Senhora da Graça, em Machico: Pela primeira vez um bispo presidiu à festa

Foto: Duarte Gomes

O Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, presidiu, no sábado, 11 de julho, à Eucaristia vespertina da Festa de Nossa Senhora da Graça, na histórica Capela da Senhora da Graça, em Machico. Tratou-se da primeira vez que um bispo diocesano presidiu às celebrações desta festa, um momento que o pároco de Machico, cónego Manuel Ramos, classificou como histórico.

No início da celebração, o sacerdote deu as boas-vindas ao prelado e agradeceu a sua presença, aproveitando a ocasião para recordar a importância religiosa, histórica e patrimonial da capela.

“Seja bem-vindo à Capela do Nosso Senhor da Graça, situada no Sítio da Graça, na Paróquia de Machico”, começou por dizer, sublinhando que este templo constitui “um dos mais significativos testemunhos da devoção mariana do povo machiquense” e, em particular, dos habitantes daquele sítio e de todos os devotos de Nossa Senhora da Graça.

O cónego Manuel Ramos recordou que, embora não seja conhecida a data exata da fundação da ermida, existem registos da sua existência desde 1641, tendo sido profundamente reconstruída em 1750 pela Confraria de Nossa Senhora da Graça e pelos seus devotos. A bênção da capela ocorreu a 15 de agosto desse mesmo ano, por mandato do então Bispo do Funchal.

Na sua intervenção, o pároco destacou ainda o valor artístico e patrimonial do edifício, de traça maneirista, chamando a atenção para os azulejos seiscentistas que revestem a nave, o retábulo-mor, as imagens e diversas alfaias litúrgicas de elevado valor histórico. Referiu igualmente que se encontra em curso o processo de registo predial da capela e do respetivo adro, estando também previstas novas obras de conservação e valorização promovidas pela Confraria de Nossa Senhora da Graça, criada em 2018, em articulação com a paróquia.

Apesar da sua antiguidade, a capela continua a ser um espaço vivo de fé, acolhendo, além da tradicional festa anual, a celebração da Eucaristia na primeira quarta-feira de cada mês.

Na homilia, D. Nuno Brás centrou a sua reflexão na palavra “graça”, inspirando-se tanto na festa de Nossa Senhora da Graça como nas leituras proclamadas nesse domingo.

“Se olharmos bem à nossa volta, se olharmos bem para aquilo que somos e para a nossa própria vida interior, temos de chegar a uma conclusão muito importante: tudo é graça”, afirmou.

O bispo explicou que a existência humana é um dom totalmente gratuito de Deus. “O que fizemos nós para existir? Nada. A nossa vida foi-nos dada de graça. Não é pagamento de nada que tivéssemos feito. Foi oferecida.”

Ao longo da homilia, insistiu que toda a criação e a própria vida são expressão do amor primeiro de Deus. “Tudo nos fala do amor de Deus. Tudo é sinal para nós de que Deus existe e nos ama.”

D. Nuno Brás lembrou que Deus não espera pela perfeição do homem para o amar. “Deus ama-te antes de tudo. Antes de ti. Deus toma sempre a iniciativa. Não está à espera que nós nos portemos bem para depois nos amar. Ai de nós se fosse assim.”

Segundo o prelado, cada pessoa vive permanentemente rodeada por esse amor. “Estamos completamente rodeados pelo amor de Deus. Desde o amor dos nossos pais ao amor dos amigos, desde aquilo que somos. Deus cerca-nos com o seu amor para que sejamos capazes de lhe corresponder.”

Comentando a parábola do semeador, proclamada no Evangelho, o Bispo do Funchal destacou a generosidade de Deus, que oferece a sua Palavra sem fazer distinções.

“Deus é como aquele semeador que semeia abundantemente. Aos nossos olhos parece até que semeia sem fazer contas, mas fá-lo porque sabe que o seu amor é a única realidade capaz de transformar o nosso coração.”

Mesmo quando o coração parece duro ou distraído, acrescentou, a Palavra de Deus continua a ter força transformadora. “O nosso coração pode ser um coração de pedra, mas quando toma a sério a Palavra de Deus pode transformar-se em boa terra. Pode ter muitas preocupações, onde Deus parece não caber, mas se for surpreendido pela Palavra pode tornar-se terra que dá fruto.”

Recorrendo também à primeira leitura do profeta Isaías, D. Nuno Brás recordou que a Palavra de Deus nunca regressa sem cumprir a sua missão, comparando-a à chuva que fecunda a terra. É essa semente que Deus continua a lançar na vida de cada pessoa.

O bispo apresentou depois Nossa Senhora como o modelo perfeito de quem acolheu plenamente essa Palavra.

“Olhamos para a Virgem Maria e vemos nela esta terra boa, esta terra fecunda, que acolheu a semente da Palavra de Deus e deu tanto fruto que nos deu o próprio Jesus Cristo, o amor de Deus feito homem.”

Por isso, acrescentou, a Igreja invoca Maria como “Medianeira de todas as graças”, porque foi através dela que o mundo recebeu Cristo, “o autor da graça”.

Na conclusão da celebração, D. Nuno Brás convidou todos os fiéis a pedirem a intercessão de Nossa Senhora para que também eles sejam “boa terra”, capaz de acolher a Palavra de Deus e produzir frutos de amor.

“Pouco importa se hoje produzimos trinta, amanhã sessenta ou cem. O importante é dar fruto. Fruto do amor. Fruto da graça. Somos chamados a ser espelho da graça divina.”

O prelado terminou confiando à proteção de Nossa Senhora da Graça todos os habitantes de Machico e recordando igualmente os povos que atravessam momentos difíceis, dirigindo uma oração especial pela Venezuela.

“Que Nossa Senhora interceda por todos os habitantes de Machico e também pelos nossos irmãos da Venezuela, que passam por momentos tão difíceis. Que Ela nos ajude a compreender este grande mistério da graça de Deus e a responder sempre com amor ao imenso amor que Deus nos oferece.”