Irmãs Vitorianas celebram jubileus de consagração religiosa e evocam os 110 anos da morte da Irmã Wilson

D. Nuno Brás convida as religiosas a "regressar à Porciúncula" e a renovar o entusiasmo da vocação

Foto: Duarte Gomes

A Catedral do Funchal encheu-se, na manhã de sábado, 1 de agosto, de religiosas, familiares, amigos, colaboradores e devotos da Venerável Irmã Maria de São Francisco Wilson para uma celebração marcada pela gratidão e pela memória. A Eucaristia, presidida por D. Nuno Brás, bispo do Funchal, assinalou os jubileus de profissão religiosa de várias Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, evocando simultaneamente os 110 anos da passagem para a eternidade da fundadora da congregação.

A Eucaristia foi concelebrada por vários sacerdotes da Diocese do Funchal e contou também com a presença do bispo emérito do Funchal, D. António Carrilho. Reuniu ainda membros da Associação Amigos da Irmã Wilson, representantes de diversas comunidades onde as Irmãs Vitorianas desenvolvem a sua missão e fiéis.

Antes do início da Missa, a irmã Maria da Conceição Fernandes Pena dirigiu-se aos presentes para explicar o significado daquela celebração. Recordou que, ao longo da semana, religiosas, colaboradores, amigos e devotos peregrinaram pelos locais ligados à vida da Venerável Irmã Wilson, numa caminhada espiritual que culminava agora na Catedral.

“Neste primeiro sábado do mês de agosto estamos aqui reunidos, em tão grande número, nesta Catedral do Funchal, irmãs, colegas, amigos da Irmã Wilson, vindos de várias partes do mundo, que ao longo desta semana peregrinámos pelos lugares marcados pela presença da Venerável Irmã Maria de São Francisco Wilson nesta ilha da Madeira, lugares que nos falam da sua vida e da sua fama de santidade”, afirmou.

A religiosa explicou que esta Eucaristia pretendia ser, antes de mais, uma ação de graças pelo dom que Deus concedeu à Igreja através da fundadora das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias. “Queremos agradecer a Deus o dom que foi esta grande mulher para a Igreja e para o mundo”, disse, recordando que foi precisamente na Diocese do Funchal que a Irmã Wilson deu início à congregação, hoje presente em onze países, onde continua a desenvolver uma vasta ação missionária.

A celebração assinalou igualmente os 110 anos da morte da Venerável Irmã Wilson, ocorrida a 18 de agosto de 1916. Para a irmã Conceição Pena, recordar esta data significa muito mais do que fazer memória de um acontecimento histórico. “Celebrar estes 110 anos é louvar e bendizer a Deus pelas maravilhas que realizou nesta mulher e através dela em toda a comunidade. É agradecer o dom da sua vida, do seu carisma e da sua espiritualidade, que hoje continuam a animar a ação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, dos membros da Associação Amigos da Irmã Wilson, dos muitos simpatizantes e dos inúmeros devotos que recorrem à sua intercessão.”

A religiosa fez ainda referência à liturgia própria celebrada neste dia, dedicada a Santa Maria dos Anjos, explicando que a primeira leitura apresentava a imagem da videira que produz frutos abundantes, uma imagem que, considerou, traduz bem a vida da fundadora da congregação. “Podemos dizer que a vida da Irmã Wilson foi também como uma videira que lançou rebentos graciosos e cujas flores deram frutos para a glória de Deus”, afirmou.

A celebração revestiu-se igualmente de um significado especial para várias religiosas da congregação que comemoraram, na Madeira e em Coimbra importantes jubileus de profissão religiosa. Assinalaram de Bodas de Prata (25 anos) a irmã Susana dos Passos. Bodas de Ouro (50 anos) as irmãs Maria Celeste da Silva Pontes, Maria José Capelo Monteiro, Maria da Conceição Vieira, Maria Bibiana de Sousa Furtado, Catarina Marques de Mendonça, Maria Augusta de Aguiar Fernandes, Maria Anália Carvalho Gonçalves, Maria de Fátima Gouveia, Maria de Fátima de Freitas Rocha e Maria Inês Gouveia de Sousa. Celebraram as Bodas de Diamante (60 anos) as irmãs Jesuína Batista dos Santos, Maria José Mendonça, Maria da Conceição Meneses, Maria Delmira Ribeiro Ferreira e Rosa Percina Chichurruane. Foram igualmente homenageadas a irmã Maria Guia de Freitas Mendonça, pelos 70 anos de profissão religiosa, e a irmã Maria Zita dos Santos (Odete), que assinalou 80 anos de profissão religiosa, constituindo um testemunho singular de fidelidade e dedicação ao serviço de Deus e da Igreja.

