Como acontece todos os anos, a Festa de Nossa Senhora do Monte voltou a levar muitos fiéis até ao Santuário, no dia em que a Igreja celebra a Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Madeirenses vindos de diferentes pontos da Região, peregrinos e emigrantes que regressam à terra nesta altura do ano juntaram-se para agradecer à Virgem, cumprir promessas e renovar a sua fé.
A celebração eucarística solene foi este ano presidida pelo Vigário-Geral da Diocese do Funchal, Cónego Marcos Gonçalves, em representação do Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, que se encontra em visita pastoral às comunidades madeirenses e porto-santenses na Venezuela.
Logo no início da Eucaristia, o Vigário-Geral dirigiu uma palavra de saudação às personalidades presentes, destacando-se a presidente da Assembleia Regional, o presidente do Governo, da Autarquia funchalense entre diversas outras entidades civis e militares bem como aos peregrinos, aos emigrantes e a todos os que se associaram à celebração, sublinhando que a sua presença demonstra que “a fé continua a ser um património vivo da nossa terra e um sinal de unidade para o nosso povo”.
Na sua intervenção, o Cónego Marcos Gonçalves explicou que assumiu a presidência da celebração em nome do Bispo do Funchal, recordando que D. Nuno Brás se encontra na Venezuela a acompanhar as comunidades madeirenses e porto-santenses e a levar “a proximidade da Igreja do Funchal e o conforto do Evangelho” aos que continuam a sofrer as consequências do duplo terramoto que atingiu aquele país.
A partir do Monte, a oração estendeu-se assim às comunidades emigrantes e a todos os que sofrem. “No coração de Maria deixemos as nossas orações e preces”, afirmou.
A Festa de Nossa Senhora do Monte constitui, todos os anos, um dos grandes momentos da devoção mariana madeirense. A tradição faz regressar ao Monte muitos devotos que vêm agradecer graças recebidas, cumprir promessas e pedir a proteção da Padroeira. Entre eles estão também muitos emigrantes, para quem a festa de agosto constitui uma oportunidade de reencontro com a terra, com as famílias e com a sua fé.
Esta ligação entre a Senhora do Monte e os madeirenses espalhados pelo mundo foi igualmente sublinhada na homilia. O Cónego Marcos Gonçalves recordou que, ao longo da história da Madeira, o povo se voltou para Nossa Senhora nos momentos de dificuldade, encontrando nela “uma Mãe que consola, fortalece e conduz a Cristo”.
Na solenidade deste ano, o Vigário-Geral centrou a reflexão na Assunção de Maria e na esperança cristã. Explicou que celebrar a Assunção é contemplar Nossa Senhora plenamente associada à vitória de Cristo sobre a morte e recordar que “não fomos criados para a morte, mas para a vida em Deus”.
A esperança no Céu, contudo, não significa afastamento das realidades concretas da vida. “A esperança do Céu não nos afasta da terra”, afirmou, defendendo que essa esperança deve dar aos cristãos força para assumir responsabilidades, servir os irmãos e trabalhar por uma sociedade mais justa e fraterna.
A reflexão passou depois pela imagem de Maria como mulher que não guarda Cristo para si. Ao recordar o episódio da Visitação, o Cónego Marcos Gonçalves destacou que Nossa Senhora “partiu apressadamente”, porque quem encontra Cristo não pode ficar indiferente.
“Quem encontra Cristo não consegue guardá-Lo apenas para si”, afirmou, apresentando esta atitude como uma das grandes tarefas dos cristãos: testemunhar a fé através da conversão, do serviço e da transformação dos ambientes onde vivem.
Outro dos momentos centrais da homilia foi a reflexão sobre o verdadeiro tesouro da vida. O Vigário-Geral chamou a atenção para a tendência de procurar a felicidade na riqueza, no sucesso, no prestígio ou no poder, sublinhando que nenhuma dessas realidades consegue preencher plenamente o coração humano.
“Só o amor infinito de Deus pode preencher a nossa sede infinita de amor”, afirmou.
Olhando para a pequena imagem de Nossa Senhora do Monte e para as ofertas de ouro que os fiéis lhe confiaram ao longo dos séculos, o Cónego Marcos Gonçalves destacou que cada peça representa uma história de fé, uma súplica, uma lágrima, uma graça recebida ou uma ação de graças. Mas, acima de todo o ouro, está Jesus Cristo.
“A maior riqueza de Maria não é o ouro: é Jesus Cristo, que traz nos braços e para quem continuamente nos aponta”, afirmou.
Daí o desafio lançado aos fiéis: “Onde está o nosso tesouro? Em quem colocamos verdadeiramente a nossa esperança?”
Para o sacerdote, a devoção a Nossa Senhora não pode limitar-se às palavras ou aos momentos festivos. Exige escolhas concretas: colocar Deus em primeiro lugar, perdoar, servir, educar os filhos na fé, viver com honestidade, cuidar dos mais frágeis e trabalhar por uma sociedade mais justa e fraterna.
