“A vida aparece-nos como um milagre”: Bispo crismou 98 jovens nas paróquias da Encarnação e Santa Maria Maior

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal presidiu, no passado fim de semana, a duas celebrações de Crisma, nas paróquias da Encarnação e de Santa Maria Maior (Socorro), onde administrou o sacramento da Confirmação a 28 e 70 jovens e adultos, respetivamente.

Nas duas celebrações coube ao Pe. Manuel Ornelas apresentar os grupos de crismandos e dirigir uma palavra de agradecimento pela presença de D. Nuno Brás. Na Paróquia da Encarnação, o sacerdote assumiu essa missão devido à ausência do pároco, Pe. Alexandre Jorge, que tem estado afastado por motivos de saúde. O bispo do Funchal aproveitou também a ocasião para manifestar votos de rápida recuperação ao sacerdote.

Na homilia proferida na Encarnação, D. Nuno Brás convidou os jovens a refletirem sobre o significado da vida, destacando que, apesar dos grandes avanços científicos, a existência humana continua a ser um mistério.

“A ciência é uma conquista enorme e assistimos todos os dias a conquistas cada vez maiores. Somos capazes de conhecer realidades que estão acima de nós, todos os planetas e toda esta astronomia. Somos capazes também de conhecer as realidades mais íntimas, mais pequenas”, afirmou.

O prelado sublinhou que o conhecimento científico alcançado pela humanidade não consegue, contudo, criar a vida a partir do nada. “Sabem tudo o que é necessário para que exista vida, sabem todos os ingredientes da vida, todas as suas condições. E, no entanto, não são capazes de fazer surgir vida”, disse, acrescentando: “A vida aparece-nos como um milagre”.

Segundo D. Nuno Brás, esta realidade deve levar cada pessoa a interrogar-se sobre o verdadeiro sentido da existência. “Qualquer coisa é extraordinária, mas afinal de contas, o que é isto da vida?”, questionou.

O bispo explicou que a vida humana tem uma dimensão única, porque a pessoa tem consciência de si própria e das consequências das suas escolhas. “Nós sabemos que as nossas escolhas hoje têm consequências, que as minhas decisões agora vão influenciar não apenas a minha vida, mas a vida dos outros”, afirmou.

A partir desta reflexão, D. Nuno Brás recordou que cada pessoa está ligada aos outros e que ninguém vive isoladamente. “Nós vivemos uns com os outros, vivemos verdadeiramente uns com os outros”, disse, destacando também o papel daqueles que acompanham cada caminho de vida.

Durante a celebração, o bispo do Funchal apresentou o exemplo de São Maximiliano Maria Kolbe, sacerdote franciscano que morreu no campo de concentração de Auschwitz, em 1941, depois de se oferecer para ocupar o lugar de outro prisioneiro condenado à morte.

“Quando o padre viu aquele homem que ia ser condenado à morte, pediu licença para ir em vez daquele prisioneiro que tinha família”, explicou. “O padre católico, que hoje é São Maximiliano Maria Kolbe, morreu em vez daquele outro prisioneiro.”

D. Nuno Brás sublinhou que esse gesto representa uma das maiores expressões de amor. “Esta oferta, este gesto deste homem, foi a prova maior de amor que alguém pode dar. Morreu, ofereceu-se para morrer em vez dele”, afirmou.

O exemplo serviu para introduzir as palavras de São Paulo na Carta aos Romanos: “Deus prova assim o seu amor para connosco. Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores.”

“Cristo morreu por ti”, afirmou o bispo, explicando que o amor de Deus não depende da perfeição humana. “Fazemos muitas coisas boas, mas fazemos muitas coisas más. E Deus, apesar disso, não se importa: morre por ti para te dar a vida, a sua vida.”

Dirigindo-se aos jovens crismandos, o bispo diocesano questionou-os sobre a forma como irão viver o dom recebido. “Tu estás aqui porque estás disponível para perceber a vida de Deus. Esta vida que tu já tinhas desde o dia do teu batismo e que agora Deus quer dar-te de novo”, afirmou.

