IA, guerra e paz

Foto: Vatican Media

No último capítulo da “Magnifica Humanitas”, Leão XIV coloca duas lógicas frente a frente: a “cultura do poder” e a “civilização do amor”. A primeira normaliza a guerra, a força e a polarização. A segunda propõe o caminho do “amor social”. Como escreve o Papa, a civilização do amor “não é uma utopia ingénua, mas um projeto exigente”, porque traduz a caridade em justiça, fraternidade e bem comum.

Esta visão fez-me recordar o Papa Francisco, sobretudo na “Fratelli tutti” e numa obra escrita durante a pandemia: “Sonhemos juntos. O caminho para um futuro melhor”. Sonhar, para Francisco, não era fugir da realidade, mas permitir que o Espírito Santo abrisse caminhos novos dentro da história.

Francisco dizia que de uma crise não se sai igual: sai-se melhor ou pior. Ao observar o panorama internacional, temos de reconhecer, com tristeza, que, em muitos aspetos, saímos pior. A pandemia revelou a interdependência humana, mas o mundo parece ter escolhido novamente a competição, o armamento, o medo e a sobrevivência do mais forte. A economia continuou, muitas vezes, dominada pelo lucro, deixando para trás os pobres, os descartados, os migrantes, os idosos, os trabalhadores invisíveis e todos aqueles que não contam nos grandes centros de decisão.

É neste contexto que Leão XIV alerta para os riscos da inteligência artificial quando se desliga da ética. A IA não pode servir apenas para nos tornar mais eficientes, deve ajudar a transformar a proximidade digital em “encontro e cuidado recíproco”. Caso contrário, torna-se instrumento de polarização, desinformação e medo, ajudando a apresentar a violência como necessária ou inevitável. “Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”, escreveu o Papa.

Também não podemos esquecer os interesses económicos escondidos por trás dos conflitos. Por isso, é preciso desmascarar o falso realismo que diz que a guerra sempre existiu e sempre existirá. Esse realismo, na verdade, é resignação. Pelo contrário, a paz não é ingenuidade, é “o fruto, sempre possível, da justiça e da caridade”.

No fim, o Papa recorda que “ninguém está isento de responsabilidade”. E, citando Tolkien, lembra-nos: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos”. 

A civilização do amor começa no quotidiano, nas palavras que desarmamos, na verdade que escolhemos, na justiça que praticamos, no cuidado pelos frágeis e na coragem de continuar a sonhar a paz quando o mundo insiste em fazer guerra