Foi ordenado sacerdote no passado dia 28 de junho, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, mas é à Madeira, a terra que considera a sua casa, que regressa agora para celebrar Missas Novas. Embora tenha nascido em Lisboa, o Padre Santiago Villalôbos, de 26 anos, chegou à ilha com apenas oito meses e foi aqui que cresceu, descobriu a fé e discerniu a sua vocação sacerdotal. As suas raízes estão profundamente ligadas às paróquias de Santa Luzia, onde fez todo o percurso da catequese, e da Nazaré, comunidade onde a vocação floresceu e onde se envolveu intensamente na vida paroquial através do Caminho Neocatecumenal, dos escuteiros, do coro e de diversos grupos pastorais. Passado cerca de um mês desde a ordenação presbiteral, o jovem sacerdote fala ao Jornal da Madeira sobre os primeiros dias de ministério, a surpresa de celebrar os sacramentos, o regresso às comunidades que o viram crescer e o significado de voltar à ilha já como padre, com “a missão de partilhar a alegria do que Deus tem feito em mim”. Numa conversa marcada pela gratidão e pela simplicidade, afirma que continua a sentir-se surpreendido por Deus e deixa um desafio aos jovens: “Vale a pena deixar que Cristo ‘estrague’ os nossos planos”, porque só n’Ele o coração humano encontra a plenitude que procura. As Missas Novas estão agendadas para as 17 horas de dia 25, na Nazaré e no dia 26, às 10 horas, em Santa Luzia.
Passou cerca de um mês desde a sua ordenação sacerdotal. Como tem vivido estes primeiros dias de ministério?
Tenho vivido a experiência da surpresa de Deus que irrompe na normalidade do meu dia a dia. As pessoas aproximam-se de mim para que as abençoe, ou para que as confesse, e isso é realmente transformador. Celebrar os sacramentos, sobretudo o Sacramento da Reconciliação, enche-me de espanto e gratidão. É-me concedido contemplar intimamente a relação das pessoas com o Seu Criador e Redentor. A profundidade com que isso é vivido pelos fiéis comove-me, porque me permite vislumbrar claramente que é a Cristo que os cristãos se entregam com tanta vulnerabilidade. Ser instrumento d’Ele, do Seu Amor e do Seu poder transformador é profundamente marcante.
“Celebrar os sacramentos, sobretudo o Sacramento da Reconciliação, enche-me de espanto e gratidão. É-me concedido contemplar intimamente a relação das pessoas com o Seu Criador e Redentor”
Numa entrevista antes da ordenação dizia que esperava “ser consagrado pelo Senhor”. O que mudou em si depois de receber o sacramento da Ordem?
Tudo! Mudou tudo! Ao mesmo tempo, misteriosamente, não mudou “nada”. Continuo a ser o Santiago, com as minhas virtudes e defeitos, mas fui consagrado, em Cristo, para agir em Seu nome. Essa radical transformação do meu ser traduziu-se também numa mudança exterior que me ajuda a concretizar bem essa consagração: desde as mudanças nas vestes litúrgicas, à forma como participo da missa e, ainda, à forma como as pessoas me abordam: “Padre Santiago”. Ainda não me “caiu a ficha”, mas estes momentos ajudam-me a perceber que algo importante aconteceu em mim!
Vai celebrar duas Missas Novas na Madeira, na Nazaré e em Santa Luzia. O que significa regressar à ilha, onde cresceu na fé, já como sacerdote?
Tem um significado muito especial. A Madeira é a minha casa. Eu vim para cá com 8 meses, em agosto do ano 2000. Os meus pais vieram por uma oportunidade de trabalho e nunca mais nos quisemos mudar. Sabe-me a casa: vejo o mar a toda a hora, reconheço as ruas que me invadem a memória com recordações dos tempos passados nesta maravilhosa ilha. Depois de 9 anos de formação em Lisboa, voltar à Madeira como padre é bem diferente do que regressar para umas pequeninas férias, como tem acontecido ao longo dos anos. Volto com uma missão: partilhar a alegria do que Deus tem feito em mim com os meus amigos de sempre, que me viram crescer, que me acompanharam nas horas mais difíceis. Celebrar o grandioso mistério da Eucaristia nas duas paróquias que marcaram a minha vivência da fé, em fases diferentes da vida: Santa Luzia, na infância; Nazaré, na adolescência e vida adulta. Voltar como o “Padre Santiago” é estranho, mas é muito bom!
“vale a pena deixar que Cristo “estrague” os nossos planos! Vale a pena deixarmo-nos surpreender por Deus, porque a vida com Ele tem um sabor diferente!”
A Paróquia da Nazaré, onde vali celebrar no próximo sábado, pelas 17 horas, foi determinante no seu discernimento vocacional. Como imagina esse reencontro com a comunidade que o viu crescer?
