Pe. João Nuno celebra Missa Nova no Estreito: “Deus não vos quer tirar nada, quer dar-vos uma vida em abundância”

D.R.

Natural da Madeira e ordenado sacerdote no passado dia 12 de julho, na Sé do Porto, o Padre João Nuno Marques Silva regressa à ilha para celebrar Missa Nova, um momento que descreve como um “memorial da misericórdia de Deus”. Aos 27 anos, o jovem presbítero, formado no Seminário Diocesano Missionário Redemptoris Mater do Porto, revisita nesta entrevista as raízes da sua vocação, marcada por um percurso de dúvidas, afastamento da fé e reencontro com Deus. Fala da alegria de regressar à terra onde nasceu, da missão que agora abraça na Diocese do Porto e deixa um apelo aos jovens: que não tenham medo de responder ao chamamento de Deus e descubram n’Ele o verdadeiro sentido da vida. A Eucaristia a que vai presidir terá lugar dia 26, domingo, na Paróquia do Estreito de Câmara de Lobos.

Padre João Nuno, seja muito bem-vindo de volta à sua terra. Qual é o sentimento de presidir à Eucaristia aqui na Madeira, rodeado pela família, amigos e pela comunidade onde cresceu, agora como sacerdote ordenado?

Do meu coração brotam essencialmente duas palavras: gratidão e misericórdia. Gratidão por todo o bem que o Senhor tem feito na minha vida, pela dignidade de Filho de Deus que me concedeu. Misericórdia, porque Deus me escolheu, fez sobre mim uma eleição gratuita, e experimento constantemente que Ele me ama incondicionalmente, tal como sou.  Recordo as palavras da vocação do profeta Jeremias: “Antes de te haver formado no ventre, Eu te conheci; antes de saíres do ventre materno, Eu te consagrei e te constituí profeta para as nações” (cf. Jr 1,5). Voltar à terra onde nasci e olhar para os rostos das pessoas que me viram crescer: família, amigos e todos aqueles que acompanharam o meu caminho na fé é, de facto, marcante.  Não se trata apenas de um regresso a “casa”, mas sobretudo de um regresso às raízes onde Deus, misteriosamente e por amor, começou a escrever a minha história: não como algo exclusivo ou para benefício próprio, mas sempre em função de muitas outras histórias de vida. Presidir à Eucaristia aqui coloca-me numa certa tensão, no bom sentido da palavra. Faz-me sentir muito pequeno: tenho consciência de que nada disto vem dos meus méritos ou capacidades. É Deus quem me torna digno de, humildemente, a poder celebrar.  No entanto, é uma graça imensa celebrar o Mistério Pascal em cada Eucaristia, juntamente com uma assembleia convidada a participar ativamente neste mistério inaudito: o mistério de um Deus que, livremente, aceitou morrer por toda a humanidade, sem exigir nada em troca. Isto toca-me profundamente.

“Trago no coração, em primeiro lugar, uma oração de ação de graças por todas as pessoas que foram instrumentos do amor de Deus na minha vida”

A Madeira é uma terra de forte tradição e fé católica. De que forma as suas raízes madeirenses e a vivência da fé na ilha moldaram os primeiros passos do seu discernimento vocacional?

