Está a chegar a quarta, das cinco conferências, do ciclo de conferências dedicado à Devoção Reparadora dos Primeiros Sábados, promovido pela Sé do Funchal. A iniciativa, que desde a primavera tem aprofundado diferentes dimensões da Mensagem de Fátima e da espiritualidade do Imaculado Coração de Maria, tem, nesta sexta-feira, 31 de julho, às 18h30, uma conferência de Teresa Mendes de Almeida, subordinada ao tema “Confissão, Comunhão, Terço e Meditação: viver a espiritualidade dos Primeiros Sábados”.
Em declarações ao Jornal da Madeira, Teresa Mendes de Almeida sublinha que esta devoção continua plenamente atual, porque «o que está por trás do gesto de cumprir a Devoção Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados, o que nos é pedido verdadeiramente, é a conversão da nossa própria vida». A conferencista recorda que a prática pedida por Nossa Senhora não pode ser entendida como um simples conjunto de atos exteriores, mas como «uma resposta de amor ao Amor», acrescentando que essa é uma mensagem que permanece válida para o mundo de hoje.
A oradora explica ainda que a devoção dos Primeiros Sábados faz parte integrante da própria Mensagem de Fátima e não constitui um elemento secundário ou acrescentado posteriormente. «A Devoção reparadora dos Cinco Primeiros Sábados faz parte da Mensagem de Fátima. Não é um “extra”», afirma, defendendo que viver esta espiritualidade significa acolher o apelo permanente à oração, à penitência e à conversão, procurando reparar e consolar o Imaculado Coração de Maria através da Confissão, da Comunhão, da recitação do Terço e de 15 minutos de companhia a Nossa Senhora com a meditação dos mistérios do Rosário.
Porque é que Nossa Senhora pediu precisamente a Confissão, a Comunhão, a recitação do Terço e a meditação dos mistérios do Rosário?
Há cem anos, a 10 de dezembro de 1925, na Aparição em Pontevedra (Espanha), Nossa Senhora mostrou o seu coração cercado de espinhos e o Menino Jesus pediu: «Tem pena do Coração de tua SS. Mãe que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam sem haver quem faça um acto de reparação para os tirar.» Nossa Senhora fez então a grande promessa de conceder as graças necessárias à salvação das almas de todos aqueles que cumprissem a devoção reparadora dos Cinco Primeiros Sábados: «Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfémias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz que todos aqueles que durante 5 meses, ao 1.° sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 mistérios do Rosário, com o fim de Me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.» Porque indicou Nossa Senhora estas quatro condições, e não outras, não podemos explicar. Podemos, isso sim, confiar na pedagogia do Céu para connosco: as almas que cumprirem fielmente a confissão, a comunhão e rezarem o Terço, meditando nos mistérios e fazendo 15 minutos de companhia a Nossa Senhora, com verdadeiro amor filial, espírito reparador e consolador para com o Imaculado Coração de Maria, estarão em caminho de conversão, em caminho de salvação. Procurar reparar o Coração da nossa Mãe do Céu é aceitar e retribuir o seu amor de Mãe. É aceitar que nos leve a Jesus. É aceitar que nos indique e nos guie no caminho para o Pai. É aceitar a graça a agir em nós.
“Nossa Senhora fez então a grande promessa de conceder as graças necessárias à salvação das almas de todos aqueles que cumprissem a devoção reparadora dos Cinco Primeiros Sábados”
A Confissão tem de ser feita no próprio primeiro sábado ou pode ser realizada noutro dia? Em que condições?
Possivelmente tomando à letra o pedido de Nossa Senhora, Lúcia terá entendido que a confissão teria de ser feita ao sábado, em cada um dos cinco Primeiros Sábados. Assim, a 15 de fevereiro de 1926, quando o Menino Jesus lhe apareceu no pátio da casa de Pontevedra, e dada a provável dificuldade que, em 1926, as pessoas teriam em se confessarem ao sábado, Lúcia colocou essa questão ao Menino Jesus, pedindo que fosse válida a confissão de oito dias. O Menino Jesus concordou e disse: «pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e que tenham intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.» Lúcia também perguntou o que deveria fazer quem se esquecesse de formular a intenção de desagravar o Coração de Maria. Jesus respondeu: «Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem de se confessar.»
O que significa fazer a Comunhão em espírito de reparação ao Imaculado Coração de Maria?