No final da celebração, o Cónego Marcos Gonçalves confiou à proteção de Nossa Senhora do Monte a Diocese do Funchal, o Bispo D. Nuno Brás, os sacerdotes e consagrados, as famílias, os jovens, os idosos, os doentes e, de modo particular, os emigrantes.
A Padroeira foi também invocada pelos responsáveis pela vida pública da Região, para que possam exercer as suas funções com sabedoria, justiça e espírito de serviço ao bem comum.
A celebração terminou com um convite a renovar a confiança na intercessão de Nossa Senhora e a descobrir em Cristo “o verdadeiro tesouro” da vida, mantendo viva “a alegria da fé e a esperança do Céu”.
Mais uma vez, o Monte tornou-se, assim, ponto de encontro de uma devoção que atravessa gerações e fronteiras e que, em cada 15 de agosto, reúne junto da Senhora do Monte madeirenses residentes na Região, peregrinos e muitos emigrantes que regressam à sua terra para celebrar, agradecer e pedir a proteção da sua Padroeira. A dimensão popular e religiosa desta festa faz dela uma das grandes expressões da fé madeirense, com a pequena imagem de Nossa Senhora a continuar a ocupar um lugar central no coração dos seus devotos.




























Leia na íntegra a homilia do Cónego Marcos Gonçalves:
HOMILIA NA FESTA DE NOSSA SENHORA DO MONTE (15-08-2026)
Caríssimos irmãos e irmãs,
Antes de iniciar a reflexão sobre a Palavra de Deus, permiti-me dirigir uma palavra de saudação e de gratidão a todos os que hoje se associam a esta grande festa da nossa Diocese e da nossa Região.
Saúdo, o sr. Padre Vitor Baeta, pároco do Monte e a todos os sacerdotes e consagrados. Saúdo com particular estima, as autoridades civis, militares, académicas e autárquicas aqui presentes; os representantes das diversas instituições; os peregrinos vindos das nossas paróquias e comunidades; os nossos queridos emigrantes; e todos os que nos acompanham através da televisão e da rádio.
A vossa presença manifesta que a fé continua a ser um património vivo da nossa terra e um sinal de unidade para o nosso povo.
Viagem do Sr. Bispo a Venezuela
Hoje aqui me encontro, como Vigário-Geral da Diocese, para presidir a esta celebração em nome do nosso Bispo, D. Nuno, que se encontra em visita pastoral às nossas comunidades na Venezuela. Leva a proximidade da Igreja do Funchal e o conforto do Evangelho a tantos irmãos nossos que continuam a sofrer as consequências do recente duplo terramoto. Rezamos por todos os nossos emigrantes. Rezemos por todos os que sofrem. No coração de Maria deixemos as nossas orações e preces.
A história de uma devoção
Caríssimos irmãos e irmãs,
A devoção a Nossa Senhora do Monte acompanha a história da Madeira desde os seus primórdios. A tradição conta que o primeiro menino nascido na ilha, chamado Adão, mandou construir neste monte uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Encarnação, origem do atual santuário. Ao longo dos séculos, este templo foi sendo reconstruído e embelezado, enquanto a devoção mariana crescia no coração do povo madeirense. Nos momentos mais difíceis da nossa história — perante terramotos, aluviões, epidemias e tantas outras provações que marcaram a vida da ilha — os madeirenses voltaram-se sempre para Nossa Senhora do Monte, encontrando nela uma Mãe que consola, fortalece e conduz a Cristo.
Neste dia da festa da nossa Padroeira, a Igreja celebra a Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Que significa, para nós, a Assunção?
Celebrar a Assunção é contemplar Maria plenamente associada à vitória de Cristo sobre a morte. A sua vida, inteiramente entregue a Deus, não terminou no sepulcro, mas abriu-se à plenitude da vida eterna. N’Ela vemos já realizado aquilo que esperamos para nós: não fomos criados para a morte, mas para a vida em Deus. Maria elevada ao Céu é, por isso, sinal da esperança da Igreja e da meta para onde caminhamos.
Mas a esperança do Céu não nos afasta da terra. Pelo contrário, dá-nos força para viver neste mundo, assumir as nossas responsabilidades, servir os irmãos e trabalhar por uma sociedade mais justa e fraterna. Quem sabe para onde caminha encontra também uma razão maior para amar e servir aqui e agora.
É precisamente esta esperança que encontramos na leitura do Apocalipse. São João apresenta-nos uma mulher revestida de sol e, diante dela, um grande dragão. É o confronto entre o projeto de Deus e as forças do mal. O dragão ameaça, procura destruir, mas não vence. Deus permanece fiel.
Esta Palavra é também para nós. Quantas vezes experimentamos o peso do mal, do sofrimento, da injustiça, da doença e da morte. Por vezes, podemos até pensar que são estas forças que têm a última palavra. A Assunção de Maria proclama exatamente o contrário: a última palavra pertence a Deus. Olhando para Nossa Senhora do Monte glorificada no Céu, contemplamos uma Mãe que intercede por nós e, ao mesmo tempo, um sinal de esperança: unidos a Cristo, também nós somos chamados à vida que não acaba.