Na Madeira, a fé vive-se, de facto, com grande intensidade e profunda religiosidade, o que acaba por marcar também a minha própria experiência de fé, enraizada, atrevo-me a dizer, numa espiritualidade muito específica e rica. Para falar da minha vocação ao presbiterado e dos primeiros passos no discernimento vocacional, não posso fazê-lo sem antes contar um pouco da minha história. Nasci no seio de uma família católica praticante. Tenho um irmão mais novo e, desde muito cedo, os meus pais procuraram transmitir-nos a fé e os valores cristãos. Sempre fui um rapaz calmo, mas, ao mesmo tempo, ironicamente, muito aventureiro e rebelde. Fiz o percurso “normal” da catequese e dos sacramentos. Porém, na adolescência, a minha rebeldia começou a manifestar-se cada vez mais. Sempre ouvi dizer que Deus existe, que é omnipotente e que é bom. Mas aquilo que eu intuía ao meu redor não correspondia a essa imagem. A situação familiar em casa atravessava um momento muito delicado. Tudo isto levou-me seriamente a querer abandonar tudo. E assim foi. Pouco a pouco, afastei-me da fé, embora continuasse com um “pé” na Igreja e outro fora. Experimentei uma vida “alternativa”, procurando ser feliz naquilo que o mundo me apresentava como felicidade e liberdade. Estudei, namorei, viajei, trabalhei, mas nada me satisfazia. O vazio existencial tornava-se cada vez mais profundo. Foi então que conheci o Caminho Neocatecumenal, através de um convite para fazer parte de uma pequena comunidade. Lembro-me perfeitamente de que fui obrigado, pela minha mãe, a participar nesses encontros. Às vezes digo, em tom de brincadeira, que a “culpa” de hoje ser padre é dela. O certo é que, através desta caminhada, ouvi uma Boa Notícia: que Deus me ama, que Deus é Amor.  Obviamente, tem sido, e continua a ser, um processo de crescimento na fé. Mas este anúncio foi fundamental, não só para a minha família, mas também para mim, ao permitir-me abrir à vontade de Deus para a minha vida.

Celebrar uma “Missa Nova” na própria terra é um momento muito simbólico. Que intenções ou preces especiais traz no coração para oferecer nesta celebração pela comunidade madeirense?

É, efetivamente, como referi anteriormente, um memorial da misericórdia de Deus poder celebrar a “Missa Nova” na terra onde cresci. Trago no coração, em primeiro lugar, uma oração de ação de graças por todas as pessoas que foram instrumentos do amor de Deus na minha vida: a minha família, os meus catequistas, os irmãos de comunidade, os presbíteros, os amigos e todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se cruzaram comigo no meu percurso de vida. Em segundo lugar, quero colocar nesta celebração todas as famílias, crianças, jovens, idosos, doentes e presos da nossa ilha que, pelas diversas circunstâncias da vida, atravessam momentos de angústia, sofrimento, solidão e até mesmo de desespero espiritual. Relembro, de modo especial, a recente catástrofe natural ocorrida na Venezuela, na certeza de que Deus está perto dos corações contritos e dos espíritos abatidos (cf. Sl 34,19).

“Acompanhei durante alguns meses um presbítero da Diocese do Porto e, posteriormente, estive quase dois anos em missão em Moçambique. Nas paróquias de estágio e no tempo de missão aprendi que é fundamental conhecer a realidade concreta das pessoas”

O seu caminho de formação fez-se no Seminário Diocesano Missionário Redemptoris Mater, no Porto. Como foi adaptar-se à realidade do continente e à Diocese do Porto, estando longe da ilha?