Eu comecei a fazer vida paroquial na Paróquia da Nazaré em 2013, estava no oitavo ano. Acabei por ser crismado lá, pelo Sr. D. António Carrilho, a 3 de maio de 2015. Desde o princípio da década passada, a minha vida paroquial tem sido vivida e celebrada ali, muito ligada ao Caminho Neocatecumenal, onde os meus pais redescobriram a fé. Esta pertença a uma comunidade do Caminho na Nazaré tornou o Bairro como uma casa para mim. É curioso notar que eu, desde pequenino, com 2-3 anos, ia muitas vezes dormir a casa dos padrinhos do meu irmão, que foram como avós para nós, e a sua casa era precisamente na Nazaré. Essa participação constante na vida paroquial através do Caminho levou-me, depois, a conhecer muitas outras pessoas que, não estando diretamente ligadas às Comunidades, se tornaram muito queridas e parte do meu processo vocacional. O reencontro com a Paróquia onde a minha vocação floresceu, com o altar onde tantas vezes servi como acólito, no sítio onde recebi agraça extraordinária do sacramento do Crisma é o momento que mais tenho esperado neste último mês.
Também vai celebrar em Santa Luzia no domingo, pelas 10 horas. Que mensagem gostaria de deixar às comunidades madeirenses que o acolhem nestes dias?
Ao mesmo tempo, também não podia deixar de celebrar em Santa Luzia, onde fiz todo o meu percurso de catequese até ao 9º ano e onde a minha mãe ainda reside. O Cónego Pita marcou a vida da Paróquia durante todos estes anos e, embora me entristeça não poder contar com a sua presença, trago comigo a sua vida e o seu ministério, generosamente entregues ao serviço desta freguesia durante tantos anos. Tive a graça de ter sido acompanhado por ele no momento da ordenação, no Mosteiro dos Jerónimos, bem como por outros colegas e irmãos padres aqui da Diocese. A mensagem que gostaria de deixar é aquela que mudou a minha vida: vale a pena deixar que Cristo “estrague” os nossos planos! Vale a pena deixarmo-nos surpreender por Deus, porque a vida com Ele tem um sabor diferente! Redescobri-lo constantemente é a única coisa que realmente sacia o coração humano, que tem sede de Infinito! Venho como servo dessa descoberta, e suplico humildemente às comunidades que me acompanharam ao longo destes 26 anos que rezem por mim e pelo meu ministério! Esta é a minha mensagem.

Na dita entrevista que deu antes de ser ordenado dizia que aprendeu que “a missão é estar onde Deus quer e fazer o que Ele quer”. Essa convicção tornou-se ainda mais forte depois da ordenação?
Sim, sem dúvida. Sobretudo porque, até agora, eu estava em formação académica e espiritual. Com a ordenação presbiteral recebi uma nomeação do Sr. Patriarca de Lisboa para três paróquias da Amadora. Neste sentido, o amor à minha terra mãe, a Madeira, faz com que a certeza de que a missão vem de Deus e é a Ele que pertence não seja uma simples frase bonita. Estar em missão, partir em missão, pelo Reino de Deus, implicou realmente a renúncia à terra que eu amo e a que aprendi a chamar casa! Implica estar longe da minha família, longe dos meus amigos de infância. As perspectivas são diferentes, desde a Ordenação, porque agora é “a valer.” Tenho comunidades concretas no Patriarcado de Lisboa a quem fui enviado que precisam do meu sim, da minha entrega, que só é possível pela experiência que tenho feito de que a missão é estar onde Deus quer e fazer o que Ele quer.
Qual foi a maior surpresa destes primeiros dias de sacerdócio?
Não senti nenhuma emoção extraordinária. Tenho vindo a descobrir o perigo de reduzir a experiência da fé ao sentimento. Eu sei que a Eucaristia é o maior dom que Deus deixou à humanidade: tenho sido transformado por esse dom desde pequeno e tenho sentido uma profunda atração por ele desde então: essa atração permanece, sem grande emoção. Mas sinto-me imensamente agraciado por ser um instrumento tão frágil nas mãos de Deus, pelo qual Ele opera a maravilha da Eucaristia: pelas minhas palavras, pelos meus gestos, pelas minhas mãos, pelo meu corpo, passa o Mistério da Redenção do mundo, em Cristo! Isto é tão grande, que se Deus me permitisse vê-lo com clareza, não sei se aguentaria celebrar a missa. Celebrei-a, pela primeira vez como presidente da assembleia, em Fátima, com a minha família e amigos mais próximos. Foi um momento simples, mas muito bonito!

Houve algum encontro, alguma confissão, uma visita ou um momento pastoral que o tenha marcado particularmente?
O momento em que, no beija-mão da minha missa nova em Lisboa – no passado dia 18, na Paróquia de Caneças – um senhor se aproximou de mim em pranto para me beijar as mãos e me disse “Sou indigno! Não há perdão para o que eu fiz! Eu não sou digno de estar na presença do Senhor!” A autenticidade das suas palavras e o seu rosto aflito perfuraram o meu coração! Foi o primeiro momento em que Deus me permitiu vislumbrar a grandeza do sacerdócio em todo o seu esplendor! Comecei também eu a chorar, por me sentir também indigno de ser presença do Rei Eterno para os outros. Foi claro, para mim, que aquele homem não estava a falar para o Santiago, mas para Cristo! E a consciência, repentina, de que, de facto, beijando as minhas mãos, é a Cristo que as pessoas beijam, deixou-me perplexo: sou mesmo um instrumento! Não sou o centro! Não sou digno, mas Deus faz-se “carne” em mim! Depois, tenho confessado muita gente, mas houve duas pessoas que me ficaram profundamente marcadas: ser presença eficaz do perdão de Deus é um dom que não me cansarei de anunciar e repetir!
