Bispo do Funchal: “Onde não existe lugar para Deus, tão-pouco existirá lugar para o Homem e para o humano”

Ideia foi defendida durante a celebração do Te Deum que assinalou o Dia da Região Autónoma da Madeira, na Catedral do Funchal.

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal afirmou que “onde não existe lugar para Deus, tão-pouco existirá lugar para o Homem e para o humano”, defendendo que a construção de uma sociedade mais justa depende da forma como cada pessoa exerce a sua liberdade e assume a responsabilidade pelo bem comum.

A reflexão foi apresentada durante a Eucaristia com Te Deum, celebrada esta quarta-feira, dia 1 de julho, na Catedral do Funchal, por ocasião do Dia da Região Autónoma da Madeira.

Partindo das leituras propostas para a celebração, o prelado centrou a sua homilia no tema da liberdade humana, sublinhando que esta é um dom que implica escolhas e responsabilidade. “Como seria mais fácil se Deus decidisse tudo por nós, em nosso nome!”, afirmou, acrescentando que, apesar de aparentemente mais simples, esse não seria “o mundo do amor e da liberdade”, mas antes “um mundo de autómatos”.

O bispo recordou o apelo do profeta Amós: “evitai o mal, escolhei e praticai o bem”, alertando que nenhuma prática religiosa tem verdadeiro sentido se não for acompanhada por uma vida comprometida com a justiça e com o cuidado pelo próximo.

A partir do Evangelho, que apresenta o encontro de Jesus com os gadarenos, o prelado destacou que Cristo tem autoridade sobre o mal, mas encontra maior resistência na liberdade humana. “Sobre os espíritos impuros, Jesus tem autoridade: bastou a sua palavra para que lhe obedecessem. Bem mais difícil é fazer-se acolher pela liberdade humana”, afirmou.

Segundo o responsável pela Diocese do Funchal, os habitantes daquela região preferiram afastar Jesus porque a sua presença implicava mudança. “Para eles, a vara de porcos valia muito mais que a vida daqueles homens”, disse, interpretando esta atitude como um sinal de uma escolha que continua atual: a tentação de afastar Deus da vida quando a sua presença exige responsabilidade e transformação.

“Parece que podemos viver sem Deus; parece que nos podemos construir sem Ele, ignorando-O ou mesmo rejeitando-O”, afirmou, deixando um alerta: “acabaremos numa aparência enganadora, que terminará, como a história bem mostra, no domínio do mais poderoso e no esmagamento indigno e injusto do mais frágil”.

Na celebração que reuniu representantes da principais entidades civis e militares da região, o bispo relacionou esta reflexão com a identidade madeirense e com o percurso histórico da Região. “Reconhecemos o que somos como madeirenses, desde aquele dia primeiro do povoamento: o caminho que percorremos, não só na transformação material da Ilha, como também na nossa transformação enquanto pessoas e povo, como “autonomia”, afirmou.

Para o prelado, uma verdadeira “autonomia” exige liberdade, mas uma liberdade orientada pelo bem. “Se algo marca a história madeirense é o facto de ela se ter construído com Deus presente na vontade e liberdade humana”, considerou.

O bispo evocou o esforço dos antepassados que construíram a Madeira, destacando que “não poderiam suportar o peso, o sacrifício da vida nestas paragens atlânticas sem a força e o horizonte de Deus, sem a Sua presença e a sua bênção”.

Reconhecendo que também houve momentos de afastamento da fé, afirmou que os períodos mais marcantes da história insular foram aqueles vividos com Deus presente. “Esses mesmos momentos foram também os de maior humanidade: aqueles em que a grandeza, a generosidade, a fraternidade humanas vieram ao de cima e nos fizeram avançar para novos patamares”, disse.

No final da sua reflexão, o bispo deixou um desafio aos madeirenses, sublinhando que a liberdade continua a ser uma escolha diária: “Tentar construir Babel ou reedificar Jerusalém; ficar impassíveis diante do mal ou abraçar decididamente o bem; acolher Jesus ou expulsá-lo da nossa vida”.

E concluiu com as palavras do profeta Amós: “Procurai o bem e não o mal, para que vivais. Assim, o Senhor Deus do universo estará convosco”.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

DIA DA REGIÃO 

Catedral do Funchal, 1 de julho de 2026

Leituras: Am 5,14-15.21-24

Mt 8,28-34

“O Senhor Deus do universo estará convosco”

1. As Leituras de hoje, propostas para a Quarta-feira da XIII Semana do Tempo Comum (anos pares), colocam-nos diante de apelos feitos há muitos séculos atrás: o Profeta Amós terá vivido em meados do século VIII antes de Cristo; e Jesus e o evangelista Marcos viveram há cerca de dois mil anos. Mas sabemos que a Palavra de Deus tem a capacidade de ultrapassar tempos e lugares para se fazer presente ao nosso coração e iluminar a nossa existência, tornando-nos verdadeiros interlocutores de Deus e construtores do seu projecto.

Ela confronta-nos hoje, de um modo muito particular, com o mistério da liberdade humana. Como seria tranquilizante se não fôssemos, constantemente, colocados perante a necessidade de decidir, a responsabilidade de construir a nossa vida, a tarefa de participar na construção duma comunidade que é a nossa! Como seria mais fácil se Deus decidisse tudo por nós, em nosso nome! O mundo não teria o pecado; as guerras não existiriam; a igualdade estaria garantida… Mas este não seria o mundo do amor e da liberdade, o mundo em cuja construção empenhamos tudo o que sabemos e somos, o mundo da consciência e da responsabilidade. Não seria o mundo humano: seria, porventura, um mundo de razão e inteligência, mas seria, apenas, um mundo de autómatos. 

