Bispo desafia novos crismados a fazer de Deus o centro da vida

Foto: Duarte Gomes

A pergunta “O que é que te faz correr?” marcou as homilias de D. Nuno Brás nas celebrações do sacramento da Confirmação realizadas no passado fim de semana nas paróquias de São Jorge, Arco de São Jorge e Curral das Freiras. Perante 45 jovens e adultos que receberam o Crisma, o bispo do Funchal desafiou-os a descobrir aquilo que verdadeiramente dá sentido à vida e a fazer de Deus o seu maior tesouro, lembrando que é essa relação que dá unidade e orientação a todas as restantes dimensões da existência.

No sábado, D. Nuno Brás presidiu à Eucaristia na Paróquia de São Jorge, onde receberam o sacramento da Confirmação 12 fiéis, dos quais 11 jovens e um adulto. Seguiu depois para a Paróquia do Arco de São Jorge, onde foram crismados 13 fiéis, entre os quais dez jovens e três adultos. As duas comunidades são acompanhadas pelo Pe. Ricardo Freitas.

No domingo, o prelado deslocou-se ao Curral das Freiras, onde administrou o Crisma a 20 jovens e adultos, numa celebração acompanhada pelo pároco, o Pe. João Gonçalves.

Partindo das parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor, proclamadas no XVII Domingo do Tempo Comum, D. Nuno Brás explicou que Jesus convida cada pessoa a interrogar-se sobre aquilo que ocupa verdadeiramente o primeiro lugar na sua vida.

“A grande questão do Evangelho é esta: o que é que tu procuras na tua vida? O que é que te faz correr? Qual é aquela realidade pela qual estarias disposto a dar tudo?”, perguntou à assembleia.

Segundo o bispo, todos organizam a sua vida em função da resposta dada a esta questão. “À volta da resposta que damos a esta pergunta organizamos a nossa vida. Se não temos uma coisa que seja verdadeiramente importante, a vida torna-se desorganizada. Para construirmos alguma coisa precisamos de ter um centro.”

Esse centro, frisou, não pode ser outro senão Deus. “A tua relação com Deus deve ser o centro da tua vida”, afirmou, acrescentando que esta interpelação não é dirigida apenas aos jovens, mas a todos os cristãos. “Jesus pergunta-me a mim, bispo, se verdadeiramente a minha relação com Deus é mesmo o mais importante que eu tenho. Se tudo aquilo que eu faço, tudo aquilo que eu sou e tudo aquilo que eu tenho passa por esta relação com Deus.”

Reconhecendo que este desafio exige uma conversão permanente, D. Nuno Brás observou que Deus nunca deixa o cristão acomodar-se. “Deus está sempre a dizer-nos que podíamos ser melhores, que podíamos fazer mais, que podíamos dar mais.” É precisamente essa exigência do Evangelho, acrescentou, que leva cada pessoa a crescer na santidade e na autenticidade da sua fé.

Ao desenvolver a mensagem das parábolas, explicou que o Reino dos Céus não é uma ideia abstrata nem uma realidade distante, mas a própria relação de amizade e comunhão com Deus. “A nossa relação com Deus é tão importante que vale a pena entregar tudo aquilo que temos. O Reino merece que entreguemos tudo.”

Para tornar a mensagem mais próxima dos jovens, recordou uma história da sua terra natal, no Vimeiro, onde se contava que um rapaz recebeu uma nota de 20 euros, mas, por não ter carteira, acabou por comprar uma que custava precisamente os mesmos 20 euros. “Ficou sem os 20 euros, mas ficou com a carteira”, contou, utilizando este exemplo para ilustrar que as pessoas estão dispostas a abdicar de alguma coisa quando encontram aquilo que consideram realmente valioso.

A partir daí, explicou que todos fazem opções e renúncias por aquilo que amam. Há quem dedique anos de estudo para alcançar uma profissão, quem trabalhe para concretizar um sonho ou quem lute por um projeto de vida. Contudo, acrescentou, nenhuma dessas realidades deve ocupar o lugar que pertence a Deus.

“Aquela realidade que vale mesmo a pena correr por ela, viver por ela e morrer por ela é Deus”, afirmou. “Só Deus vale verdadeiramente a pena.”

Segundo o prelado, quando Deus ocupa o primeiro lugar, todas as outras realidades encontram o seu verdadeiro significado. “O curso, o trabalho, os sonhos, o amor, tudo ganha um novo sentido quando é vivido com Deus.” A fé, explicou, muda a forma de olhar para os outros, transforma as relações humanas e ajuda cada pessoa a viver não apenas para si própria, mas também ao serviço dos irmãos.

Referindo-se concretamente ao amor humano, alertou para a diferença entre amar e possuir. “Quando Deus está presente, até o próprio amor se torna diferente. Aprende-se a respeitar o outro e a construir uma relação fundada na entrega e não na posse.”