“Como é que vais viver essa vida? Que resposta vais dar nestes anos a esta prova de amor que Deus tem por ti?”, perguntou.

Na celebração em Santa Maria Maior (Socorro), D. Nuno Brás retomou a mesma reflexão sobre a vida, o amor e o dom de Deus, começando por recordar que viver é algo que cada pessoa recebe.

“Nenhum de nós que aqui está escolheu viver. Escolhemos muitas coisas, mas viver não. É qualquer coisa que nos aconteceu, qualquer coisa que nos foi dada”, afirmou.

O bispo do Funchal explicou que esta realidade deve despertar uma atitude de gratidão e de procura pelo sentido profundo da existência. “Vale a pena interrogarmo-nos sobre o que é isto de viver”, disse.

Também nesta homilia voltou a referir os avanços da ciência, lembrando que, apesar do conhecimento alcançado, a vida continua a ser algo que ultrapassa a capacidade humana.

“Os cientistas sabem como é feita a vida, descobriram o ADN, descobriram os componentes químicos da vida, conhecem todos os componentes da vida e, no entanto, não são capazes de fabricar a vida”, afirmou.

“São capazes de, da vida, fazer outra vida, como acontece na clonagem, mas não são capazes de fabricar a vida”, acrescentou, concluindo: “A vida é um milagre, um verdadeiro milagre”.

O prelado sublinhou ainda que a pessoa humana é mais do que a sua dimensão física. “Nós, seres humanos, somos muito mais do que isso. Temos consciência, sabemos que vivemos”, afirmou.

E acrescentou: “Sabemos que das nossas decisões depende também a vida dos outros. Vivemos uns com os outros e as nossas escolhas têm sempre consequências.”

Para explicar esta ligação entre as pessoas, o bispo recorreu a um exemplo simples do quotidiano: “Se estou a jogar futebol e a bola, em vez de ir para a direita, fosse para a esquerda, o jogo seria completamente diferente. Depende daquele pontapé inicial.”

A partir daí, lembrou também todos aqueles que contribuem para que cada pessoa chegue ao momento presente. “Vocês já viram a quantidade de pessoas que trabalharam para vocês poderem estar sentados aqui agora?”, questionou.

“Vivemos uns com os outros. Claro que os nossos pais têm um papel muito importante, porque partilham connosco a sua vida”, afirmou, lembrando que cada pessoa é chamada a construir o seu próprio caminho.

Na reflexão dirigida aos jovens, voltou a recordar São Maximiliano Maria Kolbe, destacando que o sacerdote “ofereceu a sua vida em vez de um outro”.

“Podemos dar a vida ao outro. Podemos entregar a nossa vida”, afirmou, antes de lembrar que a vocação humana aponta para algo maior: “A nós, seres humanos, não nos basta sequer isso. Precisamos da felicidade e da felicidade para sempre.”

O bispo diocesano retomou então a passagem bíblica: “Deus prova assim o seu amor para connosco. Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores.” E explicou aos jovens que esta mensagem revela o valor que cada um tem para Deus. “Vocês estão a ver aquilo que vocês valem para Deus. A tua vida, aquilo que a tua vida vale para Deus”, disse.

“Deus ama-te tanto que não se importa de experimentar a morte para te dar a sua vida. Não uma vida qualquer, mas a vida do próprio Deus”, acrescentou.

Aos que receberam o Crisma deixou um desafio concreto: “Deus dá-te a sua vida. E o que é que tu vais fazer com ela? Como é que vais corresponder a este dom que Deus te dá?”

As duas celebrações foram marcadas pela participação das comunidades paroquiais, famílias, padrinhos e grupos de preparação, que acompanharam os jovens neste momento importante do seu caminho cristão.

Crismas na paróquia da Encarnação

Crismas na paróquia de Santa Maria Maior