A comunidade do Jardim da Serra viveu no sábado, dia 4 de julho, um momento de ação de graças pelos 30 anos da freguesia, numa Eucaristia presidida pelo bispo do Funchal, D. Nuno Brás, que marcou o início das comemorações oficiais da efeméride.
A celebração, realizada na igreja paroquial, foi solenizada pelo Grupo Coral do Estreito de Câmara de Lobos e reuniu representantes das entidades civis, bem como numerosos fiéis.
Na saudação inicial, o bispo explicou que a comemoração do aniversário da freguesia não era apenas uma evocação histórica, mas sobretudo uma oportunidade para agradecer a Deus pelo caminho percorrido e renovar o compromisso de continuar a construir uma comunidade cada vez mais fraterna.
“Nós existimos para mostrar que Deus é bom e as próprias instituições, mesmo quando são instituições humanas, de organização humana e política, não estão também elas fora deste desígnio, desta necessidade, deste objetivo de mostrar que Deus é bom”, afirmou.
Por isso, acrescentou, a celebração era um momento para “dar graças a Deus por estes 30 anos da Junta de Freguesia”, agradecendo “tudo aquilo que foi bom e que é bom”, mas também para reconhecer, com humildade, que “nem tudo foi perfeito”, assumindo o compromisso de “fazer melhor, ser melhor, sermos mais uns com os outros e cuidarmos mais uns dos outros”.
Na homilia, D. Nuno Brás convidou a assembleia a centrar o olhar em Cristo, explicando que as leituras daquele domingo apresentam Jesus como o verdadeiro Rei, não segundo os critérios do poder humano, mas através da justiça, da humildade e do serviço.
“A primeira leitura falava de um rei justo e salvador que vem ao teu encontro humildemente montado num jumentinho. É assim Jesus. É assim o nosso Rei.”
A partir dessa imagem, desenvolveu uma reflexão que acabou por marcar toda a homilia, inspirando-se na presença do Grupo Coral do Estreito de Câmara de Lobos.
Enquanto escutava os cânticos litúrgicos, explicou, observava também a maestrina a dirigir o coro, imagem que utilizou para explicar o lugar de Cristo na vida de cada cristão. “É muito interessante porque a palavra ‘rei’, em latim, ‘rex’, significa precisamente aquele que rege. O que faz Jesus na nossa vida é precisamente isso: rege a nossa vida.”
Segundo explicou, tal como acontece num coro, também na vida cristã existe liberdade. Cada pessoa pode escolher seguir ou não aquele que conduz. “Claro que um elemento do coro pode desafinar. Pode desafinar porque não sabe cantar ou pode desafinar porque quer. Pode querer fazer-se notar. Mas quando isso acontece, salta fora da harmonia, salta fora da beleza do canto.”
A comparação serviu para mostrar que Cristo não retira liberdade às pessoas, mas convida cada uma a encontrar o seu lugar dentro de uma harmonia maior. “Jesus está à nossa frente e propõe-nos uma maneira de viver diferente.”
Essa diferença, afirmou, torna-se particularmente evidente numa sociedade marcada pelo individualismo. “O mundo habituou-nos a viver assim: primeiro nós, depois nós, depois os nossos familiares e só muito depois todos os outros.”
Para D. Nuno Brás, esta lógica afasta-se profundamente da proposta do Evangelho. “Muitas vezes ouvimos dizer: ‘Se eu não pensar em mim, quem vai pensar?’. Mas essas palavras não estão de acordo com a regência de Cristo.”
Logo de seguida apresentou aquela que considera ser uma das grandes certezas da fé cristã. “Antes de tu pensares em ti, Deus pensou em ti. E se tu não pensares em ti, Deus pensa em ti.”
Foi então que lançou um desafio muito concreto à comunidade. “Experimenta pensar primeiro no outro. Experimenta pensar primeiro no outro e vais ver como a tua vida muda.”
Segundo explicou, a felicidade não nasce da constante preocupação consigo próprio, mas da capacidade de fazer da própria vida um dom para os outros. “Quando nós nos damos aos outros, quando nós vivemos com os outros, a nossa vida é mais feliz.”
Ao longo da homilia, D. Nuno Brás insistiu que Cristo transforma verdadeiramente a existência daqueles que se deixam conduzir por Ele. “Como a pessoa de Jesus, quando conduz a nossa vida, torna tudo diferente. Como torna a nossa vida diferente. Como torna a nossa vida mais feliz.”
O prelado lamentou também que a sociedade atual incentive frequentemente a necessidade de aparecer, de chamar a atenção ou de procurar reconhecimento. “Vivemos num mundo para dar nas vistas. Parece que temos sempre de aparecer, de nos mostrar.” Em contraste, explicou que o caminho proposto por Cristo é o da simplicidade e da comunhão. “Quando temos Jesus Cristo a dizer-nos, a mostrar-nos, a ajudar-nos na nossa maneira de viver, como tudo sai diferente.”

