Devoção a Frei Pedro da Guarda preservou Convento de São Bernardino, afirma Nelson Veríssimo

Na conferência realizada a 27 de julho, em Câmara de Lobos, o historiador defendeu que o culto a Frei Pedro foi decisivo para a sobrevivência do convento, ao contrário de outros conventos franciscanas da Madeira que, entretanto, desapareceram.

Foto: G. A.

A existência, nos nossos dias, do Convento de São Bernardino deve-se a Frei Pedro da Guarda, afirmou o historiador Nelson Veríssimo durante uma conferência sobre a representação deste frade franciscano na epopeia “Insulana”, publicada por Manuel Tomás em 1635.

O encontro, realizado no Convento de São Bernardino na segunda-feira, 27 de julho, assinalou o Dia de Frei Pedro da Guarda.

“Se esta casa, se este Convento de São Bernardino ainda hoje existe, deve-se a Frei Pedro da Guarda”, afirmou Nelson Veríssimo. A preservação da casa, sustentou, foi possível graças à continuidade de uma devoção que resistiu aos momentos mais difíceis da história do convento.

Segundo o historiador, o culto ganhou particular importância depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, e da posterior destruição das relíquias e proibição da devoção pelo governador do Bispado. Apesar disso, a Ordem Terceira manteve viva a ligação a Frei Pedro da Guarda.

“É esse sentimento, essa lembrança de Frei Pedro da Guarda, que mantém a casa de pé, em funcionamento”, declarou. O historiador contrapôs a sobrevivência de São Bernardino ao destino de outras casas franciscanas da Madeira, que acabaram por desaparecer. “Se não fosse a memória de Frei Pedro da Guarda, este convento franciscano não existiria”, afirmou, acrescentando: “Todos esses desapareceram. Este sobreviveu”.

Na interpretação apresentada durante a conferência, o culto conferiu ao convento uma função religiosa e comunitária que resistiu às sucessivas crises institucionais. Era em São Bernardino que se evocava o frade, se procurava a sua intercessão e se concentravam práticas de devoção capazes de mobilizar fiéis provenientes de diferentes pontos da ilha.

O convento “atraía romeiros” e “gente de fé que acreditava na intercessão de Frei Pedro da Guarda”, salientou Nelson Veríssimo. Essa circulação de devotos contribuiu para que o edifício permanecesse como lugar de memória, enquanto outras estruturas da presença franciscana no arquipélago deixaram de existir.

Um irmão leigo reconhecido como Servo de Deus

Frei Pedro da Guarda nasceu na cidade da Guarda, em 1435. Aos 20 anos, ingressou na Ordem Franciscana da Observância, onde professou como irmão leigo. Chegou ao Convento de São Bernardino em 1485, com cerca de 50 anos, e ali morreu a 27 de julho de 1505, aos 70 anos.

Nelson Veríssimo explicou que, ainda em vida, o frade era visto como uma figura singular no interior da comunidade. Depois da morte, despertou uma forte devoção na Madeira, passou a ser designado Servo de Deus e ficou associado a numerosos milagres. Essa fama de santidade daria origem a sucessivos processos de beatificação, embora Frei Pedro nunca tenha sido beatificado nem canonizado.

A memória do religioso mantém-se também na sua terra natal. Na Guarda, recordou o historiador, Frei Pedro está representado num painel de azulejos, acompanhado por um cão, evocando a tradição segundo a qual ajudava a localizar pessoas perdidas na neve.

128 estrofes dedicadas a Frei Pedro

A conferência partiu da presença de Frei Pedro da Guarda em “Insulana”, poema heroico de Manuel Tomás. Natural de Guimarães e residente na Madeira desde 1610, Manuel Tomás trabalhou como mercador no porto do Funchal e como intérprete de línguas estrangeiras, então designado por “língua”.

Publicado em Antuérpia e Ruão, em duas edições de 1635, o poema foi construído à imagem de “Os Lusíadas”. Divide-se em dez cantos e celebra o descobrimento e o povoamento da Madeira, tendo João Gonçalves Zarco como figura central. A narrativa articula as grandezas de Portugal, as viagens de Machim e de Zarco, os vaticínios da Ilha, do Tempo e de Proteu e as reflexões do próprio poeta.