Quando comungamos, recebemos no nosso coração a «Jesus Escondido», como diziam os Pastorinhos. Só o podemos fazer com um coração convertido. O que Nossa Senhora nos pede em cada Primeiro Sábado é afinal que procuremos aprofundar a nossa vida de cristãos, caminho único para a Casa do Pai. Trata-se então do aprofundamento permanente da nossa fé. Nunca é tarde demais para termos a coragem de mudar e procurar a nossa conversão. Comungar e confessarmo-nos frequentemente dá-nos a consciência do pecado e, ao mesmo tempo, da misericórdia o do amor infinito de Deus. Não vale a pena procurarmos enganar-nos, deixando-nos influenciar por mentalidades dominantes que tudo aceitam como permissivo e até inofensivo. Há também que ter a coragem de não nos deixarmos tentar, pensando que somos “bonzinhos”. À medida de cada um, somos pecadores. E por cada um dos nossos pecados, mesmo por aqueles que temos tendência a considerar como pequenos ou mesmo insignificantes, há um espinho que se crava no Coração Imaculado de Maria e que por isso espera reparação e consolação. A comunhão frequente é fonte de graça imensa que nos converte e nos ajuda a poder ser auxílio à conversão dos outros. A conversão é o ato reparador mais agradável a Deus e sempre querido por Nossa Senhora.
“O que Nossa Senhora nos pede em cada Primeiro Sábado é afinal que procuremos aprofundar a nossa vida de cristãos, caminho único para a Casa do Pai”.
Muitas pessoas rezam o Terço diariamente. O que distingue o Terço rezado no âmbito da devoção dos Primeiros Sábados?
Sempre que rezamos o Terço, com Maria e por Maria, vamos a Jesus. E Jesus leva-nos ao Pai. Atualmente, no ciclo semanal do Terço, contemplamos e meditamos os quatro ciclos dos Mistérios da Vida de Jesus (Gozosos, Luminosos, Dolorosos e Gloriosos). Assim, quando rezamos o Terço, mergulhamos na vida de Jesus. Esta oração diária, sob a ação do Espírito Santo e o olhar carinhoso da nossa Mãe do Céu, vai-nos moldando, vai-nos transformando, mergulhando-nos cada vez mais no Evangelho. É Jesus, nosso Redentor, que vai reparando o nosso coração, que nos vai transformando e salvando. Também assim é, em cada Primeiro Sábado. Quando ao rezar o Terço, procuramos acrescentar a dimensão reparadora e consoladora ao Coração de Maria cercado de espinhos, ou ao Coração de Jesus, significa isto que procuramos consolar e reparar os Corações do Amor por excelência, que tanto nos amam e a quem tanto amamos, apesar da nossa fragilidade e pecado. Quando o fazemos, são estes Corações feridos por todos os pecados da humanidade que pretendemos consolar. É por amor que nos entregamos, assumindo como nossa a tarefa de reparar e consolar, quer pelos nossos pecados, quer pelos pecados alheios. Quem ama, consola. Quem ama, permanece. Quem ama, faz companhia.
A meditação dos mistérios do Rosário é, talvez, o elemento menos conhecido desta devoção. Como pode ser vivida de forma simples e frutuosa?
Nos Primeiros Sábados, Nossa Senhora pede que lhe façamos 15 minutos de companhia, meditando nos mistérios da vida de Jesus. A Mãe da Misericórdia, que pede a companhia amorosa de seus filhos. É um convite a que a imitemos. Desde a Anunciação até à Cruz de Jesus, Maria meditava e tudo guardava no seu coração. Não há que complicar, não há que ter medo de não sermos capazes. Confiemo-nos a Ela e Ela nos indicará o caminho e nos guiará nestes 15 minutos de meditação reparadora.
Qual é a relação entre esta devoção e a mensagem de Fátima?
A Devoção ao Imaculado Coração de Maria é parte integrante da Mensagem de Fátima. A Devoção reparadora dos Cinco Primeiros Sábados faz parte da Mensagem de Fátima. Não é um extra. Não foi um “acrescento”, pelo facto de Nossa Senhora a ter pedido em Pontevedra apenas a Lúcia, alguns anos após 1917, quando São Francisco e a Santa Jacinta já tinham ido para o Céu. O anúncio do pedido da comunhão reparadora nos primeiros sábados foi feito por Nossa Senhora em 1917! Logo desde o início, nas Aparições do Anjo em 1916, e ao longo das Aparições de Nossa Senhora em 1917, o Imaculado Coração foi uma presença constante ao lado do Sagrado Coração de Jesus: «Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.»; «Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia.»; «Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»; «Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.»; «Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.»; «Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.»
“Sempre que rezamos o Terço, com Maria e por Maria, vamos a Jesus. E Jesus leva-nos ao Pai”.
