A Diocese do Funchal apresentou, na manhã de sábado, 25 de julho, na Igreja do Colégio, o Programa Pastoral para 2026/2027, que terá como lema “Sede praticantes da Palavra” (Tg 1,22). Perante sacerdotes, diáconos, religiosos, consagrados e leigos provenientes de diversas paróquias e movimentos da Diocese, D. Nuno Brás explicou que o novo ano pastoral pretende colocar a Palavra de Deus no centro da vida cristã, convidando todos os fiéis a passar da escuta à vivência concreta do Evangelho.
Logo no início da apresentação, o bispo do Funchal frisou que a Sagrada Escritura não pode ser encarada apenas como mais um livro, mas como o lugar privilegiado onde Deus continua a falar ao seu povo.
“Aquilo a que nós somos convidados é antes entender e conhecer a Sagrada Escritura como Palavra de Deus, como aquele meio através do qual Deus nos fala. Deus vem até nós”, afirmou.
Partindo desta ideia, D. Nuno Brás desenvolveu uma reflexão sobre a Palavra como forma de Deus revelar a sua intimidade ao ser humano, recordando que Jesus Cristo é o Verbo feito carne e a manifestação plena do Pai.
“Como é que nós conhecemos Deus senão pela sua Palavra? Deus é aquele que se diz. E diz-se não apenas com conceitos ou doutrina, mas através da sua ação. Em Jesus de Nazaré, o Verbo fez-se carne. Deus diz-se através de Jesus.”
Segundo o prelado, toda a Escritura conduz a Cristo e é precisamente esse encontro que o Programa Pastoral pretende aprofundar ao longo do próximo ano.
“O que queremos é conhecer melhor esta Palavra que vem até nós. Toda a nossa vida cristã é um encontro com Jesus Cristo, mas precisamos de conhecer melhor a Sagrada Escritura para conhecer melhor Aquele que nela se revela.”
Escutar não basta
O lema escolhido para este ano pastoral foi igualmente explicado pelo bispo, que insistiu na necessidade de transformar a escuta da Palavra em compromisso concreto.
“‘Sede praticantes da Palavra’. Não vos limiteis a escutar. Escutar significa deixar que a Palavra entre pelos nossos ouvidos e permaneça no coração. Mas a vida cristã pede mais. Pede que a Palavra de Deus tome conta de nós para nos fazer sua presença no mundo”, frisou.
Nessa perspetiva, afirmou que hoje é através dos cristãos que Cristo continua presente na sociedade. “Como é que Jesus está presente hoje? Está presente através dos cristãos. Nós somos hoje a carne da Palavra de Deus. Cada cristão é chamado a deixar que Cristo viva nele.”
Citando São Paulo, D. Nuno Brás apontou aquele que considera ser o grande objetivo da vida cristã. “Que bom seria chegarmos ao fim da vida e podermos dizer com verdade: ‘Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim’.”
Fazer da Palavra o centro da vida da Igreja
O Programa Pastoral propõe que toda a ação evangelizadora da Diocese tenha como ponto de partida a escuta da Palavra de Deus.
Segundo explicou o bispo, trata-se de fazer da Bíblia não apenas objeto de estudo, mas verdadeira fonte de discernimento, oração, missão e transformação pessoal. “A Palavra de Deus não é apenas uma mensagem para ser acolhida. É vida para ser assumida, caminho para ser percorrido e missão para ser realizada no meio do povo.”
Acrescentou que é precisamente a escuta da Palavra que permite renovar continuamente a vida das comunidades cristãs. “A Palavra ajuda-nos a perceber quem somos, para onde devemos ir e mostra-nos sempre que podemos ir mais longe. Deus diz-nos continuamente: tu podes parecer-te ainda mais com Jesus.”
Cristo deve estar sempre no centro
Um dos momentos mais marcantes da intervenção surgiu quando D. Nuno Brás alertou para o risco de as atividades pastorais se centrarem apenas na sua dimensão organizativa, esquecendo o essencial. A partir daí deixou um apelo repetido várias vezes ao longo da apresentação.
O bispo explicou que todas as iniciativas pastorais só encontram sentido quando conduzem verdadeiramente ao encontro com Jesus.
“Às vezes dizemos: ‘Que bonitas correram as festas’. Mas Cristo esteve no centro? Ou a nossa preocupação era apenas que tudo corresse bem? Na primeira comunhão, no Crisma, nas festas das paróquias, a grande preocupação tem de ser sempre Cristo.”
Para o responsável pela Diocese, colocar Cristo no centro significa reconhecer que Deus continua presente em cada momento da existência.
“O caminho da nossa Igreja passa por passar da Escritura à oração, à adoração e à vida, para viver tudo na presença de Deus e com Ele.”
Prosseguindo a reflexão, explicou que essa presença divina não deve ser entendida como vigilância, mas como companhia permanente.
