Livro revela ligação entre a Sé do Funchal e o Cabo Girão através da história da pedra natural da Madeira

Foto: Duarte Gomes

Foi apresentado na sexta-feira, dia 12 de junho, na Sé do Funchal o livro “Cabo Girão e Sé do Funchal: dois monumentos unidos pelo mesmo tipo de pedra”, uma obra da autoria de João Baptista e Celso Gomes que resulta de várias décadas de investigação dedicada à geologia, à história e à utilização da pedra natural do arquipélago da Madeira.

A apresentação encheu a Catedral de entidades oficiais civis, militares e religiosas, nomeadamente Rubina Leal, José Manuel Rodrigues e D. Nuno Brás e de personalidades ligadas à cultura, à investigação e à preservação do património regional, num momento que destacou a importância de conhecer os materiais que integram dois dos monumentos mais marcantes da ilha.

A publicação surge como resultado de um trabalho prolongado de recolha, análise e cruzamento de informação científica e histórica, procurando estabelecer a relação entre dois locais de grande valor simbólico para a Madeira: o Cabo Girão e a Sé do Funchal.

Durante a sessão, João Baptista explicou que o livro representa “o culminar de um trabalho desenvolvido ao longo de cerca de 30 anos”, envolvendo investigação científica e técnica sobre a exploração, transporte e aplicação das rochas utilizadas na construção de importantes monumentos madeirenses, neste caso a Sé.

O autor recordou que parte dos estudos que deram origem à obra já tinha sido divulgada anteriormente em artigos científicos e outras publicações, mas que este livro reúne agora novos dados, atualizações e uma visão mais completa da investigação realizada. “É um conjunto de investigações que foram desenvolvidas nos últimos 30 anos por mim e pelo professor Celso”, afirmou.

Com 282 páginas, divididas por 10 capítulos, cerca de 356 fotografias, 16 ilustrações e 122 referências bibliográficas, a obra procura responder a várias questões relacionadas com a construção da Sé do Funchal, nomeadamente sobre a origem das pedras utilizadas, os processos de extração e a forma como chegaram ao monumento.

Um dos principais temas abordados prende-se com a reconstituição dos processos de extração da pedra nas arribas do Cabo Girão, o seu transporte até à cidade e a posterior utilização na construção da Sé. Segundo João Baptista, a investigação permitiu compreender diferentes fases deste percurso, desde a retirada da pedra até à sua aplicação final.

O investigador destacou também o papel determinante do mar durante este processo, lembrando que, durante os primeiros séculos do povoamento, a via marítima era essencial para a circulação de pessoas e mercadorias. “A nossa grande autoestrada foi a via marítima”, referiu, explicando que a pedra vinha por barco até ao Funchal, onde era descarregada e utilizada na construção da Catedral.

Outro dos aspetos abordados no livro prende-se com as marcas existentes na Sé, nomeadamente sinais deixados pelos antigos mestres pedreiros que permitem identificar alguns dos intervenientes na construção do edifício. Entre essas referências surge Pêro Anes, apontado pelos autores como uma figura relevante no desenvolvimento da obra.

A investigação pretende ainda valorizar o património construído da Madeira e contribuir para um maior conhecimento da história da pedra natural do arquipélago. Durante a apresentação, foi sublinhado que a Sé do Funchal é um caso singular pela diversidade dos materiais utilizados na sua construção.

João Baptista destacou que “geralmente os monumentos são construídos com um ou dois tipos de pedra”, enquanto a Sé do Funchal integra “sete variedades de rochas vulcânicas e 25 tonalidades cromáticas”, resultado da utilização de diferentes materiais provenientes da ilha.

Cruz para onde tudo conflui

Já D. Nuno Brás, que também interveio nesta sessão, o mesmo destacou a importância da Sé como elemento central da identidade da cidade e da própria ilha. 

O responsável pela Diocese começou por saudar todas as entidades presentes no lançamento e afirmou que esta obra ajuda também a compreender a própria cidade do Funchal.

“Quando digo a alguém do continente ou de outro país que chega aqui ao Funchal para lhe explicar a cidade, digo que é como uma mão, porque tem os lombos, as ribeiras e tudo vem acabar na catedral”, afirmou. Segundo D. Nuno Brás, “a cidade do Funchal encontra-se construída de forma a desembocar na nossa catedral”, fazendo da Sé um ponto de encontro natural da vida da cidade.

O bispo considerou ainda que a Sé do Funchal é uma das catedrais portuguesas com maior ligação à população, destacando que não é apenas um espaço visitado por turistas, mas um lugar com vida própria. “Basta estar aqui um pouco ao longo do dia e vermos como ela é visitada por madeirenses que aqui vêm”, referiu.

Para D. Nuno Brás, a Sé é “uma grande cruz implantada no centro da cidade para onde tudo conflui e de onde todos partem de coração mais preenchido, certos de que Deus ouve a sua voz”.

Referindo-se diretamente ao livro apresentado, o bispo sublinhou que a catedral é “feita das pedras da ilha e pelas gentes da terra, sob a direção de mestres vindos de outras terras”, estabelecendo uma ligação profunda entre o monumento, a população e a própria identidade madeirense. “Entre a catedral, a própria gente e a própria ilha existe uma identificação muito grande”, afirmou.

Durante a sua intervenção, D. Nuno Brás recorreu também a uma passagem do Evangelho de São Mateus, comparando a construção sobre a rocha com a força de uma casa que permanece perante as tempestades. “Quem ouve as minhas palavras e as pratica é como o homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha”, citou, destacando que a imagem da pedra remete para algo firme e duradouro.

O bispo lembrou ainda uma passagem do sermão do Espírito Santo do Padre António Vieira sobre o trabalho do escultor que transforma uma pedra bruta numa obra acabada, afirmando que essa imagem ajuda a compreender aquilo que os antepassados fizeram na construção da Sé do Funchal.

“Trabalhai e continuai com ele, porque nada se faz sem trabalho e perseverança”, recordou D. Nuno Brás, concluindo que a reflexão de do Padre António Vieira ajuda a perceber aquilo que a catedral transmite a todos os que por ela passam.

O livro apresenta assim uma nova perspetiva sobre dois símbolos da Madeira, mostrando como a geologia, a história e a arquitetura se cruzam na construção do património regional. 

Para os autores, a Sé do Funchal representa uma verdadeira síntese da diversidade geológica da ilha e um exemplo da forma como os recursos naturais foram incorporados na identidade cultural madeirense.

A terminar de referir que esta apresentação aconteceu num dia marcante já que a 12 de junho se assinalava, os 512 anos da sua criação. Além disso este livro está associado às comemorações dos 50 anos da Autonomia da Madeira e aos 50 anos do Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, criado pelo prof. Celso Gomes.