Sair da Madeira aos vinte anos e ir para o Porto foi uma verdadeira aventura. É verdade que não saí do nosso país, mas é certo que as diferenças culturais e religiosas acabam por ter um marco próprio. Contudo, significou deixar o conforto da ilha, da família e das rotinas às quais estava habituado. No início, parece até estranho dizê-lo, uma das coisas que mais me custou na adaptação foi o tempo. O sol e a temperatura amena são uma das grandes atrações da nossa ilha. Porém, no Porto encontrei um povo muito hospitaleiro e com um coração verdadeiramente humano. O acolhimento da Diocese do Porto deixou-me várias marcas, sobretudo porque manifesta a riqueza da Igreja, como uma mãe que não tem fronteiras. De facto, a tradição religiosa, e não só, da cidade invicta tem algo de muito especial e genuíno. A experiência no Seminário Redemptoris Mater do Porto foi importante no meu crescimento humano e na minha fé. Mas até chegar ao Porto houve outra aventura. O processo de entrada neste tipo de seminários, ligados ao caminho neocatecumenal, tem uma particularidade interessante: passa sobretudo pela disponibilidade de ir para qualquer parte do mundo. Para isso participei num retiro em Itália, com total abertura a ir a todo o lado. Por graça de Deus, o Senhor enviou-me ao Porto. Eu queria ir para um país diferente e aprender uma nova língua, conhecer uma nova cultura, mas hoje vejo que foi o melhor para mim, precisamente porque o Senhor me esperava no Porto. Fazer a formação longe de casa ajudou-me, essencialmente, a ter uma relação muito mais livre com a minha família e com aqueles que me são próximos. Ajudou-me a despojar-me de mim mesmo e a perceber que a verdadeira pátria e segurança estão em Cristo. O tempo de seminário foi como uma “panela de pressão”: um caminho de descoberta interior, com crises à mistura e desertos existenciais. Mas Deus é fiel e sempre me concedeu a graça de experimentar, no meio do deserto, pequenos oásis. E, fundamentalmente, ajudou-me a compreender que a minha primeira vocação é ser cristão e, apoiado nessa experiência de constante conversão, deixar que Deus, por amor e parafraseando São Paulo, pudesse completar em mim aquilo que já tinha iniciado (cf. Flp 1,6).

Recentemente esteve a estagiar como diácono em paróquias como Sobretâmega, Tabuado e Várzea de Ovelha. O que é que o contacto tão próximo com aquelas comunidades do norte lhe ensinou sobre ser pastor?

Sim, fiz o meu estágio diaconal no Marco de Canaveses. Mas antes disso, além da formação académica na Universidade Católica Portuguesa, no Porto, tive algumas experiências de missão e evangelização. Acompanhei durante alguns meses um presbítero da Diocese do Porto e, posteriormente, estive quase dois anos em missão em Moçambique. Nas paróquias de estágio e no tempo de missão aprendi que é fundamental conhecer a realidade concreta das pessoas: através da escuta, do serviço e da caridade. E a partir dessa realidade anunciar a Boa Notícia que o mundo anseia escutar que, de facto, há esperança; que Cristo está Ressuscitado! Apesar de ainda existir uma prática religiosa considerável nestas comunidades cristãs, cada vez mais, há a consciencialização da necessidade da formação cristã das mesmas, de modo que, em espírito sinodal, possam caminhar na fé, com o foco de não só cuidar daqueles que já frequentam os sacramentos, mas também serem verdadeiras testemunhas do Amor de Deus para aqueles que, por diversos motivos, estão afastados da Igreja. É curioso notar que, embora as três paróquias estejam situadas no mesmo espaço geográfico, não são iguais. As necessidades de uma paróquia não são as mesmas das outras. Unidade e comunhão não significam, de modo algum, uniformidade. 

Numa mensagem recente, o Padre João Nuno referiu que Deus é “o único capaz de dar sentido aos sofrimentos, dificuldades e debilidades”. Como é que esta certeza se manifestou na sua própria vida e no seu sim ao sacerdócio? 

Manifestou-se através da minha história de vida. Não é, de todo, uma frase feita. Na minha vida, tal como na de qualquer pessoa, jovens ou menos jovens, existem momentos de fraqueza e de dúvida. Experimentei que o amor de Deus não dependia das minhas forças ou da minha perfeição moral, mas sim do Seu perdão e da Sua misericórdia. Por isso, a minha vida pouco a pouco transformou-se. Jesus Cristo foi o único que verdadeiramente deu sentido a tudo aquilo que eu não aceitava em mim, e que tantas vezes quis apagar da minha história. Devo confessar, muito sinceramente, que nunca quis ser padre e sempre rejeitei essa possibilidade. Só de pensar nisso, sentia uma profunda tristeza. Tinha outros planos para mim: constituir família, ter filhos, trabalhar e viajar, no fundo, ser feliz segundo os meus ideais. Porém, a inquietação era cada vez mais forte. Depois de um tempo de discernimento vocacional, e por gratidão a todo o bem que Deus estava a fazer comigo e com a minha família, numa peregrinação vocacional a Espanha, em 2018, acabaram por cair por terra as minhas resistências. E, por graça de Deus, livremente entreguei-me à Sua vontade e aceitei entrar no seminário. Claro que a ordenação sacerdotal não é ter de fazer a partir de agora o triplo salto mortal. Todos os dias tenho de pedir ao Senhor a graça de me poder converter ao Seu Filho, de me configurar com Ele, e nas minhas debilidades, não me deixar escandalizar com os meus pecados. Por isso, é essencial a oração e constantemente fazer memorial da Misericórdia de Deus na minha vida.