O bispo recordou igualmente que esta disponibilidade para colocar Deus acima de tudo continua a ser vivida por muitos cristãos em diferentes partes do mundo. Evocando o exemplo da Nigéria, onde continuam a ocorrer ataques contra comunidades cristãs, lembrou que muitos fiéis continuam a participar na Eucaristia mesmo sabendo que podem perder a vida.

“Há gente para quem a relação com Jesus Cristo é tão importante que vale a pena tudo”, afirmou. “Saem de casa sabendo que pode acontecer uma bomba durante a Missa e, mesmo assim, vão celebrar a Eucaristia.” Para o prelado, este testemunho mostra que o Evangelho continua hoje a ser vivido com radicalidade e fidelidade por muitos homens e mulheres.

Na segunda parte da homilia, D. Nuno Brás centrou a reflexão na primeira leitura, que apresenta o jovem rei Salomão. Chamado a governar o povo de Israel, Deus concede-lhe a possibilidade de pedir aquilo que desejar.

“O que é que tu pedias, se Deus viesse agora ao teu encontro e te dissesse: pede aquilo que queres?”, perguntou aos presentes.

O bispo observou que Salomão poderia ter escolhido riqueza, poder, fama ou a derrota dos seus inimigos. No entanto, fez um pedido muito diferente. “Salomão pediu um coração inteligente, capaz de distinguir aquilo que importa daquilo que não importa.”

Segundo o bispo diocesano, esta continua a ser a oração mais atual que qualquer cristão pode fazer. “Um coração inteligente é um coração que sabe viver com Deus e com os outros. É um coração que sabe distinguir o bem do mal, que sabe respeitar Deus e respeitar os outros. Isso chama-se sabedoria.”

Dirigindo-se particularmente aos jovens que recebiam o sacramento da Confirmação, explicou que os dons do Espírito Santo fortalecem precisamente essa capacidade de discernimento. “O Espírito Santo ajuda-nos a fazer escolhas acertadas, a perceber o que é verdadeiramente importante e a não nos deixarmos levar apenas por aquilo que passa.”

Ao longo da reflexão, D. Nuno Brás procurou ainda recordar aos novos crismados que a iniciativa da relação com Deus parte sempre do próprio Senhor. “Se Deus existe, então a grande questão é perceber qual é a nossa relação com Ele”, afirmou.

“Tu és a pessoa mais importante para Deus”, disse aos jovens. “Se Deus te criou, se Deus te amou ao ponto de vir ao teu encontro em Jesus Cristo, então tu és importante para Ele.”

A partir desta certeza, lançou uma nova interpelação. “E Deus? É importante para ti? Escutá-Lo todos os dias? Procurar viver com Ele? Deixar que seja Ele a guiar aquilo que fazes, aquilo que pensas e aquilo que sentes?”

O prelado alertou para o risco de viver uma fé apenas ocasional ou reduzida a momentos pontuais da vida. Há quem reconheça que Deus existe, observou, mas prefira mantê-Lo distante. No entanto, a proposta cristã é diferente, porque passa por estabelecer uma verdadeira relação com Deus, capaz de iluminar todas as decisões e todos os momentos da existência.

Na conclusão da homilia, D. Nuno Brás convidou toda a assembleia a fazer sua a oração de Salomão, pedindo ao Espírito Santo o dom da sabedoria e de um coração capaz de reconhecer o essencial.

“Senhor, dá-me um coração inteligente. Ajuda-me a perceber como Tu és importante na minha vida. Ajuda-me a perceber como eu sou importante na Tua vida. Ajuda-me a nunca mais me separar de Ti e a deixar que sejas Tu a guiar as minhas escolhas, aquilo que eu faço, aquilo que eu penso e aquilo que eu sinto.”

Convidando todos a um momento de silêncio, o bispo pediu que essa oração acompanhasse particularmente os novos crismados, para que o dom recebido na Confirmação produza frutos ao longo de toda a vida.

No final das celebrações, quer o Pe. Ricardo Freitas quer o Pe. João Gonçalves agradeceram a presença do bispo do Funchal e a disponibilidade manifestada para acompanhar as respetivas comunidades neste momento tão significativo da sua caminhada de fé, sublinhando a alegria de receber o prelado e o incentivo que a sua presença representou para os novos crismados.

Foi neste ambiente de oração, alegria e compromisso que os 45 jovens e adultos das três paróquias receberam o sacramento da Confirmação, fortalecendo a sua pertença à Igreja e renovando o compromisso de testemunhar Cristo no quotidiano, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo nas escolhas, nos desafios e nas responsabilidades que os esperam.

Crismas na paróquia de São Jorge

Crismas na paróquia do Arco de São Jorge

Crismas na paróquia do Curral das Freiras