O Cónego Manuel Martins partilhou publicamente a sua experiência no percurso de tratamento de uma doença oncológica, num testemunho dirigido sobretudo a quem está agora a iniciar um caminho semelhante. Na sua página de Facebook, o sacerdote madeirense optou por falar sem esconder as dificuldades, sublinhando a importância de confiar na ciência, colaborar com as equipas de saúde, agarrar-se à vida e, para quem tem fé, encontrar em Deus uma fonte de esperança.
“Pediram-me para falar um pouco da minha experiência, neste percurso de tratamento de doença oncológica, pensando num familiar que está agora a começar este caminho”, começa por explicar o sacerdote, acrescentando que não faria sentido responder apenas com as palavras que tantas vezes se ouvem nestas circunstâncias: “tem força”, “vai correr bem”, “não desistas”.
Para o Cónego Manuel Martins, quem inicia um processo de doença oncológica “precisa de ouvir mais do que isso” e, sobretudo, “precisa de ouvir a verdade de quem já passou por lá”.
E essa verdade, reconhece, passa também pela dificuldade do percurso. “E a verdade é que não é fácil. Não é mesmo nada fácil”, afirma.
Ao longo do testemunho, o sacerdote recorda o primeiro momento após o diagnóstico, marcado pelo medo e pela incerteza, seguindo-se os exames, as decisões clínicas e os tratamentos. “Depois começam os exames, as decisões, os tratamentos, a quimioterapia, os efeitos secundários, o cansaço, a dor e aqueles dias em que o corpo parece não responder”, relata.
É também neste contexto que surgem as perguntas para as quais, muitas vezes, não existem respostas absolutas. “Será que este tratamento vai resultar? Será que vou conseguir chegar ao fim? Como vou estar amanhã?”, questiona, recordando dúvidas que também fizeram parte da sua própria experiência.
“Passei por esses momentos. Sei o que é sentir o peso de cada etapa e sei também que, por vezes, a nossa cabeça se enche de dúvidas e o desânimo aparece”, reconhece.
Por isso, o Cónego Manuel Martins afasta a ideia de que, perante uma doença desta natureza, basta “ter coragem” ou “pensar positivo”. “Não basta”, afirma, lembrando que a evolução de um tratamento depende de diferentes circunstâncias.
“O resultado de um tratamento depende de muitas circunstâncias que não controlamos. Depende da doença, da resposta do organismo, dos tratamentos e de tantos outros fatores”, explica. Mas, a partir da sua experiência, identifica também um papel ativo que cabe ao próprio doente.
“O doente não pode ser apenas um espectador daquilo que lhe está a acontecer”, defende, considerando que existe “uma parte ativa nesta luta”.
Nesse sentido, aponta a importância de cumprir as orientações clínicas, colocar questões, comunicar sintomas e dificuldades e colaborar com os profissionais de saúde. “Temos de cumprir, perguntar, comunicar o que sentimos, ouvir, colaborar, confiar e, dentro do possível, mantermo-nos envolvidos no nosso próprio tratamento”, afirma.
O sacerdote salienta ainda que a relação com médicos e enfermeiros deve assentar numa colaboração próxima. “Temos de dar à equipa médica e de enfermagem toda a informação e toda a colaboração necessárias”, refere.
Mas, para além da dimensão clínica, o testemunho do Cónego Manuel Martins coloca em evidência uma outra dimensão que considera essencial: encontrar uma razão para continuar.
“E essa razão, para mim, tem um nome muito simples: a vida”, escreve.
“Agarrarmo-nos à vida”
“Agarrarmo-nos à vida. À vida que temos, às pessoas que amamos, aos pequenos momentos que ainda queremos viver, a tudo aquilo que nos lembra que a vida é, afinal, a maior dádiva que recebemos”, afirma.
É nessa vontade de continuar a viver que encontra uma das principais razões para enfrentar as diferentes etapas do tratamento. “É por ela que vale a pena lutar”, sublinha, reconhecendo que haverá momentos de cansaço, medo e aparente falta de forças.
“Mesmo quando estamos cansados, mesmo quando temos medo, mesmo quando há dias em que parece não haver forças, há que tentar agarrar-se à vida e dizer: eu ainda quero viver, eu ainda tenho caminho para fazer”, escreve.
