Igreja do Colégio uniu-se em oração pela Venezuela com Eucaristia presidida por D. Nuno Brás

Foto: Duarte Gomes

A Igreja do Colégio acolheu esta quarta-feira, dia 1 de julho, uma celebração de oração pela Venezuela, presidida pelo bispo do Funchal, D. Nuno Brás, num momento marcado pela solidariedade, pela comunhão e pela esperança para com o povo venezuelano, particularmente pelas vítimas dos recentes sismos e por todos aqueles que enfrentam as consequências da destruição provocada pela força da natureza.

A celebração reuniu algumas autoridades e também muitos fiéis, madeirenses e venezuelanos, numa manifestação de proximidade para com um país que mantém uma ligação profunda com a Madeira. Ao longo da Eucaristia foram recordados os imigrantes madeirenses que vivem na Venezuela, as famílias afetadas pela tragédia e todos aqueles que estão envolvidos nas operações de socorro e recuperação.

No início da celebração, D. Nuno Brás expressou o desejo de muitos madeirenses de poderem estar fisicamente junto daqueles que sofrem. “Como nós gostávamos de estar na Venezuela a ajudar todos aqueles que precisam”, afirmou o bispo do Funchal, reconhecendo a distância que separa a Madeira daquele país.

“Não podemos fazer, milhares de quilómetros nos separam, mas a fé vence as distâncias. A fé faz-nos estar presentes, ajuda-nos a partilhar a dor, o sofrimento dos nossos irmãos”, acrescentou.

O prelado pediu a todos os presentes que colocassem nas mãos de Deus aqueles que foram atingidos pelos sismos, lembrando de forma especial os sobreviventes e as equipas que trabalham no terreno.

“Ajuda-nos a pedir ao Senhor que dê força, muita força para todos aqueles sobreviventes, para todas aquelas equipas que estão a trabalhar na recuperação daqueles que foram vítimas do terremoto, dos terremotos”, afirmou.

A oração incluiu ainda um pedido pela Venezuela e por todos os que lá vivem. “Queremos pedir pela Venezuela, pelo seu país, pelos imigrantes madeirenses que lá se encontram, por todos quantos lá se encontram. Queremos confiá-los nas mãos de Nossa Senhora”, disse D. Nuno Brás.

A celebração teve como intenção principal levar conforto espiritual a quem atravessa momentos de sofrimento, recordando que, mesmo perante situações que parecem incompreensíveis, a fé pode ser um caminho de esperança.

Na homilia, o bispo do Funchal refletiu sobre a dificuldade do ser humano em compreender acontecimentos marcados pela dor, pela destruição e pela perda. “Caros irmãos, nós temos dificuldade, dificuldade em perceber, em compreender estes acontecimentos”, afirmou, lembrando que muitas vezes o homem procura respostas imediatas para realidades que ultrapassam a sua compreensão.

“Talvez porque estejamos demasiado habituados às ciências que tomam um objeto, que o conhecem, conhecem esse objeto em todas as suas dimensões, em todas as suas constituições. Mas nós não conhecemos Deus assim”, explicou o prelado.

Para D. Nuno Brás, Deus permanece sempre um mistério para o ser humano e a relação entre Deus e o homem não pode ser reduzida apenas àquilo que é visível ou racionalmente explicável. “Deus será sempre um mistério para o homem e a nossa relação com Deus será sempre um mistério, muito mais do que aquilo que é a nossa relação de uns com os outros”, afirmou.

Perante a dor provocada por catástrofes naturais e pelo sofrimento humano, o bispo destacou duas palavras essenciais para iluminar estes momentos: o amor de Deus e a presença de Deus junto daqueles que sofrem. 

“Creio que temos duas palavras, duas palavras que são essenciais”, disse. A primeira dessas palavras foi apresentada de forma simples e direta: “Deus ama-te”. “Deus ama-te. A ti e a todos. Deus é amor e ama-te”, afirmou D. Nuno Brás, sublinhando que esta certeza não elimina todas as perguntas, mas oferece uma base de esperança.

