O Papa Leão XIV defendeu este domingo, 7 de junho, em Madrid, que a cultura, a arte, a economia, o trabalho, a tecnologia e o desporto devem estar ao serviço da dignidade humana e da construção do bem comum. A mensagem foi deixada na Movistar Arena, durante o encontro “Criar redes com o mundo da cultura, da arte, da economia e do desporto”, integrado na viagem apostólica do Papa a Espanha, que decorre até 12 de junho.
O encontro reuniu cerca de cinco mil pessoas e contou com vários momentos culturais e testemunhos de representantes da sociedade civil. Entre os participantes estiveram o ator e realizador espanhol António Banderas.
O Papa começou por elogiar a criatividade espanhola, visível nas cidades, ruas, monumentos, praças, jardins, universidades, igrejas, música, pintura, dança e gastronomia. Esta herança, disse, revela “a inteligência e a vontade que residem na alma humana”.
“Depois de contemplar atentamente estas maravilhas criadas pelas gerações anteriores, surge inevitavelmente uma pergunta que nos interpela a todos: que herança estamos a deixar para o futuro e, por conseguinte, que tipo de comunidade estamos a construir?”, questionou.
A partir desta interrogação, o Papa alertou para uma sociedade com grande capacidade de produzir, inovar e comunicar, mas por vezes incapaz de “custodiar a alma daquilo que ela gera”.
Neste contexto, Leão XIV reafirmou a vontade da Igreja de continuar em diálogo com o mundo contemporâneo. Fê-lo sem esconder a complexidade da história e reconhecendo que a Igreja tem consciência “tanto dos seus acertos como dos seus erros”. Ainda assim, apresentou a tradição cristã como uma experiência capaz de contribuir para a vida digna e para o bem comum.
“O desejo do bem, da beleza, da verdade está enraizado no ‘ADN da humanidade’; e é a partir dessa aspiração profundamente humana e da nossa experiência plurissecular que a Igreja propõe caminhos para uma vida digna e para o bem comum”, afirmou.
O Papa recordou a expressão de São Paulo VI, segundo a qual a Igreja é “perita em humanidade”, e ligou essa missão à encíclica “Magnifica humanitas”. “Hoje constatamos que a questão decisiva continua a ser a mesma: que significa ser verdadeiramente humano?”, perguntou.
Para Leão XIV, a resposta cristã a esta pergunta é Jesus Cristo. “A Igreja partilha com humildade, mas também com firmeza, aquilo que descobriu na experiência da fé: que Jesus Cristo responde às grandes perguntas sobre a vida humana e a sua plenitude, já neste mundo e até ao seu ápice na eternidade”.
Para o Papa, a comunicação nunca é neutra. “Toda a expressão fala, transmite; pode ferir ou curar, destruir expectativas ou abrir horizontes, semear divisão ou despertar a esperança na possibilidade de construirmos juntos algo genuinamente humano”.
Leão XIV alertou contra instituições fechadas em si mesmas e contra modelos económicos ou culturais que descartam pessoas. “Assim, tecer redes é um diálogo entre instituições centrado na dignidade humana. Isto implica, por exemplo, que a universidade não viva de costas voltadas para o mundo do trabalho nem renuncie à verdade; que a atividade empresarial não veja o trabalhador como mais um fator na equação dos seus interesses; que a arte não se destine apenas às elites; que o desporto não seja reduzido a espetáculo ou convertido em mero negócio; que o progresso tecnológico tenha em conta os idosos, os pobres e aqueles que não têm voz”.
O Papa falou também da criação artística como expressão da fé, citando Bento XVI: “A fé é amor, e por isso cria poesia e música. A fé é alegria, e por isso cria beleza.” A partir desta afirmação, recordou que todos já foram transformados por alguma forma de beleza: “uma canção, um poema, uma igreja silenciosa, uma voz, um olhar, até mesmo um jogo de basquetebol vivido com amigos”.
No seu discurso, Leão XIV recordou também os homens e mulheres que movidos pela fé fundaram hospitais, escolas, iniciativas solidárias e linguagens que dignificaram as pessoas.
“Por isso, importa perguntar com honestidade se o mundo — e, em particular, a Europa — teria forjado a sua identidade sem a marca espiritual que impregnou a sua história. Não se trata de uma provocação, mas de um convite a pensar se a eternidade, que irrompeu no tempo e no espaço mediante a encarnação de Jesus Cristo, pode voltar a reconciliar-se com o quotidiano”.
A abertura a Cristo, explicou, não afasta a Igreja dos problemas sociais. Pelo contrário, torna mais exigente a atenção aos excluídos. “Quero perguntar-me em voz alta: quem está a ser excluído apesar das suas virtudes e capacidades? Não podemos ignorar que a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos, e a Igreja.”
A crítica do Papa não se dirigiu apenas à pobreza material, mas também aos sistemas que impedem a participação responsável de todos. Citando a encíclica “Magnifica humanitas”, afirmou que “as estruturas económicas e institucionais só são justas na medida em que servem o desenvolvimento integral da pessoa e favorecem a participação responsável de todos”.
Na parte final, Leão XIV dirigiu-se ao mundo do desporto, que disse não lhe ser alheio. O Papa destacou a dimensão pedagógica da prática desportiva, capaz de ensinar respeito, disciplina, convivência e superação. “Pensemos em quantos de nós aprendemos o respeito pelo adversário num campo de jogo mais do que escutando um discurso. Quantos desportistas nos ensinam a perder sem odiar, a ganhar sem humilhar e a levantar-nos depois de cair”.





















