D. Nuno Brás: “Deus quer fazer grandes coisas em ti”

Bispo do Funchal presidiu às celebrações do Crisma no Porto da Cruz e na Ribeira Brava, onde foram crismados 71 fiéis

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal, D. Nuno Brás, esteve no domingo nas comunidades paroquiais do Porto da Cruz e da Ribeira Brava, onde presidiu às celebrações do Sacramento da Confirmação. Ao todo, receberam o Crisma 71 fiéis: 33 no Porto da Cruz, entre os quais 11 adultos, e 38 na Ribeira Brava.

Nas duas celebrações, o prelado dirigiu uma palavra particular aos crismandos, convidando-os a reconhecer a presença de Deus nas suas vidas e a confiar na ação do Espírito Santo. Partindo das leituras proclamadas, D. Nuno Brás centrou a sua reflexão em duas ideias fundamentais: Deus vem ao encontro de cada pessoa de forma surpreendente e quer realizar “grandes coisas” na vida daqueles que se colocam nas suas mãos.

Deus surpreende sempre

No Porto da Cruz, D. Nuno Brás começou por chamar a atenção para a primeira leitura, que apresenta o profeta Elias à procura da manifestação de Deus. Elias esperava encontrá-Lo em fenómenos grandiosos, no vento forte, no terramoto ou no fogo. Contudo, Deus manifesta-se numa “brisa suave”.

“Deus é imprevisível, Deus é surpreendente, Deus é maravilhosamente surpreendente”, afirmou o bispo, sublinhando que também na vida de cada pessoa Deus se manifesta de formas que nem sempre correspondem às suas expectativas.

“Deus vem ao teu encontro, mas não vem ao teu encontro de acordo com aquilo que tu queres”, explicou. “Vem ao teu encontro de uma forma surpreendente, maravilhosa, na tua vida, mas como Ele quer e não como tu queres.” Por isso, acrescentou, é necessário não esquecer que “Deus é sempre uma surpresa na nossa vida”.

Esta atitude de abertura à ação de Deus esteve também presente na reflexão sobre a segunda leitura, na qual São Paulo manifesta a sua preocupação pelo povo de Israel. Depois do encontro com Cristo, o apóstolo continuava profundamente ligado ao seu povo e sofria porque os seus irmãos ainda não tinham reconhecido Jesus como o Messias.

Para D. Nuno Brás, esta preocupação de São Paulo pelos outros constitui uma aprendizagem essencial para todos os cristãos. “Este preocupar-se com os outros. Este ser capaz de dar a vida pelos outros” é algo que todos precisam de aprender e continuar a aprender, afirmou.

O bispo observou que o ser humano tem uma tendência natural para colocar-se no centro. “No fundo, no fundo, no fundo, nós somos uns egoístas, que precisam de aprender o valor do outro”, disse, recorrendo ao exemplo de uma criança recém-nascida que chora quando tem fome, sem se preocupar com aquilo que está a acontecer à sua volta.

Mas a vida é também um processo de aprendizagem do valor dos outros. “Aprendemos que sem eles nós não somos nada”, afirmou.

A fé cristã, explicou, implica precisamente esta passagem de uma vida centrada em si próprio para uma existência capaz de reconhecer, acolher e servir os outros.

“Vem”: o convite de Jesus

A terceira dimensão da homilia partiu do Evangelho da caminhada de Jesus sobre as águas. Pedro, ao reconhecer Jesus, pede-Lhe que o faça ir ao seu encontro.

“Senhor, então se és tu, faz com que eu vá ter contigo”, recordou D. Nuno Brás. A resposta de Jesus é simples: “Vem”.

Pedro lança-se à água e começa a caminhar sobre as ondas. Mas, a determinada altura, começa a olhar para aquilo que está a acontecer, deixa-se dominar pelo medo e começa a afundar-se.

O bispo chamou a atenção para a atitude de Pedro nesse momento. Em vez de procurar resolver a situação apenas pelas suas próprias forças, Pedro grita: “Salva-me, Senhor”. Jesus estende-lhe a mão e salva-o.