No testemunho, a fé ocupa igualmente um lugar central. “E, no meu caso, houve também uma outra força essencial: a fé”, afirma o sacerdote, que não esconde a sua condição de homem de fé ao longo de todo o processo.
“Sou sacerdote e nunca escondi aquilo que sou nem aquilo em que acredito”, declara, explicando que a sua fé em Deus constituiu um apoio profundo durante o tratamento.
O Cónego Manuel Martins não apresenta a fé como uma solução que elimina a doença ou as dificuldades. Pelo contrário, reconhece que acreditar não significou deixar de sentir medo ou ficar livre dos momentos difíceis.
“Não me retirou o medo, não me poupou às dificuldades e não tornou os tratamentos mais fáceis”, admite. Mas, acrescenta, a fé deu-lhe “algo de que precisei muitas vezes: esperança, confiança e a certeza de que não estava sozinho”.
“Acreditei sempre que Deus estava comigo”, afirma.
Para quem vive uma situação semelhante e tem fé, o sacerdote considera que esta confiança pode assumir uma importância particular. “Deus não nos abandona”, escreve, reconhecendo que o caminho pode incluir medo, dúvidas e até perguntas difíceis.
“Podemos sentir medo, podemos vacilar, podemos até perguntar porquê, mas podemos continuar a caminhar com a confiança de que Ele está ao nosso lado”, afirma.
“Ainda não terminou”
No testemunho público partilhado na sua página de Facebook, o Cónego Manuel Martins revela também que está “quase no fim” do processo de tratamentos, embora sublinhe que o percurso ainda não terminou.
“Eu já estou quase no fim deste processo de tratamentos, mas ainda não terminou. A vigilância é permanente. E estou com resultados muito bons”, revela.
O sacerdote faz questão, contudo, de não transformar a sua experiência numa promessa dirigida a outros doentes. “Digo isto não como quem promete a alguém que tudo vai correr bem, porque ninguém pode fazer essa promessa”, esclarece.
O que pretende transmitir é uma mensagem baseada na experiência concreta de quem atravessou já parte desse caminho. “Digo-o como alguém que sabe, por experiência própria, que mesmo quando o caminho parece demasiado duro, vale a pena continuar a percorrê-lo”, afirma.
Aos que enfrentam dias particularmente difíceis, deixa uma mensagem de realismo e perseverança. “Haverá dias em que a força será pouca. Nesses dias, talvez não seja preciso ser forte o tempo todo. É preciso apenas não desistir naquele dia. Depois vem o dia seguinte.”
A confiança na medicina e nos profissionais de saúde surge igualmente como uma das ideias centrais do testemunho. “Acreditem na ciência. Confiem nos médicos, nos enfermeiros e em todos os profissionais de saúde que vos acompanham”, apela.
E reforça: “Colaborem, perguntem, participem e façam a vossa parte. Confiem também em vós próprios.”
Para quem tem fé, acrescenta, há ainda outra dimensão a que se pode agarrar: “agarre-se a Deus e à esperança que Ele nos dá”.
O testemunho termina com uma mensagem que resume a experiência partilhada pelo sacerdote. Sem esconder a dureza da doença e dos tratamentos, o Cónego Manuel Martins procura transmitir esperança sem criar falsas certezas.
“Não vos vou dizer que vai ser fácil. Digo-vos algo que, para mim, tem muito mais valor: é difícil, mas é possível.”
E deixa um apelo a quem está agora a começar este caminho: “Enquanto houver tratamento, enquanto houver caminho para percorrer, enquanto houver uma possibilidade, lutem. Agarrem-se à vida. Não deixem que o medo decida por vós.”
“Porque as dificuldades podem ser enormes, mas não têm de ser elas a dizer a última palavra”, conclui.
As declarações integram um testemunho público partilhado pelo Cónego Manuel Martins na sua página pessoal de Facebook, no qual o sacerdote decidiu falar, a partir da sua própria experiência, sobre a doença oncológica, os tratamentos, o papel ativo do doente, a confiança na ciência e a importância da fé e da esperança perante a adversidade.


















