A Eucaristia é o alimento que sustenta a vida dos cristãos, fortalece a esperança e faz nascer uma verdadeira comunidade de fé. Foi esta a principal mensagem deixada pelo bispo do Funchal, D. Nuno Brás, na solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, celebrada no domingo, dia 26, na Paróquia do Campanário, onde presidiu à Eucaristia perante uma igreja repleta de fiéis.
A celebração reuniu a comunidade paroquial e muitos visitantes, numa das festividades religiosas mais enraizadas da freguesia. Concelebraram o pároco, padre Adelino Ascensão, e os três sacerdotes ordenados nos últimos anos com ligação ao Campanário, num sinal da vitalidade vocacional da paróquia.
No início da celebração, o padre Adelino Macedo Costa recordou todos aqueles que, ao longo do ano, mantêm vivo o culto ao Santíssimo Sacramento, dirigindo uma palavra de gratidão aos ministros extraordinários da Comunhão, em especial aos que levam diariamente a Eucaristia aos doentes. A oração da assembleia abrangeu ainda as vítimas do recente terramoto na Venezuela, os irmãos vivos e falecidos da Confraria do Santíssimo Sacramento, os benfeitores da festa e todos aqueles que, ao longo das gerações, contribuíram para promover a devoção eucarística na comunidade.
O pároco lembrou igualmente o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, assinalado naquele domingo, evocando o tema proposto pelo Papa, “Eu jamais vos esquecerei”, retirado do livro do profeta Isaías. A propósito desta celebração, sublinhou que a longevidade “não é um peso a ser gerido, mas um dom a ser valorizado”.
Na homilia, D. Nuno Brás começou por confessar a alegria que sentiu ao chegar ao Campanário e encontrar toda a freguesia preparada para celebrar o Santíssimo Sacramento. “À medida que vinha para aqui, os sinais de festa multiplicavam-se e o meu coração ia-se também alegrando”, afirmou. Para o bispo, os tapetes, os enfeites e toda a preparação da comunidade eram expressão de uma fé viva. “Esses sinais mostram-nos uma comunidade que está em festa por causa do Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor, uma comunidade que percebe como a Eucaristia é qualquer coisa de importante, qualquer coisa de essencial na nossa vida de fé”, vincou.
Partindo desta constatação, o prelado convidou os fiéis a fazerem uma pergunta muito concreta: “O que seria de nós? O que seria da nossa fé se não tivéssemos a Eucaristia?” Segundo explicou, responder a esta questão permite compreender a verdadeira importância deste sacramento na vida cristã.
Para ilustrar essa realidade, recorreu às imagens da fome que afeta tantas populações em diferentes partes do mundo. “Creio que existe uma imagem que nos ajuda a perceber isso. Aquelas tristes imagens que vemos dos povos de África onde não existe alimento, das crianças desfiguradas porque não têm alimento, de homens e mulheres que quase não conseguem andar. A nossa vida da fé seria exatamente da mesma maneira se não tivéssemos a Eucaristia.”
Desenvolvendo esta comparação, D. Nuno Brás explicou que uma vida sem a Eucaristia seria “uma vida raquítica, pouco desenvolvida, sem capacidade de caminhar, de peregrinar e de louvar a Deus”, porque faltaria o alimento indispensável para o crescimento espiritual.
Em contraste, afirmou que a Eucaristia oferece ao cristão a certeza da presença permanente de Deus: “O alimento da Eucaristia diz-nos, em primeiro lugar, que Deus está connosco. Diz-nos que Deus não nos abandona. Mesmo nas situações mais difíceis, quando toda a nossa vida parece deixar de ter sentido, Deus está ao nosso lado.”
Essa presença, acrescentou, transforma completamente a forma como cada pessoa enfrenta as dificuldades. “Deus ao nosso lado não nos deixa desanimar. Dá-nos sempre coragem para enfrentar tudo aquilo que está à nossa frente, quaisquer que sejam as dificuldades.”
Foi neste contexto que evocou o sofrimento vivido recentemente pelo povo venezuelano, atingido por um forte terramoto, encontrando precisamente na fé um motivo para continuar a caminhar.
“O testemunho dos nossos irmãos da Venezuela mostra-o muito claramente”, afirmou, acrescentando que o mesmo aconteceu ao longo da história da Madeira. “O testemunho dos nossos antepassados madeirenses diz-nos isso mesmo. Um povo de luta, um povo de sofrimento, que encontrou na Eucaristia o ânimo para ultrapassar todos os obstáculos, o ânimo para viver, para construir e para nunca baixar os braços.”
Prosseguindo a reflexão, o bispo explicou que a Eucaristia não significa apenas que Deus caminha ao lado dos homens, mas que passa verdadeiramente a habitar neles.
“Quando chegamos à igreja procuramos logo o sacrário, reconhecemos a presença do Senhor. Mas quando comungamos acontece algo ainda maior: transformamo-nos em sacrários vivos. Deus está em nós.”
Para D. Nuno Brás, esta consciência deveria encher os cristãos de alegria e refletir-se na maneira como vivem diariamente.
“Como é que poderíamos ficar indiferentes? Como é que poderíamos ficar apáticos quando comungamos o Senhor? Jesus ressuscitado está em nós, alargando o nosso coração, ajudando o nosso pensamento e permitindo que os nossos sentimentos não sejam de ódio, mas de amor.”
A presença de Cristo na Eucaristia, prosseguiu, transforma progressivamente toda a existência humana. “A Eucaristia vai transformando aquilo que em nós ainda cabe em virtudes, em sentimentos semelhantes aos do Senhor Jesus Cristo. Dá-nos a garantia da vida eterna e faz-nos compreender que a nossa vida terrena não termina, antes se transforma em vida eterna.”
Essa transformação, explicou, nunca é apenas individual. Pelo contrário, conduz à construção de uma autêntica comunidade cristã. “A Eucaristia faz de nós uma verdadeira comunidade. Não apenas uma comunidade humana, mas uma comunidade cristã, onde a caridade é o amor de Deus presente em nós e onde cuidar do outro nunca é indiferença.”
Segundo o bispo, é precisamente esta experiência de comunhão que torna a Igreja um sinal do próprio Céu. “Aquilo que vemos e experimentamos nesta celebração é já este louvor eterno que, através de nós, toda a Igreja presta a Jesus Cristo.”
Na conclusão da homilia, D. Nuno Brás deixou um forte apelo à participação na Eucaristia dominical e à oração pelas vocações sacerdotais.
“É por isso que nós não podemos passar sem a Eucaristia. Não podemos passar um domingo sem a Eucaristia. É por isso que necessitamos de sacerdotes que nos deem o pão da Eucaristia. Não podemos desistir de nós mesmos, porque o próprio Jesus não desiste de nós”, sublinhou.
Terminada a celebração eucarística, saiu a tradicional procissão do Santíssimo Sacramento, que percorreu as principais ruas do Campanário. Ao longo de todo o percurso, milhares de flores ornamentavam os tapetes preparados pelos moradores, enquanto as varandas se apresentavam adornadas com colchas. À passagem do Santíssimo, muitas pessoas lançaram pétalas de flores, num gesto de veneração que deu expressão pública à fé da comunidade e encerrou uma das celebrações religiosas mais participadas da freguesia.














































