Na Madeira, Frei Pedro da Guarda é santo há séculos. Assim o reconhecem a tradição, a devoção popular e a memória de sucessivas gerações. Falta, porém, que a Igreja conclua o processo de beatificação iniciado há mais de 500 anos e dê uma resposta definitiva a uma causa marcada por numerosas interrupções e documentos perdidos.
Frei Pedro nasceu na cidade da Guarda, em 1435. Era filho de João Luís, tecelão de panos, e de Ângela (ou Águeda) Gonçalves. Cresceu numa casa marcada pelo acolhimento de pobres, peregrinos e enfermos, num ambiente de oração, trabalho e obras de misericórdia.
Aos 20 anos, entrou na Ordem dos Frades Menores. Professou como irmão leigo e passou cerca de 30 anos em vários conventos do continente, dedicando-se aos trabalhos domésticos, à oração, à assistência aos pobres e enfermos e à reconciliação de pessoas desavindas.
Em 1485, veio para a Madeira e integrou a comunidade franciscana do Convento de São Bernardino, em Câmara de Lobos, onde permaneceu durante 20 anos. Procurava um lugar retirado, no qual pudesse viver ignorado e entregar-se à contemplação, mas a sua fama de santidade rapidamente se difundiu pela Ilha. Exerceu sobretudo o ofício de cozinheiro e ficou conhecido pela extrema austeridade pessoal, usava um único hábito, velho e remendado, andava descalço e praticava jejuns rigorosos. Ao mesmo tempo, visitava presos, consolava os aflitos, assistia os enfermos e socorria os pobres.
Morreu em São Bernardino, a 27 de julho de 1505. A tradição afirma que os sinos do convento começaram a tocar sem intervenção humana. A devoção popular cresceu de imediato, São Bernardino tornou-se um importante centro de peregrinação e a sua imagem foi colocada em igrejas de toda a Madeira, onde lhe prestavam culto “como o têm os santos canonizados”.
Ao longo dos séculos, terão sido organizados onze processos com vista à beatificação. Um deles chegou a Roma e levou o Papa Urbano VIII a ordenar uma nova inquirição, concluída em 1628. Contudo, a cópia enviada à Santa Sé perdeu-se e a que permaneceu no Funchal apareceu posteriormente incompleta. Em 1835, o vigário capitular proibiu o culto e mandou queimar a imagem e as relíquias. A devoção, porém, sobreviveu e, em 1905, o bispo D. Manuel Agostinho Barreto declarou ilegítima aquela proibição.
A Madeira conservou a memória e a devoção a Frei Pedro, chamando-lhe há séculos “Santo Servo de Deus”, mas é necessário que, mais uma vez, a Igreja tome em mãos, as diligências canónicas e os estudos necessários para fazer avançar o processo.





















