O corpo do Pe. José Clemente dos Santos, sacerdote salesiano natural de Machico, foi trasladado para a Madeira, tendo sido celebrada uma Missa de corpo presente na igreja do Colégio Salesiano do Funchal. Familiares, confrades, amigos, sacerdotes diocesanos e salesianos, bem como muitos antigos alunos, marcaram presença na despedida daquele que dedicou quase seis décadas ao sacerdócio e à missão educativa salesiana.
A celebração decorreu ontem, dia 2 de setembro, na igreja do Colégio Salesiano do Funchal, a pedido da família, depois das cerimónias fúnebres realizadas em Évora, onde o Pe. José Clemente faleceu no passado dia 26 de agosto.
A Eucaristia foi presidida pelo Pe. Tarcízio Morais, responsável dos Salesianos em Portugal, que apresentou as condolências à família e recordou o sacerdote como um homem cuja vida foi marcada pelo serviço a Deus, à Igreja e, de modo muito particular, aos jovens.
Na celebração esteve também o Cónego Fiel de Sousa, Vigário Episcopal para o Clero e Religiosos, em representação do bispo do Funchal, acompanhado por outros sacerdotes diocesanos. Marcaram ainda presença vários sacerdotes salesianos, religiosos que conviveram com o Pe. José Clemente ao longo do seu percurso e muitos antigos alunos, que quiseram regressar ao Colégio Salesiano para prestar uma última homenagem ao sacerdote.
Na homilia, o Pe. Tarcízio Morais começou por reconhecer a dor própria de uma despedida, mas sublinhou que a fé cristã permite olhar para a morte com esperança.
“Reunimo-nos todos com o coração marcado pela despedida, mas sustentado pela esperança”, afirmou, considerando que a morte do Pe. José Clemente deixou “um lugar vazio” na comunidade salesiana, entre os familiares e amigos, mas também na memória dos jovens que educou e acompanhou e de tantas comunidades onde serviu.
“Não queremos ocultar a tristeza. A fé cristã não nos pede que neguemos as lágrimas. Pede-nos, porém, que não nos deixemos perder no vazio”, afirmou o responsável dos Salesianos em Portugal, acrescentando que as lágrimas podem transformar-se em “oração, gratidão e esperança”.
A partir da primeira leitura, o Pe. Tarcízio Morais recorreu à imagem de São Paulo sobre o campo de Deus para recordar a missão desempenhada pelo Pe. José Clemente ao longo da sua vida. “Nós somos colaboradores de Deus e vós sois o campo de Deus, o edifício de Deus”, recordou.
Foi nessa perspetiva que apresentou o sacerdote salesiano como alguém que “foi colaborador de Deus”, não como dono do campo ou senhor da colheita, mas como homem chamado a entrar no campo de Deus, a trabalhar nele e a confiar-Lhe os frutos do seu trabalho.
“Ele plantou muito”, afirmou, recordando quase sete décadas de consagração salesiana e mais de 58 anos de sacerdócio. Plantou, explicou, “através da palavra anunciada, da Eucaristia celebrada, do perdão sacramental, da educação, da presença amiga, da orientação e do serviço às comunidades”.
Esse trabalho foi realizado em diferentes lugares e comunidades, mas teve uma marca particularmente forte no acompanhamento dos jovens.
“Plantou sobretudo no coração dos jovens”, sublinhou o Pe. Tarcízio, evocando a espiritualidade de São João Bosco e a missão salesiana de ajudar cada jovem a descobrir que é amado por Deus e que a sua vida tem sentido.
Professor, orientador espiritual, responsável pastoral e diretor, o Pe. José Clemente passou por diferentes comunidades salesianas, encontrando jovens “alegres e inquietos”, “cheios de sonhos” e outros marcados por dificuldades interiores. Em todos procurou estar presente como educador e sacerdote.
O responsável dos Salesianos em Portugal destacou precisamente essa presença próxima como uma das marcas do seu ministério. Algumas sementes, reconheceu, deram fruto diante dos seus olhos; outras permaneceram escondidas e outras poderão ter produzido fruto muitos anos depois.
“É assim a missão de quem educa e evangeliza. Pronuncia-se uma palavra, oferece-se um gesto, abre-se uma porta, aponta-se um caminho e entrega-se tudo a Deus”, afirmou.
E acrescentou: “Eu plantei, mas foi Deus quem deu o crescimento.”
Para o Pe. Tarcízio Morais, estas palavras exprimem a humildade própria de quem sabe que “o bem que fazemos não depende inteiramente de nós”. O sacerdote pode preparar a terra, lançar a semente e regá-la fielmente, mas “só Deus conhece os segredos de cada coração” e “só Deus conhece todos os frutos de uma vida oferecida”.
