“Vocês vão receber o Espírito Santo. À partida, vão viver segundo o Espírito. Mas vão mesmo? Estão mesmo decididos a viver segundo o Espírito?” Foi com esta interpelação, dirigida aos 20 jovens e adultos que receberam o sacramento da Confirmação, que D. Nuno Brás marcou a homilia da Eucaristia do Crisma, celebrada na igreja paroquial do Campanário.
Perante uma assembleia repleta de familiares, padrinhos e fiéis, o bispo do Funchal recordou que o Crisma não é apenas um momento festivo ou a conclusão da catequese, mas o início de uma vida plenamente comprometida com Cristo, sustentada pela ação do Espírito Santo.
Partindo da segunda leitura da liturgia, D. Nuno Brás explicou que São Paulo apresenta dois modos de viver: “segundo a carne” e “segundo o Espírito”. O primeiro, afirmou, corresponde à forma de viver que nasce apenas da lógica humana.
“Viver segundo a carne é viver da maneira com que toda a gente vive. Não é necessariamente mau, mas muitas vezes é. É um modo de viver habitual, em que nós pensamos primeiro em nós e só depois nos outros. É um modo de viver em que nos desenrascamos e depois logo se vive. É um modo de viver em que não somos capazes de nos dominarmos a nós mesmos nem de conduzirmos a nossa vida.”
Em contraste, explicou, o cristão é chamado a deixar-se transformar pelo Espírito Santo. “Deus dá-nos o seu Espírito e isso faz-nos viver de uma forma diferente. Não pelo gosto de sermos diferentes ou de fazermos qualquer coisa extraordinária, mas pelo gosto de vivermos com Deus. Ou, melhor dizendo, de Deus viver em nós.”
Segundo o bispo diocesano, quando Deus ocupa verdadeiramente o centro da vida, muda também a forma de olhar para os outros e para si próprio. “Começamos a pensar mais nos outros do que em nós. Muitas vezes esquecemo-nos de nós por causa dos outros. Em vez do dinheiro ou da fama, aquilo que queremos é ser.”
Ao longo da reflexão, D. Nuno Brás referiu que a sociedade mede frequentemente o valor das pessoas pelo sucesso, pela riqueza ou pela popularidade, mas recordou que a fé cristã apresenta um critério completamente diferente. “O nosso valor não se mede pela conta bancária, nem pela fama que temos ou pelo poder que possuímos. Mede-se porque somos amados por Deus.”
O prelado reconheceu que muitas pessoas vivem inseguras, perguntando-se porque não nasceram com mais talentos, melhores condições ou maior reconhecimento. Contudo, afirmou que o Espírito Santo ajuda precisamente a descobrir a verdadeira identidade de cada pessoa. “Há uma coisa que é maior do que tudo isso: eu sou amado por Deus. Deus ama-me. É a partir deste amor de Deus que construo a minha vida. Com este amor tudo se torna diferente.”
Dirigindo-se de forma muito direta aos crismandos, o bispo insistiu que o sacramento da Confirmação exige uma decisão livre e consciente. “Vocês vão receber o Espírito Santo. À partida, vão viver segundo o Espírito. Mas vão mesmo? Estão mesmo decididos a viver de forma diferente? Estão mesmo decididos, em cada dia que passa, a perguntar a Deus: ‘Senhor, o que é que Tu queres de mim? O que é que Tu queres que eu faça?'”
D. Nuno Brás sublinhou que viver segundo o Espírito significa permitir que Deus acompanhe todas as dimensões da existência e não apenas recorrer a Ele quando surgem dificuldades. “Não se trata simplesmente de pedir sorte para os exames. O pessoal passa o ano inteiro sem estudar e depois pede muita ajuda ao Espírito Santo. Não é isso. Trata-se de viver todos os dias com Deus. Aceitar que Deus viva todos os dias connosco. Como isso faz a diferença.”
O bispo lembrou ainda que o dom recebido no Crisma permanece para sempre, deixando aos confirmandos uma pergunta decisiva. “O Espírito Santo vai estar para sempre convosco. O que é que vocês vão fazer com Ele? Esta é a grande decisão da vossa vida: viver com Deus ou sem Deus.”
Antes do rito da Confirmação, o pároco do Campanário, padre Adelino Macedo, apresentou os candidatos ao bispo e à comunidade, recordando que, se pelo Batismo se tornaram cristãos, “de agora em diante, como cristãos adultos na fé e testemunhas de Jesus Cristo, vão precisar muito do nosso apoio”. O sacerdote apelou à oração e ao acompanhamento da comunidade, lembrando também a responsabilidade dos padrinhos em serem, pelo seu testemunho de vida, “um sinal de bênção e pertença” para os seus afilhados.
O padre Adelino Macedo manifestou igualmente confiança no trabalho realizado pelos catequistas ao longo da preparação dos crismandos. “Os catequistas e eu estamos conscientes de termos feito o que estava ao nosso alcance. Agora confiamos-nos ao Espírito Santo para que seja Ele a fazer aquilo que a nossa incapacidade não é capaz.”
O pároco agradeceu ainda a presença de D. Nuno Brás e a sua disponibilidade para presidir à celebração, em nome de toda a comunidade paroquial.
Após a Eucaristia, um dos pais dos crismandos leu uma mensagem de agradecimento dirigida aos catequistas, ao pároco e à comunidade pelo acompanhamento prestado durante a preparação para o sacramento da Confirmação. Como sinal de gratidão pela visita pastoral, foi ainda oferecida ao bispo do Funchal uma imagem de São Brás.
A celebração terminou num ambiente de alegria e comunhão, assinalando um momento particularmente significativo na caminhada de fé dos 20 jovens e adultos que receberam o dom do Espírito Santo e renovaram o compromisso de serem testemunhas de Cristo no mundo.




