Referindo-se às jubiladas, a irmã Conceição Pena destacou que cada uma delas continua a seguir Cristo “nas pegadas de São Francisco e da Venerável Irmã Wilson”, colocando a própria vida ao serviço de Deus e dos irmãos. “Estamos aqui para levar a Deus a nossa gratidão. Elas deram o seu ‘sim’ a Deus, seguindo Cristo nas pegadas de São Francisco e da Venerável Irmã Wilson. Unidos a cada uma destas nossas irmãs, às irmãs da congregação, aos amigos da Irmã Wilson, aos seus familiares e amigos, levamos a Deus o nosso cântico novo de gratidão pelas maravilhas que realizou na vida de cada uma delas.”

Foi neste ambiente de ação de graças que teve início a celebração eucarística, durante a qual D. Nuno Brás convidou os presentes a olhar para a espiritualidade franciscana como um permanente convite ao reencontro com Cristo, partindo da memória de Santa Maria dos Anjos e da Porciúncula, tema central da sua homilia.

Regresso à Porciúncula

Na homilia, D. Nuno Brás partiu da memória litúrgica de Santa Maria dos Anjos para conduzir a assembleia ao coração da espiritualidade franciscana. O bispo do Funchal recordou o significado da pequena capela da Porciúncula, em Assis, lugar decisivo na vida de São Francisco, onde nasceu a Ordem Franciscana e que se tornou símbolo de misericórdia, perdão e renovação espiritual.

Foi precisamente a partir desta imagem que o prelado desenvolveu a sua reflexão, propondo às religiosas jubilares e a todos os presentes um regresso às origens da própria vocação.

Recordando o episódio em que São Francisco ouviu o crucifixo de São Damião dizer-lhe “Francisco, reconstrói a minha Igreja”, D. Nuno explicou que o santo começou por interpretar literalmente aquele pedido, restaurando igrejas em ruínas, até compreender que Deus o chamava a algo muito maior: renovar a própria Igreja através da vivência radical do Evangelho.

Foi na pequena igreja de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, acrescentou, que São Francisco encontrou o verdadeiro centro da sua missão. Ali fundou a Ordem dos Frades Menores, acolheu Santa Clara e as primeiras clarissas, reuniu os irmãos depois das longas missões de evangelização e foi também dali que partiu para a Casa do Pai.

“Era sempre à Porciúncula que Francisco regressava”, recordou o bispo. “Não apenas para reencontrar os irmãos, mas para recuperar o vigor da primeira resposta dada ao Senhor, a frescura do primeiro encontro com Deus.”

Aquele regresso às origens, afirmou D. Nuno Brás, continua a ser um convite atual para todos os cristãos e, de forma muito especial, para quem abraçou a vida consagrada.

“Somos também nós convidados a regressar à nossa Porciúncula”, afirmou, esclarecendo que esse regresso não significa viver preso ao passado, mas antes voltar ao momento fundador da vocação para reencontrar a força espiritual que alimenta a missão.

“O Senhor continua a caminhar à nossa frente, fazendo surgir em nós forças que jamais imaginaríamos possuir”, salientou, lembrando que toda a vocação nasce sempre da iniciativa de Deus.

Ao longo da homilia, o prelado insistiu precisamente nesta ideia: Deus surpreende continuamente aqueles que chama. “Antes de procurarmos Deus, já Ele nos saiu ao encontro”, afirmou, explicando que toda a história da salvação testemunha essa iniciativa divina, desde a Virgem Maria até São Francisco de Assis.

Também Maria, recordou, foi surpreendida pela proposta de Deus na Anunciação. Também São Francisco foi descobrindo, pouco a pouco, aquilo que o Senhor verdadeiramente lhe pedia.

“Jamais pensaríamos que Deus nos pudesse escolher”, observou, acrescentando que é precisamente essa surpresa que continua a alimentar cada vocação.

Dirigindo-se particularmente às irmãs jubilares, D. Nuno Brás sublinhou que celebrar cinquenta, sessenta ou setenta anos de vida consagrada não significa olhar apenas para o caminho já percorrido, mas renovar diariamente a resposta dada a Cristo.

“A surpresa tornou-se graça abundante”, afirmou, recordando que Deus nunca deixa de acompanhar aqueles que O seguem e continua a conceder-lhes as capacidades necessárias para a missão.

A segunda imagem desenvolvida pelo bispo foi a de Santa Maria dos Anjos, cuja memória a Igreja celebrava naquele dia.