Por isso, afirmou, não era possível contabilizar tudo aquilo que nasceu do ministério do Pe. José Clemente.
“Não sabemos quantas pessoas reencontraram a paz, quantos jovens ganharam coragem, quantas vocações foram discretamente alimentadas, quantos pecadores receberam através das suas mãos sacerdotais a certeza da verdade e da vida nova, quantas comunidades cresceram graças ao seu trabalho. Mas Deus sabe”, afirmou.
“Deus conhece cada segredo. Nenhum gesto de amor se perde no campo”, acrescentou.
O Evangelho proclamado na celebração, com o relato da cura da sogra de Pedro, permitiu ao Pe. Tarcízio Morais estabelecer uma ligação entre os gestos de Jesus e a missão do sacerdote educador.
Jesus aproxima-se, inclina-se, toma pela mão, levanta e restitui à pessoa a capacidade de servir. “É assim que Deus nos salva. Não permanece distante da nossa fragilidade. Aproxima-se e inclina-se sobre a nossa dor”, afirmou.
Na sua perspetiva, também o Pe. José Clemente procurou prolongar esses gestos de Jesus ao longo da sua missão. Como sacerdote e educador, foi chamado a olhar para a fragilidade das pessoas “não para julgar de longe, mas para ajudar de perto a levantar”.
Foi, assim, uma presença “próxima, familiar e feliz”, uma presença capaz de acreditar que mesmo no coração aparentemente mais afastado existia “um ponto acessível ao bem” e que cada pessoa podia levantar-se e descobrir novamente a alegria de servir.
O Pe. Tarcízio Morais destacou ainda uma outra dimensão do Evangelho: Jesus não se limitava a cuidar das multidões de forma indistinta. “Impõe as suas mãos sobre cada um”, porque “para Deus ninguém é mais um”.
“Cada vida tem um nome, uma história e uma dignidade única”, afirmou, considerando que também o ministério sacerdotal procura tornar visível essa atenção pessoal de Cristo.
A celebração foi também marcada pela referência à vida missionária do Pe. José Clemente. Ao longo do seu percurso salesiano, o sacerdote viveu diferentes missões e comunidades, deixando para trás pessoas, amizades, projetos e jovens para responder às novas tarefas que lhe eram confiadas. “Agora aconteceu a última partida”, afirmou o Pe. Tarcízio Morais.
Uma partida que, explicou, não significou desaparecer, mas atravessar “a fronteira que só Deus pode abrir”. O Pe. José Clemente deixou a presença visível, mas partiu “ao encontro daquele que o chamou pelo nome”.
“Hoje, o trabalhador repousa”, afirmou, mas a obra realizada ao longo da sua vida continua presente nos jovens que ajudou a formar, nos servidores que acompanhou, nas comunidades que serviu e nas pessoas que encontrou. Por outras palavras “a obra do Pe. José Clemente não termina com a sua morte”, sublinhou.
Para o responsável dos Salesianos em Portugal, essa obra continuará também através daqueles que receberam o seu testemunho e que são agora chamados a dar continuidade à missão. “Continuará nos jovens que ajudou a formar, nos servidores que acompanhou, nas comunidades que serviu, nas pessoas reconciliadas com Deus e em todos aqueles que, através dele, aprenderam a ser mais cristãos, mais próximos de Cristo e do Senhor”, afirmou.
No final da homilia, o Pe. Tarcízio Morais dirigiu-se diretamente ao sacerdote falecido, entregando a Deus “tudo aquilo que as suas mãos puderam realizar”.
“O campo é Dele, a colheita é Dele”, afirmou, confiando o Pe. José Clemente à misericórdia de Deus e à proteção de Maria.
“Nós entregamo-lo a Deus, mas com esperança, porque o amor que foi semeado não morre, porque Deus continua a dar crescimento”, afirmou.
E concluiu com uma imagem retirada do Evangelho: “Aquele que serviu à mesa do Senhor é agora convidado para a mesa do banquete eterno”.
Após a celebração, realizou-se o cortejo fúnebre até ao cemitério de São Martinho, onde o Pe. José Clemente dos Santos foi sepultado no jazigo dos Salesianos.
A despedida na Madeira reuniu, assim, diferentes gerações ligadas ao sacerdote salesiano, desde familiares e confrades a sacerdotes, antigos alunos e amigos, num último gesto de gratidão por uma vida marcada pelo sacerdócio, pela educação e pelo serviço aos jovens.
