“As minhas prioridades? Viver em Cristo, amar a Cristo, anunciar Cristo!”


A sua família reencontrou a fé através do Caminho Neocatecumenal. Que importância continua a ter essa experiência na forma como vive o sacerdócio?
O Caminho Neocatecumenal continuará a ser parte indispensável da minha vida como padre, porque fora dele eu nunca teria chegado a este momento. A grande maravilha do Caminho reside na força de viver a fé em pequenas comunidades. A minha comunidade, aqui na Paróquia da Nazaré, e a minha comunidade na Paróquia da Brandoa, em Lisboa, foram e são indispensáveis para o meu ministério. Sem elas, sem a força da partilha da vida de fé na intimidade da comunidade não teria dado o meu sim definitivo ao Senhor! Estou certo disto! Contudo, julgo ser necessário esclarecer que eu não sou um “padre do Caminho”, porque tal coisa não existe! Existem padres da Igreja e para a Igreja toda! Deus, no entanto, quis que a minha experiência de fé passasse pelo Caminho Neocatecumenal e eu preciso de respeitar isso para meu próprio bem: a comunidade é fundamental para continuar a alimentar a fé que depois Deus me chama a dar aos outros. Julgo que um dos principais dramas do sacerdócio reside na convicção do povo ou do próprio padre de que o sacerdote não precisa de receber, não precisa de ser formado, não precisa de ser corrigido: se eu não receber a fé com os irmãos que Deus me deu, se eu não for corrigido por eles nos meus erros, se eu não alimentar a minha vocação na vida partilhada com eles, não poderei dar a minha vida àqueles a quem Deus me enviou. Muitos padres encontraram a nutrição da sua fé noutras experiências que a Igreja sabiamente oferece: eu encontrei-o no Caminho, e é por isso que me agarrei a ele.
Hoje, olhando para trás, o que diria àquele jovem que pensava que ser padre seria “um desperdício”?
Pediria para falar com ele, desafiá-lo-ia nas suas convicções, mas não insistiria muito: estou convencido de que ele se apaixonaria pelo sacerdócio quando visse o que ele é realmente. Há um tempo para tudo, até mesmo para as nossas falsas percepções da realidade. Hoje, esse menino é padre, e ninguém teve de o convencer: a beleza de Deus atraiu-o!
Muitos jovens têm medo de responder a uma possível vocação. Que lhes diria a partir da sua própria experiência?
Que tudo o que eles realmente desejam, tem um só nome: Deus! Mesmo que disfarçado por desejos desordenados, o desejo de Deus é a única coisa que realmente nos move. Há um autor, católico convertido, do princípio do século XX, que marcou muito o aprofundar da minha fé: chama-se Gilbert Chesterton. Nunca encontrei ninguém tão engraçado, inteligente, sábio, como ele: e ele era extremamente devoto. Vejo este padrão replicado em todos os santos homens e mulheres cristãos que nos precederam: uma vida cheia, plena, feliz. Quando abraçamos realmente a convicção de que Deus é a origem de toda a beleza, de toda a bondade e de toda a verdade, começamos a ver o mundo de uma forma leve: tudo o que veneramos na ciência, é parte da Verdade que Deus é; tudo o que buscamos nas coisas belas que nos atraem, física e espiritualmente, é apenas um vislumbre da Beleza que Deus é; tudo o que desejamos de bom para nós e para os que amamos, é parte da Bondade que Deus é! Se realmente descobrimos isto, dar a vida a Deus não se torna uma renúncia à verdade, nem à beleza, nem à bondade que nos atraem, mas o abraçar, n’Ele, todas as coisas. Seguir a vocação a que Deus nos chama, seja ela o matrimónio ou a virgindade consagrada, só pode ser extraordinariamente belo, bom e verdadeiro: porque isso é o que Deus é, e é só isso que Ele sabe dar.
Como sacerdote recém-ordenado, quais são as prioridades que leva no coração para o seu ministério?
As minhas prioridades? Viver em Cristo, amar a Cristo, anunciar Cristo! A minha prioridade é a vida de oração, que desejo cultivar sempre para não me perder, porque não sou melhor que ninguém. A isto, acrescentaria o que vejo nos padres santos que têm marcado a minha vida: estar com as pessoas, ouvi-las, perder tempo com elas: ter um coração de pastor!
Há alguma intenção especial que vai colocar no altar durante estas Missas Novas na Madeira?
Sim! Que o meu pai, Henrique, já falecido, mereça ser acolhido por Deus nas moradas celestes e perdoado de todas as suas culpas. Acrescento ainda a súplica a Deus para que faça frutificar os bonitos frutos de evangelização que começam a florescer na Diocese: há coisas sérias e bonitas a acontecer por aí! Rezo para que isso dê fruto abundante!




