Esta prática continua a ser atual no mundo de hoje? Que resposta pode dar aos desafios espirituais do nosso tempo?
A Mensagem de Fátima é uma mensagem de Oração, Penitência e Conversão. É um apelo à consciência do pecado. Por isso, a 13 de julho de 1917, na Terceira Aparição, Nossa Senhora ensinou aos Pastorinhos a jaculatória a rezar no final de cada Mistério: «Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem.» Quando pensamos na Grande Promessa de Nossa Senhora, de nos conceder as graças necessárias à salvação, num mundo onde tudo e todos são contabilizados e avaliados numa lógica redutora e meramente contabilística de uma folha de cálculo, podemos perguntar-nos: mas então é só isto? Basta cumprir durante cinco meses, ao primeiro sábado, o que Nossa Senhora pediu, para que na hora da minha morte, por intermédio d’Ela, me sejam concedidas as graças necessárias à salvação? Como se fosse uma “troca”? Não. De facto, não se trata de uma “troca”. Só podemos interpretar as palavras de Nossa Senhora na Aparição de Pontevedra no contexto global da Mensagem de Fátima: Oração, Penitência e Conversão. O que está por trás do gesto de cumprir a Devoção Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados, o que nos é pedido verdadeiramente, é a conversão da nossa própria vida. Não faz sentido que, durante cinco sábados procuremos reparar o Coração Imaculado de Maria, e depois, no dia a dia da nossa vida, nada mude. Não faz sentido que não respondamos com amor ao Amor gratuito de Deus por nós. É disso que se trata, uma reposta de amor ao Amor. E esta é sempre atual.
Que frutos espirituais tem observado nas pessoas que vivem esta devoção com perseverança?
Não me cabe a mim avaliar e ajuizar o íntimo dos outros. A conversão é um processo interior e íntimo no coração de cada um. A adesão à Mensagem de Oração, Penitência e Conversão é adesão ao Evangelho. Os três Pastorinhos tiveram a graça de viver esta adesão em conjunto, numa permanente e verdadeira entreajuda fraterna, numa missão conjunta da sua divulgação ao mundo inteiro. Em Igreja, é-nos dada a mesma graça, de o podermos fazer em comunidade nos grupos eclesiais em que estamos integrados. A salvação não é uma questão individual. A salvação joga-se em Igreja.
Como podem as paróquias ajudar os fiéis a descobrir e a praticar os Primeiros Sábados?
A devoção dos Primeiros Sábados foi aprovada e tornada pública por D. José Alves Correia da Silva, a 13 de setembro de 1939, em Fátima. Pode ser celebrada individualmente ou em comunidade. Sempre que, por justo motivo, alguém não possa celebrar o Primeiro Sábado no próprio sábado, pode celebrá-lo no domingo seguinte, desde que devidamente autorizado por um sacerdote, tal como Jesus revelou a Lúcia: «Será igualmente aceite a prática desta devoção no Domingo seguinte ao Primeiro Sábado, quando os meus sacerdotes, por justos motivos, assim o concederem às almas.» Cada paróquia tem o seu próprio dinamismo, a sua organização e estrutura. Assim, cada paróquia tem a capacidade de descobrir qual a melhor forma de propor a adesão à Mensagem de Oração, Penitência e Conversão, promovendo iniciativas nos dias e horas mais convenientes à vida da paróquia. Nos Primeiros Sábados, a disponibilização dos sacerdotes para as confissões e a celebração da eucaristia é essencial. Disponibilização de leigos e consagrados para preparar e organizar meditações e cânticos para o Terço e os 15 minutos de companhia reparadora ao Imaculado Coração de Maria são igualmente necessários. É preciso divulgar as iniciativas. Para além dos Primeiros Sábados pode ser promovida a divulgação da Mensagem de Fátima, a Adoração Eucarística, o Terço diário em comunidade, etc., etc. E porque não o estudo das Memórias da Irmã Lúcia, em encontros ao jeito de Lectio Divina? Pode ser usado o livro físico em papel, ou a sua versão digital em ficheiro PDF, disponível no site do Santuário de Fátima (www.fatima.pt/pt/documentacao). Viver Fátima é viver o Evangelho moldado pelos Corações de Jesus e Maria. Qualquer que seja a iniciativa, é preciso que o plasme.
O que a levou a dedicar-se ao estudo e à divulgação desta espiritualidade?
Pertenço à Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, uma Associação centenária fundada em 1924, que tem o carisma de servir os peregrinos no Santuário de Fátima e de viver e divulgar a Mensagem de Fátima.





