Para D. Nuno Brás, este episódio contém uma mensagem central para a vida cristã. “Deus, com cada um de nós, quer fazer grandes coisas”, afirmou. “Deus quer fazer grandes coisas na tua vida”, repetiu, reconhecendo que muitas vezes as pessoas duvidam de que Deus possa efetivamente realizar algo de grande através delas.

O bispo esclareceu que esta ação de Deus não significa necessariamente algo extraordinário aos olhos humanos. Significa, antes, permitir que Deus transforme a própria vida e a conduza segundo a Sua vontade. Por isso, perante as dificuldades, a resposta não deve ser simplesmente tentar “nadar” sozinho.

“E tu, se tiveres fé, aquilo que fazes não é começar a nadar. Aquilo que fazes é gritar: salva-me, Senhor”, afirmou.

D. Nuno Brás convidou então os crismandos e toda a comunidade a fazer um momento de silêncio para se colocarem diante de Deus numa atitude de disponibilidade.

“Aqui estamos, para aquilo que Ele quiser. Não para aquilo que eu quiser, para aquilo que Deus quiser fazer em mim, para aquilo que Deus quiser fazer em ti, para aquilo que Deus quiser fazer em nós, connosco.”

E acrescentou: “Estamos disponíveis para sermos Seus discípulos. Estamos disponíveis para que em nós Ele faça maravilhas.”

“Deus quer fazer grandes coisas contigo”

Na Ribeira Brava, a reflexão de D. Nuno Brás retomou a mesma passagem evangélica e aprofundou o convite à confiança em Deus, dirigindo-se de forma particular aos 38 fiéis que receberam o Sacramento da Confirmação.

“As leituras de hoje convidam-nos, antes de mais, a um encontro com Deus, a deixar que Deus nos encontre”, afirmou no início da homilia.

O bispo explicou que, no fundo, toda a existência humana é uma procura de Deus, mesmo quando a pessoa não tem consciência disso. “Andamos à procura de Deus, andamos à procura daquele que dá a felicidade, daquele que é a felicidade”, afirmou.

A procura humana da felicidade leva muitas vezes a procurar satisfação em realidades passageiras. D. Nuno Brás recorreu, de forma bem-humorada, ao exemplo de um café: pode proporcionar “um momento de felicidade”, mas depois será necessário outro para repetir esse momento.

“A felicidade que eu procuro não está nos cafés, está em Deus”, afirmou.

Ao longo da vida, acrescentou, o ser humano procura felicidade, beleza e harmonia, mas essa procura aponta, em última análise, para Deus.

Também aqui retomou a figura do profeta Elias, que esperava encontrar Deus no vento, no terramoto ou no fogo, mas acabou por encontrá-Lo numa “brisa suave”.

“Deus quer vir ao teu encontro, mas Deus é sempre surpreendente”, afirmou. “Não és tu que determinas como é que Deus aparece, não és tu que determinas como é que Deus vem ao teu encontro. Deus determina, é Deus que escolhe.”

E escolhe vir ao encontro de cada pessoa “para fazer grandes coisas contigo”.

“Não vale a pena começarem a nadar por vocês”

A partir do Evangelho, D. Nuno Brás voltou a falar de Pedro e do seu caminhar sobre as águas, estabelecendo uma ligação com as dificuldades e os desafios da vida.

“Há um caminhar sobre as ondas da vida”, afirmou. “E às vezes como estas ondas da vida são difíceis, e às vezes como os ventos da vida e das opiniões e daquilo que dizem são difíceis.”

Pedro teve a ousadia de se lançar ao mar porque Jesus lhe disse: “Vem”. Por si próprio, explicou o bispo, Pedro nunca teria feito aquilo.

Contudo, quando começou a pensar que aquilo era “demais” para ele, começou a afundar-se. Ainda assim, teve a capacidade de reconhecer a sua fragilidade e pedir ajuda.