“Vivemos constantemente na presença de Deus. Não como um polícia ou um estranho que está de fora, mas como alguém que está ao nosso lado, que nos ajuda, que nos dá coragem e força.”
Conversão pastoral permanente
Outro dos grandes eixos do Programa Pastoral passa pela necessidade de uma renovação contínua da ação evangelizadora.
Segundo D. Nuno Brás, a Igreja não pode acomodar-se à repetição de modelos simplesmente porque sempre foram assim.
“Não podemos achar que é suficiente aquilo que já fazemos. Quando alguém diz ‘sempre se fez assim’, a pergunta é: hoje ainda há razões para fazer assim? Ou devemos encontrar novas formas de anunciar Jesus Cristo?”
O bispo explicou que esta atitude corresponde precisamente ao que designou por conversão pastoral permanente. “Deus empurra-nos, desinstala-nos constantemente na nossa vida pastoral. Não podemos ficar acomodados.”
Ao mesmo tempo, sublinhou que esta renovação só será possível envolvendo toda a comunidade cristã. Desde “leigos, consagrados e ministros ordenados, todos são necessários. A graça que Deus dá a cada um nunca é apenas para si próprio. É sempre para o bem de todos.”
Foi neste contexto que apelou a uma verdadeira dinâmica de corresponsabilidade entre todos os membros da Diocese.
“Cada um tem a sua missão própria, mas todos somos necessários para construir a Igreja.”
A santidade é para todos
Na parte final da sua intervenção, antes de apresentar as linhas operativas do Programa Pastoral, D. Nuno Brás recordou que o horizonte de toda a vida cristã continua a ser a santidade. Por outras palavras, “o nosso objetivo é este: a santidade.”
Reconhecendo que muitos olham para a santidade como algo reservado a poucos, respondeu com simplicidade. “Porquê não tu? Se Deus te chama à santidade, porque não hás de ser santo?”
Num tom descontraído, partilhou até um sonho pessoal. “Já imaginaram? No meio do Atlântico havia uma ilha onde todos eram santos. É um sonho do bispo… mas porque não?”
A concluir esta primeira parte da apresentação, recordou que ninguém pode demitir-se da missão de anunciar Cristo: “Cada um de nós é chamado a anunciar Jesus Cristo, empenhando-se também na justiça, na reconciliação e na paz. O Evangelho não nos fecha os olhos. Pelo contrário, abre-nos os olhos e o coração.”
Depois de apresentar os grandes eixos espirituais e pastorais do Programa Pastoral 2026/2027, D. Nuno Brás deu a conhecer algumas das principais linhas operativas que irão orientar a vida da Diocese ao longo do próximo ano. O objetivo, explicou, passa por fazer com que o lema “Sede praticantes da Palavra” não permaneça apenas como um tema inspirador, mas se traduza em iniciativas concretas que ajudem as comunidades a conhecer, rezar, celebrar e viver cada vez mais a Sagrada Escritura.
Entre as prioridades apontadas pelo bispo do Funchal está a valorização da formação bíblica. Nesse sentido, anunciou a realização de um curso sobre a Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, na Escola Teológica Diocesana, bem como a retoma da Semana Bíblica Diocesana, uma iniciativa interrompida durante a pandemia e que considera importante recuperar.
Ao mesmo tempo, pretende-se reforçar o papel dos leitores nas celebrações litúrgicas, promovendo a sua formação e um compromisso público durante a Solenidade do Corpo de Deus.
“Nem toda a gente serve para ler a Sagrada Escritura. É preciso formar, preparar, ajudar as pessoas a proclamarem bem a Palavra de Deus”, observou o prelado, defendendo que a proclamação das leituras deve ser feita com dignidade e preparação, para que a Palavra seja verdadeiramente acolhida pelas assembleias.
O programa contempla igualmente a criação ou dinamização de grupos bíblicos paroquiais, a aprendizagem da Lectio Divina, retiros espirituais centrados na Palavra de Deus, momentos de oração bíblica, a celebração diocesana do Domingo da Palavra e a continuação do caminho sinodal iniciado nos últimos anos.
Outra das preocupações manifestadas por D. Nuno Brás prende-se com a implementação efetiva dos Conselhos Pastorais e Económicos nas paróquias, um objetivo que, reconheceu, continua por concretizar em muitos locais. “É uma batalha de há muitos anos. Precisamos de continuar a insistir para que as nossas comunidades vivam verdadeiramente a corresponsabilidade.”
O bispo voltou ainda a recordar que todas estas iniciativas têm apenas um propósito: favorecer o encontro com Cristo.
“Queremos conhecer melhor a Bíblia para conhecer melhor Jesus Cristo. Queremos rezar com a Palavra, deixar-nos transformar por ela e fazer com que inspire todas as nossas linhas de ação pastoral.”