“Podes não entender todos os acontecimentos. Não entendes tudo aquilo que te acontece. Mas de uma coisa deves estar certo: Deus é amor e ama-te e procura-te e quer-se fazer encontrado por ti”, acrescentou.

O bispo do Funchal recordou depois o significado da cruz como lugar onde Deus assume o sofrimento humano. “Quando olhamos para a cruz, nela descobrimos Deus. E Deus de braços abertos. E Deus que sofre injustamente a morte”, afirmou.

A cruz, explicou, revela um Deus que não permanece distante perante a dor, mas que entra nela e a acompanha. “Deus experimenta o sofrimento. Deus experimenta a morte. Deus experimenta o teu sofrimento”, disse.

E acrescentou: “Como é importante termos Deus ao nosso lado, no meio do sofrimento. Como é importante viver o sofrimento com Deus ao nosso lado.”

Para D. Nuno Brás, esta presença de Deus transforma a forma como o homem enfrenta a adversidade. “Como isso nos dá força. Como isso nos dá coragem para lutar, para viver, para perceber que há sempre um amanhã”, afirmou. “Deus connosco”, repetiu, lembrando que a fé cristã anuncia um Deus próximo, que partilha as dores humanas e não abandona aqueles que atravessam momentos difíceis.

O bispo falou ainda da solidão que muitas vezes acompanha o sofrimento. “Como isso vence a solidão. A solidão do medo. A solidão da dor. A solidão do abandono”, afirmou.

A partir do exemplo da Virgem Maria, que acompanhou Jesus no sofrimento, D. Nuno Brás destacou que a dor vivida com Deus pode transformar-se em esperança.

“Precisamente, o amor de Deus assim vivido, esta consciência de que Deus experimenta em primeira pessoa o nosso sofrimento, só nos pode dar esperança”, disse.

Essa esperança, acrescentou, permite olhar para além da tragédia.“Só nos pode fazer erguer os olhos para o horizonte e ver mais longe a ressurreição de Jesus”, afirmou.

O prelado recordou ainda que, para os cristãos, existe sempre um horizonte para além da dor presente. “Há diante de nós um horizonte infinito. Este Deus connosco, este Deus que assume a nossa morte e o nosso sofrimento, o nosso pecado, oferece-nos também a sua vida”, disse.

Na referência direta à Venezuela, D. Nuno Brás voltou a sublinhar a união espiritual entre a Madeira e aquele país.

“Estamos unidos aos nossos irmãos da Venezuela, porque esta situação nos toca tanto, a nós que vivemos aqui a milhares de quilómetros e que gostávamos de estar lá”, afirmou.

“Gostávamos de estar lá para partilhar a dor, para partilhar as iniciativas, as ações, para ajudar no que pudéssemos”, acrescentou.

Mas, perante a impossibilidade de estar fisicamente junto daqueles que sofrem, o bispo do Funchal lembrou que existe uma outra forma de presença, através da oração e da comunhão da fé.

“A fé diz-nos que todos nós fazemos parte do mesmo corpo de Cristo”, afirmou.

“E que, por isso mesmo, a nossa oração, o nosso pedido, a nossa fé, são úteis, importantes, essenciais para todos aqueles nossos irmãos”, acrescentou.

A celebração tornou-se assim um momento de união entre a Madeira e a Venezuela, reforçando uma ligação construída ao longo de décadas através da história da emigração madeirense.

D. Nuno Brás pediu ainda que todos mantivessem viva a esperança e colocassem nas mãos de Deus aqueles que enfrentam a destruição, o medo e a incerteza. “Pedimos ao Senhor que nos dê a esperança da vida, da vida eterna, daquela vida que só Ele pode oferecer”, afirmou.

Essa esperança, explicou, nasce da certeza de que Deus acompanha o ser humano mesmo nos momentos mais difíceis.“Que é certeza porque o percebemos ao nosso lado, a partilhar a nossa dor”, disse.