“Em vez de começar a nadar, em vez de começar a dar aos braços, disse, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: salva-me Senhor, salva-me Senhor.” Jesus estendeu-lhe imediatamente a mão.

É neste episódio que D. Nuno Brás encontrou uma mensagem especialmente dirigida aos que naquele dia recebiam o Crisma. “Percebe uma coisa, Deus quer fazer grandes coisas em ti, em ti”, afirmou.

E procurou afastar qualquer ideia de que a ação de Deus depende de uma vida perfeita ou de um percurso sem falhas. “Ah Senhor Bispo, mas eu na catequese fiz a vida negra aos catequistas e agora nosso Senhor quer fazer grandes coisas em mim.” A resposta, explicou, é precisamente essa: “Pois exatamente, quer fazer grandes coisas em ti, não tenhas dúvidas disso”.

Mesmo quem se sente afastado da religião ou pouco ligado à fé é chamado a reconhecer que Deus continua a querer realizar algo na sua vida.

“Ah, mas eu não ligo nada a estas coisas da religião, mas quero fazer grandes coisas em ti e contigo”, afirmou, retomando a lógica do Evangelho.

O Espírito Santo acompanha o cristão

Dirigindo-se diretamente aos crismandos da Ribeira Brava, D. Nuno Brás sublinhou que compreender esta ação de Deus é essencial para compreender o próprio Sacramento da Confirmação.

“Vocês que vão ser crismados, percebam isto, porque sem perceber isto, não são capazes de perceber o que é o Crisma”, afirmou.

O Crisma, explicou, implica reconhecer que Deus quer fazer “grandes coisas” em cada pessoa e que, para isso, é necessário acolher o Espírito Santo.

“Não vale a pena começarem a nadar por vocês”, disse. “Agora vale a pena, isso sim, aceitar o convite de Jesus. Vem.”

Ao receberem o Espírito Santo, os crismandos são chamados a reconhecer a presença permanente de Cristo nas suas vidas.

“Jesus que vos dá o seu Espírito, o Espírito Santo, Jesus que quer estar convosco 24 horas por dia, 24 horas por dia”, afirmou. “E onde quer que vocês estejam, o Espírito de Jesus está com vocês.”

Esta presença deve ser fonte de confiança, sobretudo nos momentos em que as dificuldades parecem maiores do que as próprias forças. “Grandes coisas, grandes coisas que o Senhor quer fazer convosco”, insistiu.

Um coração disponível para Deus

No final da celebração, D. Nuno Brás convidou os crismandos a fazerem um momento de silêncio e a agradecerem a Deus pela Sua presença.

O bispo pediu-lhes que reconhecessem que Deus não abandona ninguém e que continua a estender a mão nos momentos difíceis, mas também nos momentos de alegria e tranquilidade.

“Vamos agradecer-lhe o facto de Ele não nos abandonar, de Ele sempre nos deitar a mão, nas nossas situações mais difíceis e nas nossas situações mais alegres e mais fáceis”, afirmou.

A oração deveria ser também um pedido de disponibilidade. D. Nuno Brás pediu aos novos crismados “um coração aberto, disponível, dócil”, para que Deus possa realizar neles as Suas maravilhas, “como na Virgem Maria”.

O domingo ficou, assim, marcado pela celebração do Crisma em duas comunidades da Diocese do Funchal. Nas duas celebrações, a mensagem do bispo convergiu num mesmo apelo: confiar em Deus, não tentar controlar tudo pelas próprias forças e permanecer disponível para aquilo que Ele quer realizar.

A imagem de Pedro a caminhar sobre as águas tornou-se, nas duas comunidades, a imagem de uma fé que não elimina as dificuldades, mas permite atravessá-las com a certeza de que, quando o cristão grita “salva-me, Senhor”, Jesus continua a estender-lhe a mão.

Crismas na Paróquia do Porto da Cruz

Crismas na Paróquia da Ribeira Brava