Um programa várias iniciativas
Concluída a apresentação destas orientações, D. Nuno Brás passou a palavra ao cónego Marcos Gonçalves, vigário geral, que apresentou o calendário diocesano para o novo ano pastoral e destacou os principais encontros previstos até ao verão de 2027.
Antes de enumerar as diversas iniciativas, o sacerdote começou por sublinhar a importância da participação de todas as estruturas da Diocese. “É muito importante a presença dos secretariados, dos departamentos, dos movimentos, das obras, das paróquias e dos arciprestados. O Programa Pastoral só ganha vida se todos caminharmos juntos.”
O cónego Marcos Gonçalves recordou que o novo ano pastoral terá início com a Missa de abertura do Ano Pastoral, marcada para 27 de setembro, às 18 horas, na Sé do Funchal, convidando desde já todas as comunidades a reservarem essa data.
Ao longo da apresentação, foi percorrendo as principais datas do calendário pastoral, destacando também que, no dia 3 de outubro, terá lugar, na Cúria Diocesana, o primeiro encontro anual dos secretariados e serviços diocesanos.
No dia 5 de outubro realizar-se-á o tradicional Dia Diocesano do Catequista, cuja temática e local serão anunciados oportunamente.
Já no dia 31 de outubro voltará a realizar-se o encontro dos movimentos e obras da Diocese, uma iniciativa que não aconteceu no último ano pastoral e que pretende reforçar o conhecimento mútuo entre os diversos movimentos eclesiais.
“É importante percebermos como anda o dinamismo dos movimentos, conhecer as suas atividades, os seus desafios e também as dificuldades que enfrentam. Conhecermo-nos mutuamente faz parte da comunhão diocesana”, explicou o vigário geral.
Outro dos momentos fortes do calendário será a Jornada Diocesana do Apostolado dos Leigos, agendada para 21 de novembro, no Colégio de Santa Teresinha. Como o ano pastoral será dedicado à Palavra de Deus, toda a reflexão incidirá sobre a Sagrada Escritura, contando com a participação da professora Luísa Almendra, da Universidade Católica Portuguesa, que aceitou o convite para orientar os trabalhos.
Já em janeiro de 2027 regressam as tradicionais Jornadas de Atualização dos Leigos e Consagrados, que decorrerão nos dias 19, 20 e 21, na Igreja do Colégio. “Um acontecimento muito participado, faz parte da nossa tradição e corresponde também ao desejo de continuarmos a crescer e amadurecer na fé”, disse.
No mês de junho voltará a realizar-se a celebração diocesana do Corpo de Deus, que incluirá, além da Eucaristia e da procissão, o compromisso público dos leitores diante do bispo do Funchal.
Também os secretariados diocesanos terão um segundo encontro, marcado para 29 de maio, encerrando o ciclo anual de reuniões.
Além da apresentação do calendário, Marcos Gonçalves aproveitou ainda para divulgar as várias plataformas digitais colocadas ao serviço da pastoral diocesana.
Explicou que o Programa Pastoral ficará disponível em formato digital no portal da Diocese do Funchal, juntamente com todo o calendário anual.
Chamou igualmente a atenção para a possibilidade de subscrição do boletim informativo da Diocese, através do qual os interessados recebem por correio eletrónico informações sobre inscrições, encontros e atividades consideradas mais relevantes.
Outra funcionalidade destacada foi a integração do calendário pastoral nas agendas digitais, permitindo que qualquer fiel acompanhe no telemóvel os principais acontecimentos diocesanos.
O sacerdote recordou ainda que o portal da Diocese disponibiliza diariamente informações sobre a agenda do bispo, crismas, reuniões, conferências, aniversários de ordenação sacerdotal e outras iniciativas pastorais.
No final, incentivou igualmente os participantes a acompanharem regularmente o Jornal da Madeira e as redes sociais da Diocese, onde são divulgadas notícias, reflexões e informações sobre a vida pastoral.
Concluindo a sessão, Marcos Gonçalves dirigiu uma última mensagem aos presentes, convidando toda a Diocese a viver este novo ano pastoral em espírito de comunhão e missão. “Vamos manter-nos unidos neste grande dinamismo de viver a vida cristã, escutando a Palavra e aplicando-a na nossa vida.”
Com este Programa Pastoral, a Diocese do Funchal propõe um caminho de renovação espiritual e missionária que pretende ajudar as comunidades a fazer da Palavra de Deus o verdadeiro centro da sua vida. Através da formação bíblica, da oração, da celebração, da corresponsabilidade e da missão, o objetivo passa por responder ao desafio lançado por D. Nuno Brás: que cada cristão deixe de ser apenas ouvinte da Palavra para se tornar, cada vez mais, um verdadeiro praticante da Palavra.

