Maria, explicou, conduz sempre a Cristo e manifesta, de forma maternal, a misericórdia de Deus.

“O esplendor de Maria não é seu, mas de Jesus”, afirmou, acrescentando que a Mãe de Deus continua a atrair todos para o seu Filho e a mostrar o caminho da verdadeira beleza, que nasce do amor de Deus.

Foi precisamente sob esta proteção de Nossa Senhora dos Anjos que D. Nuno Brás enquadrou a história da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias.

Recordou que, há 142 anos, a Venerável Irmã Maria de São Francisco Wilson, juntamente com o então bispo do Funchal, D. Manuel Agostinho Barreto, fundou a congregação, dando à Madeira uma nova expressão do espírito franciscano.

Ao evocar a fundadora, o bispo destacou a atualidade do seu legado.

“Não deixemos que o seu carisma enfraqueça por causa da falta de vigor da nossa fé, do emagrecimento da nossa esperança ou do obscurecimento da nossa caridade”, exortou.

Pelo contrário, convidou toda a congregação a deixar-se continuamente surpreender por Deus. “Regressemos, também nós, uma vez mais, à nossa Porciúncula, para nos deixarmos surpreender e maravilhar pelo Senhor que sempre vem ao nosso encontro.”

Segundo o bispo, só este reencontro constante com Cristo permitirá manter vivo o dinamismo missionário iniciado pela Irmã Wilson e hoje presente em onze países através da ação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias.

A celebração prosseguiu com a renovação dos votos das religiosas jubilares, num dos momentos mais significativos da Eucaristia. Diante da assembleia, renovaram o compromisso assumido no dia da profissão religiosa, reafirmando a vontade de continuar a seguir Cristo nos caminhos da pobreza, da castidade e da obediência, segundo o carisma franciscano e o espírito da Venerável Irmã Wilson.

A cerimónia ficou igualmente marcada pelo ambiente de ação de graças vivido ao longo de toda a celebração, reunindo religiosas provenientes de diferentes comunidades, familiares, amigos, colaboradores e numerosos devotos da Irmã Wilson.

Ao assinalar os 110 anos da morte da fundadora, os jubileus de 25, 50, 60 e 70 anos de profissão religiosa e a memória de Santa Maria dos Anjos, a congregação voltou a olhar para a sua história como um caminho de fidelidade que continua a dar fruto na Igreja e no mundo.

A Eucaristia, que em momento próprio contou com a renovação dos votos das irmãs, terminou num clima de alegria e comunhão, deixando ecoar o convite lançado por D. Nuno Brás: regressar continuamente às origens da vocação, para que o encontro com Cristo continue a renovar o entusiasmo da missão e a manter vivo o legado espiritual da Venerável Irmã Maria de São Francisco Wilson.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás: 

BODAS DE OURO DAS IRMÃS VITORIANAS

Memória de Nossa Senhora dos Anjos

Catedral do Funchal, 1 de Agosto de 2026

Regressar à Porciúncula 

1. “Francisco, reconstrói a minha Igreja”: como sabemos, o pedido que o jovem Francisco de Assis escutou ao crucifixo de S. Damião começou por ser tomado à letra: Francisco deitou mãos ao trabalho e reconstruiu a igreja de S. Damião, depois a de S. Pedro em Assis e, finalmente, a pequena capela de Santa Maria dos Anjos, já fora da cidade, edificada no meio de uma pequena propriedade beneditina (“Porciúncula”). 

No entanto, a Santa Maria dos Anjos, Francisco escolheu-a para lar: aí fundou a Ordem dos Frades Menores e a Segunda Ordem das Irmãs Clarissas; ali encontrou o ponto de partida e de chegada das suas inúmeras viagens; e ali se reuniam os irmãos quando regressavam das longas jornadas de pregação, partilhando as maravilhas que o Senhor fizera com eles e por eles; para ali convocou S. Francisco os primeiros capítulos gerais da Ordem; e dali partiu para o Céu, deixando aos seus e a toda a Igreja a herança maior da pobreza, do Evangelho vivido sem desconto.

Foi também na Porciúncula que, em 1216 (há 810 anos), estando S. Francisco em oração, contemplou, sobre o altar da pequena ermida, a Jesus rodeado de anjos, juntamente com sua Mãe. Em diálogo com o Senhor, Francisco pediu-lhe um perdão universal para quantos, arrependidos e confessados, visitassem aquela pequena igreja. 

