O Convento de São Bernardino, em Câmara de Lobos, assinalou, na segunda-feira, 27 de julho, o dia de Frei Pedro da Guarda com uma Eucaristia presidida por Frei Nélio Mendonça, OFM. A celebração evocou a vida e a espiritualidade do religioso franciscano, falecido nesse mesmo dia, em 1505, cuja fama de santidade perdurou ao longo dos séculos.
Na homilia, Frei Nélio Mendonça partiu das parábolas do grão de mostarda e do fermento na massa para convidar os fiéis a desacelerarem e a recuperarem um olhar atento, capaz de reconhecer a presença de Deus nas realidades mais simples e discretas da vida.
Para Frei Nélio Mendonça, as parábolas do grão de mostarda e do fermento na massa revelam precisamente “o olhar atento de Jesus sobre o trabalho humilde do campo e da cozinha”. Foi a partir desta referência ao trabalho discreto e escondido que o sacerdote introduziu a figura de Frei Pedro da Guarda.
Frei Pedro procurou esconder-se do “aplauso do mundo”
“Nada mais a propósito deste dia em que evocamos a memória de Frei Pedro da Guarda”, afirmou o celebrante, recordando que o religioso chegou à Madeira em 1485 e se estabeleceu naquele lugar, antigamente conhecido como a “cova de São Bernardino”.
Frei Pedro da Guarda terá procurado o convento para se afastar da notoriedade e, como referem os cronistas, para se esconder do “aplauso do mundo”. Desejando permanecer ainda mais afastado do reconhecimento público, assumiu o ofício de cozinheiro.
A tradição popular associou este serviço a vários episódios extraordinários. “Dizem as lendas que, enquanto Frei Pedro se dedicava ao ofício dos anjos pela contemplação dos mistérios celestes, os anjos cuidavam das tarefas da cozinha, dado que, à hora das refeições, os frades encontravam tudo pronto a ser servido”, relatou.
O presidente da celebração salientou, contudo, que o religioso não ficou conhecido principalmente pelos seus dotes culinários ou pelos acontecimentos extraordinários que lhe foram atribuídos, mas pelo testemunho de vida que deixou, “pela sua grande humildade, pobreza e caridade para com o próximo”, destacou.
O pão encontrado na despensa
A preocupação de Frei Pedro da Guarda pelos pobres esteve no centro de vários episódios recordados durante a homilia. Num deles, o convento já não possuía pão para distribuir pelos mendigos que ali procuravam ajuda.
“Um dia, já não tendo o guardião do convento fatia de pão alguma com que pudesse aliviar a fome dos mendigos, Frei Pedro foi à despensa e nela encontrou o pão necessário para alimentar os pobres com abundância”, contou Frei Nélio Mendonça.
Noutra circunstância, os frades encontravam-se sem alimentos e impedidos de sair devido à violência das águas da ribeira. Perante a necessidade da comunidade, “mediante a oração de Frei Pedro, aparece alguém com o pão necessário”.
O celebrante acrescentou que os cronistas relatam “episódios semelhantes com o azeite, o peixe e a carne”, revelando uma tradição profundamente marcada pela confiança na providência divina e pela atenção às necessidades concretas dos mais pobres.
A oração de Frei Pedro não era, assim, uma fuga ao mundo ou às necessidades humanas. Pelo contrário, surgia intimamente ligada à partilha, ao serviço e à resposta à fome daqueles que batiam à porta do convento.
Uma alma profundamente contemplativa
Frei Nélio Mendonça destacou também a intensa vida interior do religioso, que dedicava grande parte do seu tempo à oração e à contemplação.
Ficou particularmente conhecida a gruta onde se recolhia para rezar. Segundo os relatos transmitidos, Frei Pedro era ali “arrebatado do chão por frequentes êxtases”.
A tradição atribui-lhe igualmente uma relação especial com a criação. “Os animais obedeciam-lhe”, recordou o celebrante, acrescentando que o religioso possuía “o dom da profecia e de refazer a paz junto das pessoas desavindas”.
Morte e fama de santidade
Frei Pedro da Guarda morreu a 27 de julho de 1505. Durante o período em que permaneceu sepultado no convento, os fiéis começaram a atribuir-lhe diversos sinais de santidade.
“Enquanto esteve na sepultura conventual, com capela que lhe era dedicada, exalava desta uma contínua fragrância ou odor de santidade”, referiu Frei Nélio Mendonça.
A fama do religioso cresceu, sendo-lhe atribuídos “muitos milagres, quer em vida quer após a morte”. A maioria desses acontecimentos terá ocorrido na Madeira, embora também tenham sido registados em Lisboa.
O celebrante mencionou ainda “a cura de dois frades que se deslocaram de propósito a São Bernardino para esse fim”, num testemunho da relevância que a devoção a Frei Pedro da Guarda alcançou para além de Câmara de Lobos.
A 28 de janeiro de 1597, procedeu-se à exumação e à trasladação das relíquias do religioso para a igreja conventual. A partir daí, iniciou-se a veneração pública, com aprovação eclesiástica.
“Deste modo, São Bernardino tornou-se, durante muito tempo, no maior destino de peregrinos e romeiros de toda a ilha da Madeira”, recordou Frei Nélio Mendonça.
“Para Deus sobe-se descendo”
Na conclusão da homilia, o presidente da celebração sintetizou a vida de Frei Pedro da Guarda através de duas expressões relacionadas com a simplicidade e a humildade cristãs.
“Após este breve relance biográfico de Frei Pedro, recordamos um velho ditado que afirma que ‘para Deus sobe-se descendo’ ou outro que diz: ‘quanto mais simples, mais de Deus’”, afirmou.
Frei Nélio Mendonça convidou os fiéis a reconhecerem na simplicidade, no serviço escondido e na atenção aos mais pobres um caminho de encontro com Deus. A vida de Frei Pedro mostra, segundo o religioso, que a grandeza evangélica não depende da visibilidade, do poder ou do reconhecimento público, mas da capacidade de rezar, servir, partilhar e reconciliar.
“Que o perfil humano e espiritual de Frei Pedro da Guarda e da Madeira, ou de Câmara de Lobos, nos inspire a recuperar este olhar atento sobre todas as coisas, sobretudo as mais simples e humildes, e que nos transmitem grandes lições de sabedoria evangélica”, desejou.
A homilia terminou retomando as imagens evangélicas que tinham orientado toda a reflexão e desafiando os cristãos a serem uma presença discreta, mas transformadora, na sociedade: “Sejamos nós este grão de mostarda e este fermento na massa dos nossos dias!”



