O Livro VIII é composto por 128 estrofes. As primeiras 124 são dedicadas à vida, às excelências, à morte e aos milagres de Frei Pedro da Guarda, uma extensão que levou Nelson Veríssimo a colocar a seguinte questão: “Por que razão dedica ele o Livro VIII, com 128 estrofes, a Frei Pedro da Guarda? Não é comum um poeta tratar de um religioso com tal número de estrofes”.

No poema, a vida do frade é apresentada como “humilde e santa” e “rica da graça e de virtudes”. Manuel Tomás explora a associação bíblica entre Pedro e pedra, comparando o religioso com diferentes pedras conhecidas na época. Joga também com os vários sentidos da palavra “Guarda”: a cidade natal, a indicação de origem, o verbo guardar e o substantivo que designa quem protege ou vigia.

Entre as qualidades atribuídas a Frei Pedro encontram-se a amizade, a caridade, a piedade, a obediência, a fé, a prudência, a esperança, a fortaleza, a perseverança, a pobreza, a penitência, a simplicidade, a paciência, a verdade, a concórdia, a mansidão e a misericórdia.

Anjos na cozinha e terra milagrosa

O Livro VIII reúne igualmente os prodígios atribuídos ao religioso. Num dos episódios, anjos substituem Frei Pedro na cozinha enquanto este se dedica à oração. Noutros, a sua intervenção está associada à falta de pão, a uma cheia e ao fornecimento de alimentos ao convento.

Depois da morte, a terra retirada da sepultura passou a ser apresentada como remédio para diferentes males. “Insulana” associa-a à restituição da fala a um mudo e à cura da elefantíase, de uma hemorragia, da cegueira, de uma hérnia e de doenças da garganta e do estômago. A enumeração inclui ainda um celeiro atacado pelo gorgulho, cerejeiras danificadas, um navio em risco de naufrágio, um moribundo, um coxo, uma criança doente e uma pessoa queimada.

Para Manuel Tomás, o maior prodígio estaria no facto de a terra da sepultura nunca diminuir, apesar de ser continuamente retirada pelos devotos. A estrofe 114 afirma que a sepultura jamais ficava vazia, por mais terra que a devoção levasse.

Nelson Veríssimo explicou que os milagres foram investigados por dois teólogos, Frei João de Santa Maria e Frei Faustino da Madre de Deus. Durante o episcopado de D. Jerónimo Fernando, bispo do Funchal entre 1621 e 1650, foi também organizado um processo de beatificação.

Os processos de 1620, 1623, 1624, 1626 e 1628 terão servido de fonte a Manuel Tomás para a composição do poema, juntamente com a tradição oral e a devoção popular existente em toda a ilha. “Ele teve na mão aqueles processos”, observou o historiador.

Literatura ao serviço de uma causa

Ao procurar explicar a dimensão excecional concedida a Frei Pedro, Nelson Veríssimo apresentou diferentes hipóteses relacionadas com o próprio Manuel Tomás. Referiu a ascendência judaica do poeta e o ambiente marcado pelo Tribunal da Inquisição, bem como a sua religiosidade e a proximidade ao bispo D. Jerónimo Fernando.

Na leitura do historiador, dedicar tantas estrofes ao franciscano permitia apoiar a causa promovida durante aquele episcopado, afirmar a fama de santidade de Frei Pedro e favorecer o avanço do processo de beatificação. A literatura funcionava, assim, como instrumento de divulgação e legitimação de uma causa religiosa ainda sem reconhecimento oficial.

A conferência terminou com a projeção do “Ícone de Frei Pedro da Guarda”, obra de Tânia Pires realizada em 2021, em pintura sobre madeira de mogno, pertencente ao Museu da Guarda.

Nelson Veríssimo encerrou a intervenção sublinhando o propósito essencial do Livro VIII de “Insulana”: “Manuel Tomás quis divulgar a história de Frei Pedro da Guarda através do poema”.

Mais de cinco séculos depois da morte do frade, a conferência mostrou que essa divulgação literária, somada à devoção de gerações de madeirenses, não preservou apenas uma memória. Na interpretação defendida pelo historiador, ajudou também a preservar o próprio lugar onde essa memória continua viva: o Convento de São Bernardino.