A indulgência foi concedida pelo próprio Jesus, naquele mesmo momento, em atenção à vida de Francisco. Mas o Senhor exigiu que o Santo de Assis apresentasse o pedido ao Papa. Honório III acedeu de boa vontade, colocando, no entanto, a condição de que a peregrinação do perdão se realizasse na Porciúncula de 1 para 2 de Agosto. 750 anos depois, em 1966, o Papa S. Paulo VI estendeu o célebre “Perdão de Assis” a todas as igrejas franciscanas e a todas as igrejas paroquiais do mundo.

É pois o perdão universal, querido pelo Santo que mais influenciou a vivência da fé durante o último milénio cristão — o perdão querido por S. Francisco e, sobretudo, querido pelo próprio Jesus — é este perdão que agora estamos a viver, a celebrar, a acolher. É este contexto de perdão restaurador e universal, de alegria de quem acolhe a misericórdia, que nos serve como pano de fundo para celebrar o jubileu de consagração religiosa deste grupo de Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, agradecendo a Deus todo o seu trabalho apostólico e, sobretudo, o seu testemunho de entrega total a Jesus, obediente, casto e pobre.

2. Ainda que geográfica e cronologicamente distantes dos primeiros momentos franciscanos, procuremos também nós, por breves momentos, algumas notas que, despregando-se desses inícios, ainda hoje nos possam conduzir à vivência renovada da entrega crente, total e esponsal ao Senhor Jesus e ao seu serviço.

a) Deus sai-nos ao encontro. Esta é, sempre, a primeira realidade: surpreendente, inesperada, sobreabundante. Assim a encontramos já na Escritura: antes que o homem procure Deus, já este lhe saiu ao encontro. Aliás, sabemos que, acerca de Deus, nada poderíamos conhecer se Ele não se revelasse primeiro, se Ele não se mostrasse, e se não nos oferecesse a linguagem, as categorias para dizer esse encontro, a fim de o procurar entender e anunciar. 

E, no entanto, tudo na revelação divina é surpreendente. Estaríamos à espera duma voz, duma luz, tremendas e arrebatadoras, que nos mostrassem Deus com uma clareza tal que quase nos subjugasse e nos obrigasse a dizer-lhe sim. Jamais pensaríamos que a revelação fosse um acontecimento no correr da história e, sobretudo, que envolvesse a nossa história pessoal, que fosse proposta à nossa liberdade, que mendigasse o nosso acolhimento!

Deus na história — na nossa história! — eis a surpresa da própria Virgem Maria: “Como pode ser?”. Sabemos como ela tinha sido preparada para essa missão materna antes de todos os tempos. E, no entanto, quanta surpresa ao escutar que, nela, o Verbo se iria fazer carne!

Foi surpreendente, também para S. Francisco, o seu encontro com o Senhor — tão surpreendente que o Santo de Assis apenas foi percebendo aquilo que Jesus lhe pedia depois de vários acontecimentos: a sua missão não era a de reconstruir igrejas mas a de reformar a Igreja no seu todo, de repropôr o Evangelho com um novo vigor e na sua inteireza, assumindo, o mais próximo possível, não só os conteúdos como, também e sobretudo, a forma de viver do próprio Jesus.

Esta mesma surpresa a vivemos todos nós que, um dia, escutámos o chamamento do Senhor. Eventualmente, procurámos até desviar dele o nosso coração, julgando que jamais o Senhor nos poderia escolher. E, no entanto, a surpresa tornou-se, também em nós, graça abundante, sobreabundante: o Senhor não apenas nos acompanha como caminha à nossa frente, fazendo-nos surgir forças e energias que, por nós, jamais teríamos encontrado; capacidades jamais sonhadas ou desejadas.

b) Este encontro surpreendente é um acontecimento, história do nosso existir, momento fundador. Por isso, somos sempre convidados a regressar a ele.

Percebeu-o bem São Francisco quando, depois das suas pregações pela Itália ou fora dela, sempre sentia o apelo para regressar à Porciúncula. Não era apenas o reencontro com os irmãos, a partilha dos sucessos e das dificuldades; era a necessidade de regressar ao impulso primeiro, à frescura da novidade divina, àquela capacidade de escutar, de discernir e de partir, que é momento e fruto do vigor do Espírito Santo.

Somos, também nós, convidados a regressar à nossa “Porciúncula”, não para ficarmos prisioneiros de um passado mas para retomarmos o vigor porventura perdido; para sermos inundados, uma vez mais, pela claridade da luz divina, talvez ofuscada pelas sombras do nosso pecado; para reencontrar a capacidade missionária e, desse modo, percebermos em nós energias talvez não já físicas mas espirituais, de oração — sempre, no entanto, força de entrega total.