2. Na Iª Leitura, o Profeta fazia ao Povo de Israel este simples apelo: evitai o mal, escolhei e praticai o bem. Sem essa procura, dizia ele, de nada valerão diante de Deus, os jejuns, cânticos e sacrifícios: “Detesto e desprezo as vossas festas, desgostam-Me as vossas reuniões sagradas. Se Me ofereceis holocaustos e oblações, Eu não quero aceitá-los; e para os vossos sacrifícios de animais gordos, nem sequer Me digno olhar”.  

Também no evangelho éramos confrontados com a decisão livre. Passando para a outra margem do Lago, Jesus chega a uma região estrangeira, pagã, a terra dos gadarenos. Ao seu encontro vêm dois endemoninhados, violentos — condenados, por isso, a viver fora da comunidade. Dominados pelos espíritos do mal, não suportavam, sequer, a presença de Jesus. Por isso, não hesitaram em confrontá-lo, mesmo à custa de proclamarem que Ele é o Filho de Deus: “Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste para nos atormentar antes de tempo?”

No entanto, sobre estes “espíritos impuros” a autoridade de Jesus é clara, forte, eficaz. Ao pedido de que os enviasse para os porcos, Jesus responde dum modo simples mas cheio de autoridade divina: “Então, ide”. O evangelista diz que eles saíram e foram para os porcos. 

Sobre os espíritos impuros, Jesus tem autoridade: bastou a sua palavra para que lhe obedecessem. O Senhor como que antecipa a sua vitória sobre o túmulo, a morte e o pecado, que se haveria de manifestar no momento da ressurreição (daí o “antes de tempo”). Não se trata apenas do combate entre Deus e o mal, entre Deus e a morte; para Jesus, essa luta é também a defesa da vida humana. 

Mas se é fácil que os espíritos impuros reconheçam e obedeçam à autoridade divina, bem mais difícil é fazer-se acolher pela liberdade humana: longe de acolher o Senhor, de se colocarem à sua escuta, de aceitarem fazer parte do seu plano salvador, os gadarenos pediram-lhe antes que se afastasse, que saísse da sua terra. Para eles, a vara de porcos valia muito mais que a vida daqueles homens. A sua decisão foi clara: ter Deus presente no quotidiano é demasiado “custoso”, a todos os níveis, exige uma vida segundo outros critérios. Melhor afastá-lo para longe!

É este, no fundo, o drama da liberdade: parece que podemos viver sem Deus; parece que nos podemos construir sem Ele, ignorando-O ou mesmo rejeitando-O. Esquecemos que, onde não existe lugar para Deus, tão-pouco existirá lugar para o Homem e para o humano: acabaremos numa aparência enganadora, que terminará (como a história bem mostra) no domínio do mais poderoso, e no esmagamento indigno e injusto do mais frágil.

O mistério da liberdade é o mistério da construção do humano. Bem longe de ser fruto do pecado ou de a ele inevitavelmente conduzir, a liberdade é antes a consequência daquele primeiro e divino mandamento: “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra”. 

Certamente: a liberdade pode aniquilar-se a si mesma e descambar na orgulhosa construção de Babel. Esquecidos do Deus criador, colocando-O de parte, os homens podem tentar a conquista do céu apenas confiados nas suas capacidades técnicas. Mas (como bem recorda o Papa Leão XIV na sua recente Encíclica) o mistério da liberdade pode (e deve) ser antes o mistério da reconstrução de Jerusalém (Nee 1-2).

3. Creio que podemos dizer que é isto, também, aquilo que nos reúne aqui, diante da Palavra de Deus e do altar do Senhor. Reconhecemos o que somos como madeirenses, desde aquele dia primeiro do povoamento: o caminho que percorremos, não só na transformação material da Ilha, como também na nossa transformação enquanto pessoas e povo, como “autonomia” — e “autonomia” verdadeira exige, necessariamente, “liberdade”.

Se algo marca a história madeirense é o facto de ela se ter construído com Deus presente na vontade e liberdade humana. Como poderiam os nossos antepassados suportar o peso, o sacrifício da vida nestas paragens atlânticas sem a força e o horizonte de Deus, sem a Sua presença, e a sua bênção, sem o horizonte de vida eterna que apenas Ele pode oferecer? 

Não faltaram, certamente, momentos em que foi esquecida a presença divina — na vida individual e na vida das diferentes comunidades. Mas creio que todos reconhecemos que os momentos grandes e empolgantes da nossa história insular foram aqueles partilhados e vividos com Deus. E, não tenhamos dúvida, esses mesmos momentos foram, também, os de maior humanidade: aqueles em que a grandeza, a generosidade, a fraternidade humanas vieram ao cimo e nos fizeram avançar para novos patamares. São eles que nos fazem sentir justamente orgulhosos de sermos madeirenses.

Tentar construir Babel ou reedificar Jerusalém — ficar impassíveis diante do mal ou abraçar decididamente o bem; cuidar dos que ainda hoje vivem dominados pelos demónios dos nossos tempos; acolher Jesus ou expulsá-lo da nossa vida, conscientes de que Ele é sempre uma Presença exigente: eis que a nossa liberdade continua a ser constantemente convocada. 

É um dom que Deus nos faz ao criar-nos e de que somos responsáveis: diante de cada um e do próximo; diante da história e, sobretudo, diante de Deus. “Procurai o bem e não o mal, para que vivais. Assim, o Senhor Deus do universo estará convosco”.