Quando Maria recebeu o anúncio do Anjo, não guardou Deus apenas para si. Diz-nos São Lucas que «ela partiu apressadamente». Porque tanta pressa, Maria? Porque quem encontra Cristo não consegue guardá-Lo apenas para si. Maria leva Jesus no seu seio e, com Ele, leva também a alegria da salvação.
É esta a vocação de cada cristão: não viver a fé apenas na intimidade da consciência, mas testemunhá-la através da conversão do coração, do serviço aos irmãos e da transformação dos ambientes onde vive. Se nós não anunciarmos Cristo e o seu Evangelho, quem o fará?
O coração da humanidade precisa de Deus, porque só do encontro e da amizade com Ele pode nascer uma humanidade mais fraterna, mais generosa, mais justa e mais capaz de construir a paz. Quem se deixa transformar por Cristo torna-se, por sua vez, sinal da sua presença no mundo, levando esperança, consolação e amor àqueles que encontra no caminho.
Encontrar Cristo é descobrir o verdadeiro tesouro.
Há pessoas que passam a vida à procura de riqueza, sucesso, prestígio ou poder, pensando que aí encontrarão a felicidade. Tudo isso pode ter o seu valor, mas nada consegue saciar plenamente a sede mais profunda do coração humano. Só o amor infinito de Deus pode preencher a nossa sede infinita de amor.
Maria compreendeu esta verdade. Quando respondeu ao Anjo: «Faça-se em mim segundo a tua palavra», escolheu o tesouro que nunca passa: Deus e a sua vontade.
Ao olharmos para a imagem de Nossa Senhora do Monte, vemos as muitas ofertas em ouro que, ao longo dos séculos, os fiéis lhe confiaram. Cada peça guarda certamente uma história: uma súplica, uma lágrima, uma graça recebida, uma ação de graças. Mas a maior riqueza de Maria não é o ouro: é Jesus Cristo, que traz nos braços e para quem continuamente nos aponta.
Talvez por isso nos impressione também a pequenez desta imagem. Maria nunca quis ser grande; quis que Deus fosse grande nela. A verdadeira devoção a Nossa Senhora conduz-nos sempre a Jesus e repete-nos as suas palavras nas bodas de Caná: «Fazei tudo o que Ele vos disser.»
E hoje Maria convida-nos a perguntar: onde está o nosso tesouro? Em quem colocamos verdadeiramente a nossa esperança?
O Reino exige uma decisão.
Maria não ficou apenas admirada perante o plano de Deus. Decidiu-se. Confiou. Foi ao encontro de Isabel, acompanhou Jesus até à Cruz e permaneceu fiel quando tantos fugiram. Aí está ela, junto do seu Filho, junto de quem sofre e também ao nosso lado nos caminhos da vida.
Também nós somos chamados a tomar decisões concretas. Não basta dizer que somos cristãos ou que temos devoção a Nossa Senhora do Monte. O Evangelho pede escolhas: colocar Deus em primeiro lugar, perdoar, servir, educar os filhos na fé, viver com honestidade, cuidar dos mais frágeis e trabalhar por uma sociedade mais justa e fraterna.
Quem encontra Cristo vive com alegria e esperança.
Finalmente, Maria e Isabel abraçam-se. Em ambas, Deus fez maravilhas: Isabel, estéril e de idade avançada, dará à luz João Batista; Maria, sendo virgem, dará à luz Jesus. O que é impossível aos homens é possível a Deus. Também diante das nossas fragilidades, dificuldades e incertezas, Deus pode fazer maravilhas.
É então que Maria canta o Magnificat: «A minha alma glorifica o Senhor.» Glorificar o Senhor é dar-Lhe espaço, colocá-Lo no centro da nossa vida. Quanto mais Deus cresce em nós, mais a nossa vida se torna fecunda e mais nos tornamos capazes de levar Cristo aos outros.
Queridos irmãos e irmãs,
Ao contemplarmos hoje Nossa Senhora do Monte glorificada no Céu, renovemos a nossa confiança na sua intercessão.
Confiemos-lhe a Diocese do Funchal, o nosso Bispo D. Nuno Brás, os sacerdotes e consagrados, as famílias, os jovens, os idosos, os doentes e os nossos emigrantes. Coloquemos também sob a sua proteção os responsáveis pela vida pública da nossa Região, para que exerçam a sua missão com sabedoria, justiça e verdadeiro espírito de serviço ao bem comum.
Peçamos à nossa Padroeira que nos ensine a descobrir em Cristo o verdadeiro tesouro da nossa vida; que nos dê coragem para escolher segundo o Evangelho; e que mantenha viva em nós a alegria da fé e a esperança do Céu.


















