As dores do parto

D.R.

O “mal natural”, como aquele terramoto na Venezuela, continua a ser um grande ponto de interrogação, uma espécie de “sem-sentido” na realidade que nos cerca. Que os maus sejam castigados, entendemos; que Deus lhes perdoe esse mal e os procure acolher no seu Reino, convertendo o seu coração, também somos capazes de compreender — afinal, é grande a misericórdia do Senhor: tão grande que é capaz de converter os corações mais endurecidos. Contudo, as desgraças naturais que matam e causam sofrimento generalizado são uma fronteira que se torna difícil de ultrapassar.

Claro que muitas dessas desgraças naturais são também fruto do mau viver humano: de corrupções, de egoísmos, de um mau uso que perverte a própria natureza — e, portanto, são fruto de um “pecado social”. Mas isso não basta.

Sabemos, por experiência, como é importante para aqueles que vivem as consequências desse mal que é provocado pela natureza perceber que Deus está ao seu lado e partilha com eles o sofrimento, dando força, coragem, apresentando novos caminhos.

Na Carta aos Romanos, São Paulo diz que “a criação inteira geme e sofre no presente as dores do parto” (Rom 8,22). Ou seja: para além do sofrimento que marca a vida humana, existem também as dores de crescimento da própria natureza, à espera do mundo novo, à espera que o ser humano ofereça a toda a realidade um novo sentido (que só lhe pode vir do Homem Novo que é Cristo). Como afirma o Livro do Apocalipse, nessa altura “Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor nem dor. Sim, as coisas antigas passaram” (Ap 21,4).

Podemos pois dizer que a própria criação se apresenta como tarefa para o ser humano: depende da nossa conversão e da nossa capacidade de lhe comunicar a novidade de Jesus, permitindo-lhe crescer, viver o mundo novo que Jesus, na sua ressurreição, já começou a fazer surgir.