai triunfar em todas as épocas da História e, no final, na Parusia, na consumação da salvação. 

Foto: Luísa Gonçalves

Num tempo marcado pelo materialismo, pelo individualismo e pela perda de referências, pode Fátima ser uma resposta para a crise espiritual que o Ocidente vive?

Sim. O Ocidente vive uma crise espiritual e Fátima continua a ser uma referência muito grande.

A prova maior disso são as visitas dos Papas. Ainda no ano passado, a imagem de Nossa Senhora de Fátima foi a Roma mais uma vez. É a quarta vez que lá vai. Não aconteceu com mais nenhuma imagem de Nossa Senhora ser chamada a ir a Roma.

E, portanto, o que salva este mundo tão desorientado é a mensagem do Evangelho. Mas Fátima tem, neste momento, e vê-se isso nos seus enviados, isto é, nos Papas, uma relação muito forte com Fátima.

Fátima é uma manifestação do Evangelho para este nosso tempo. Portanto, o lugar de Fátima é muito significativo precisamente para esta época tão desorientada.

Certamente haverá outras aparições de Nossa Senhora mais tarde, como houve outras no passado, mas, por enquanto, e olhando objetivamente para aquilo que os Papas nos dizem, Fátima está no centro destas preocupações. 

“Fátima é uma manifestação do Evangelho para este nosso tempo. Portanto, o lugar de Fátima é muito significativo precisamente para esta época tão desorientada”.

Se uma pessoa, um jovem ou um idoso, lhe perguntasse hoje por que razão deve interessar-se por Fátima, o que lhe responderia?

A primeira coisa que diria é que Fátima não faz parte da revelação de Deus. A revelação com Cristo está na Bíblia e está na Tradição. O que deve fazer-se é ligarmo-nos a Nosso Senhor.  Mas o melhor caminho para chegar a Cristo é Nossa Senhora. É o caminho certo que todos os santos têm. É o caminho mais seguro para chegar a Cristo.

Fátima é uma manifestação não só muito próxima temporalmente, mas também muito próxima geograficamente para nós, em Portugal. E, portanto, não sendo indispensável, é uma tolice não seguir Fátima. É um disparate.

É altamente conveniente, para a nossa salvação, ligarmos aquilo que Nossa Senhora disse em Fátima, que foi simplesmente o Evangelho. Quando ao Papa João XXIII foi perguntado “e então o segredo?”, ele respondeu: “O segredo é o Evangelho”.

“Mas o melhor caminho para chegar a Cristo é Nossa Senhora. É o caminho certo que todos os santos têm. É o caminho mais seguro para chegar a Cristo”.

Podemos, então, dizer que a Mensagem de Fátima continua plenamente atual?

Exatamente. A mensagem é intrinsecamente atual porque não vem trazer uma doutrina nova. Vem recordar aquilo que realmente conta: a oração, o sacrifício, a reparação e a conversão.

Os acontecimentos podem mudar, as guerras podem mudar de lugar e as circunstâncias históricas podem ser diferentes, mas o problema fundamental continua a ser o coração humano. E é precisamente aí que Nossa Senhora intervém.

Por isso, Fátima não deve ser reduzida a uma leitura dos acontecimentos ou do segredo. Deve levar-nos a olhar para a nossa própria vida e a perguntar o que estamos a fazer para responder ao pedido de Nossa Senhora. A mensagem é para o mundo inteiro, mas é também para cada um de nós.