O bispo do Funchal convidou os presentes a fazerem memória daqueles que, na Venezuela, enfrentam as consequências dos sismos, muitos deles em situações de fragilidade.

“Também eles sejam capazes de olhar mais longe, com as mãos no terreno, retirando os escombros, procurando salvar os outros irmãos”, afirmou.

Para D. Nuno Brás, mesmo no meio da destruição é possível encontrar sinais de esperança quando existe solidariedade, entreajuda e confiança. “Que eles o façam com esta certeza, a certeza da vida, a certeza de um Deus que é amor, que partilha o nosso sofrimento e que nos quer oferecer a sua vida, vida eterna e feliz, a nós e a todos”, concluiu.

Durante a celebração houve também um momento especial com a leitura de uma mensagem de oração pela Venezuela, por Betty Gomes, que colocou em palavras a dor de um povo atingido pela tragédia, mas também a confiança na proteção de Deus e de Nossa Senhora.

“Há instantes em que o mundo parece inclinar-se, como se o próprio chão procurasse palavras que nós não sabemos dizer. A Venezuela vive agora esse instante”, foi dito no início da mensagem.

A oração descreveu um país ferido, mas cheio de resistência. “Um país ferido, mas não vencido. Um povo que treme, mas que não cai. Uma nação que procura no céu o que a terra retirou”, afirmou.

A mensagem dirigiu-se de forma particular a Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela, pedindo a sua intercessão por todos aqueles que foram afetados.

“É por isso que neste altar voltamos o coração para a Nossa Virgem, a Nossa Senhora de Coromoto. Mãe que conhece cada lágrima antes dela nascer”, foi referido.

A oração lembrou as famílias que perderam as suas casas, as crianças que viveram momentos de medo, os idosos confrontados com a destruição das suas memórias e todos os que trabalham no socorro às vítimas.

“Olha para os que procuram os sobreviventes, para os que carregam pedras com as mãos e a esperança com o peito”, dizia a mensagem.

Foi ainda pedido conforto para aqueles que atravessam a dor e a incerteza. “Mãe, tu que és o refúgio de todos os aflitos. Acolhe os que choram os dias mortos, os que ficaram feridos, os que caminham entre os escombros como quem atravessa uma noite sem lua.”

A mensagem terminou com um apelo à esperança e à confiança. “Hoje nesta missa, erguemos a Venezuela nas nossas mãos, como quem oferece ao céu aquilo que a terra não consegue carregar”, afirmou Betty Gomes, pedindo que Nossa Senhora levasse “consolo, esperança e paz” a todas as vítimas.

No final da Eucaristia, o padre Carlos agradeceu a presença do bispo do Funchal e de todos os que participaram na celebração.

O sacerdote destacou a colaboração do Grupo São José, que solenizou a celebração, na organização deste momento de oração, agradecendo também às autoridades presentes e a todos os fiéis que se associaram.

O padre Carlos lembrou a presença de muitos madeirenses com ligações à Venezuela e reforçou que aquele povo não está sozinho. “Continuar a rezar também pelos nossos familiares, pelos venezuelanos, que não se sintam nunca sós. Deus está com eles, mas também a nossa oração os sustenta”, disse.

No final, deixou ainda um apelo para que esta oração continue para além daquele momento. “Continuamos a rezar por estes nossos irmãos, aqui e nas nossas casas, não nos esquecemos deles nunca. Hoje são eles, amanhã somos nós, são outros que precisam da nossa oração, precisam da nossa presença”, afirmou.

Terminada a celebração, D. Nuno Brás permaneceu junto dos fiéis no adro da Igreja do Colégio, cumprimentando e abençoando todos os que se aproximaram.

Num gesto simbólico de proximidade e comunhão, o bispo do Funchal abençoou também uma bandeira da Venezuela, reforçando a ligação entre a Madeira e aquele país.

A noite terminou com uma mensagem clara de solidariedade: apesar da distância, a oração e a fé continuam a unir povos e pessoas, levando esperança a quem enfrenta momentos de sofrimento.