“Deus olha para o coração de cada um e conhece os anseios que todos trazemos dentro de nós: o desejo de ser felizes, de sermos amados e de podermos amar livremente, no fundo, o desejo de santidade”. 

Sabemos que muitos jovens enfrentam crises de sentido ou têm medo de assumir compromissos definitivos. Pegando nas palavras de São João Paulo II que costuma citar — “Não tenhais medo” —, que mensagem deixa aos jovens madeirenses que possam estar a sentir o chamamento de Deus?

Que Deus vos ama tal e qual como sois. Diria que o mais importante é ser cristão e viver a vossa juventude a partir da fé. A vocação ao sacerdócio, ao matrimónio, à vida religiosa ou à vida consagrada são diferentes formas de servir a Igreja, sempre enraizadas na única vocação fundamental que é viver o nosso Batismo. A vossa verdadeira vocação é a vossa resposta livre ao Amor de Deus. Deus não vos quer tirar nada; quer dar-vos uma vida digna de filhos muito amados por Deus. Talvez o medo apareça, e é normal aparecer, porque muitas vezes temos a tentação de pensar que tudo depende das nossas próprias forças e de projetarmos o futuro com base nas experiências do passado. O ser humano, por vezes, quando tenta retirar Deus da equação da vida, procura preencher esse vazio através de diversas formas de alienação. Ao longo da história tentou-se muitas vezes demonstrar racionalmente a existência de Deus. No entanto, talvez seja igualmente importante compreender o que leva algumas pessoas a professar o ateísmo ou a assumir uma posição agnóstica. Não obstante, Deus olha para o coração de cada um e conhece os anseios que todos trazemos dentro de nós: o desejo de ser felizes, de sermos amados e de podermos amar livremente, no fundo, o desejo de santidade. Por isso, se sentem no vosso coração a voz de Deus a chamar-vos, arrisquem e não tenham medo! Não se contentem com uma vida medíocre ou com seguranças ilusórias que o mundo oferece. Coragem, o Senhor é fiel e não vos quer tirar nada!

Olhando para o futuro que agora começa na Diocese do Porto, como imagina o seu ministério? O que significa, para si, a promessa de que o Senhor dá “vida em abundância e o cêntuplo”?

Recentemente, o Sr. Bispo do Porto, D. Manuel Linda, nomeou-me pároco de sete paróquias em Amarante. Encaro este desafio e este início de ministério sacerdotal não como um projeto pessoal, nem como uma elevação de estatuto eclesial, ao modo de quem progride numa carreira “profissional”, mas como alguém que foi tocado pelo Mistério profundo de uma eleição gratuita de Amor, e enviado para uma missão concreta que Deus me confiou. Reconheço também as minhas limitações, mas procurarei ser fiel ao anúncio do Evangelho e estar próximo daqueles a quem Deus me envia, sobretudo para testemunhar o Seu Amor através da escuta, do serviço e dos sacramentos, manifestando os sinais da fé: o Amor e a Unidade. Para mim, a promessa da “vida em abundância” e do “cêntuplo” já é uma realidade. O Senhor tem me surpreendido constantemente. Deixar a minha terra, os meus planos e o meu conforto familiar para seguir Cristo, fez com que Deus me desse uma família imensa, que é a Igreja e uma alegria interior que não encontrei noutro lugar.