Recorrendo novamente à imagem do coro, recordou que a beleza da música não resulta da uniformidade das vozes, mas precisamente da conjugação das diferenças. “Há bocadinho estavam todos a cantar de forma diferente, mas estavam a cantar tão bem. Cada um fazia a sua parte, cada um cantava a sua música e, no fim, tudo saía bonito.”
Foi então que deixou uma das ideias centrais da sua reflexão. “Jesus não nos pede para sermos fotocópias uns dos outros. Jesus não nos pede para sermos todos iguais.” Pelo contrário, acrescentou, Cristo valoriza a identidade de cada pessoa, colocando-a ao serviço da comunidade. “Convida-nos e ajuda-nos para que este todo seja harmónico, belo.”
A partir desta ideia, D. Nuno Brás estabeleceu uma ponte entre o Evangelho e a missão das instituições locais, aproveitando a presença do presidente da Junta de Freguesia, dos restantes autarcas e de outras entidades. “Uma das grandes funções destes órgãos autárquicos é precisamente valorizar a individualidade de cada um, reconhecer aquilo que cada pessoa tem de bom e ajudar que todos vivam harmonicamente.”
Segundo afirmou, governar uma comunidade significa precisamente criar condições para que as diferenças não sejam motivo de divisão, mas fonte de riqueza comum. “Que o nosso modo de viver seja o mais harmonioso possível.”
Reconhecendo que nunca será possível eliminar completamente os conflitos, acrescentou, com alguma boa disposição, que “haverá sempre desafinações”, lembrando que “o paraíso é só no Céu”. Ainda assim, insistiu que vale a pena continuar esse esforço diário. “Vamos procurando esta harmonia, dando cada um o seu contributo, colaborando uns com os outros.”
Foi nesse contexto que situou também a celebração dos 30 anos da freguesia. “No fundo, é isso que nós celebramos. Trinta anos em que o Jardim da Serra vive desta forma oficial.” O bispo manifestou o desejo de que este aniversário sirva de incentivo para continuar a fortalecer os laços entre todos os habitantes. “Que o Senhor nos ajude a continuar este trabalho. Que o Senhor nos ajude a continuar a viver com esta amizade, com esta colaboração e com a procura desta harmonia.”
Já na parte final da homilia, dirigiu um novo apelo à comunidade para que faça de Cristo a referência permanente da sua vida. “Cristo à nossa frente. Cristo a mostrar o que devemos fazer. Cristo a mostrar como devemos ser.” Sublinhou ainda que este desafio não se limita ao espaço da Igreja, mas deve acompanhar cada pessoa em todas as circunstâncias. “Sempre. Não apenas na Igreja. Sempre, em cada momento da nossa existência.”
Concluiu com uma exortação de confiança. “Não tenhamos medo de nos deixarmos conduzir por Cristo. Quando pedimos a bênção do Senhor, pedimos precisamente que Ele continue a conduzir a nossa vida para que ela possa ser um verdadeiro contributo para a vida de todos e para nos entreajudarmos a chegar ao Céu, onde aí sim, sem desafinações, havemos de cantar as maravilhas de Deus.”
No final da celebração, o pároco, padre Rui Silva, começou por dirigir uma saudação ao presidente da Junta, Valentim Marcelino, que acompanhava a transmissão da celebração através do canal “Na Minha Terra”, desejando-lhe rápidas melhoras e agradecendo “toda a colaboração” prestada à paróquia ao longo dos anos.
Dirigindo-se depois aos fiéis, afirmou que os 30 anos da freguesia representam “uma história que se vai escrevendo aos poucos, mas com convicção”, refletindo aquilo que caracteriza o povo do Jardim da Serra.
O sacerdote aproveitou igualmente a presença do presidente da Câmara Municipal para agradecer a colaboração que tem sido prestada à paróquia e à freguesia, mas deixou também um pedido concreto relacionado com a Festa do Santíssimo Sacramento da próxima semana, apelando para que seja resolvido o problema da iluminação exterior da igreja antes das celebrações.
Por fim, convidou toda a população a participar na sessão solene organizada pela Junta de Freguesia, seguindo-se o corte do bolo comemorativo e um momento de convívio aberto à comunidade.
A Eucaristia terminou, assim, como começou: num ambiente de gratidão pelo caminho percorrido ao longo destas três décadas, mas também com um apelo lançado por D. Nuno Brás para que o futuro da freguesia continue a ser construído na amizade, na colaboração e na capacidade de cada pessoa colocar os seus dons ao serviço dos outros, deixando-se conduzir por Cristo, “aquele que rege” a vida da comunidade e a chama a viver em verdadeira harmonia.
No final da Missa, D. Nuno Brás benzeu uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Capela do Foro, que foi oferecida à Junta de Freguesia.




























