Leão XIV confia aos jovens a missão de serem “centelha duma nova humanidade”

Na vigília de oração em Madrid, o Papa pediu aos jovens que procurem a verdade, redescubram o silêncio e sejam protagonistas de uma sociedade mais humana

Foto: Vatican Media

O Papa Leão XIV desafiou os jovens cristãos a dar “uma nova direção à sociedade”, tornando-se protagonistas da mudança na família, na universidade, no trabalho e também no mundo digital. A mensagem foi deixada na noite de sábado, 6 de junho, na Plaza de Lima, em Madrid, durante a vigília de oração com os jovens, integrada na viagem apostólica do Papa a Espanha, que decorre até 12 de junho. O encontro reuniu mais de 600 mil jovens, segundo o sítio de informação “Vatican News”.

A vigília contou com a saudação do cardeal José Cobo Cano, arcebispo de Madrid, e com uma apresentação conduzida pelo ator Antonio Banderas, inspirada no musical Godspell. Seguiu-se um diálogo entre o Papa e jovens de diferentes realidades eclesiais, que colocaram perguntas sobre vocação, discernimento, missão, fé, compromisso social e experiência missionária.

Questionado sobre os santos que marcaram o seu crescimento cristão, o Papa recordou Santo Agostinho, mas destacou também São João Crisóstomo, São Tomás de Vilanova e São Turíbio de Mogrovejo. Nesse contexto, o Papa lançou um convite aos jovens: “Não tenhais nunca medo de pensar na vocação à vida sacerdotal, à vida religiosa ou a outros ministérios na Igreja!”.

A referência a São Tomás de Vilanova permitiu ao Papa destacar a caridade como força espiritual em tempos de provação. Sobre São Turíbio de Mogrovejo, missionário no Peru, sublinhou a ligação entre oração, evangelização e compromisso com a justiça. “São Turíbio uniu uma intensa vida de oração ao compromisso com a justiça, especialmente face aos abusos e à corrupção da sua época. Por isso, para mim, é um modelo de entrega ao povo, especialmente aos mais pobres, em nome de Cristo”.

Outro momento significativo do discurso foi a memória dos anos vividos no Peru: “Quanto aos anos vividos no Peru, como missionário e depois como bispo, recordo sobretudo o testemunho de fé do povo, marcado por muitas dificuldades, mas cheio de esperança. Foi precisamente o encontro com as feridas e também com as alegrias do povo que me fez crescer no caminho do seguimento de Jesus. Enquanto O anunciava, também eu era transformado pelo Evangelho, transformado pela vida e pela fé desses povos, muitas vezes materialmente pobres, mas ricos na fé”.

Perante a pergunta sobre como reconhecer a voz de Deus entre tantas vozes, o Papa indicou o silêncio como caminho essencial. Partiu de uma situação concreta da vida dos jovens, a dispersão, os auriculares, os estímulos permanentes, para propor uma pedagogia da escuta.

Leão XIV alertou ainda para as falsas vozes que circulam no espaço público e nas redes sociais. “Ao libertarmo-nos do estrondo de mil vozes, reconhecemos que algumas enganam os nossos desejos, outras seduzem-nos sem nos alimentar, outras falam por interesse. No silêncio compreendemos que as ideologias passam, enquanto a verdade permanece.” E acrescentou: “Buscai sempre a verdade! Deus é a Verdade! Se algo vos afasta de Deus, não é verdade! Não esqueçais disto!”

A oração surgiu, depois, como lugar onde cada pessoa pode entregar a Deus aquilo que traz no coração. “Não tenhais medo de expressar o que sentis no coração”, afirmou, recordando o salmo: “Aquele que fez o ouvido, não ouvirá?” Para Leão XIV, “o nosso discurso interior transforma-se em oração, louvor e súplica quando é confiado ao único que o pode ouvir”.

O Papa abordou ainda a forma como os jovens podem acompanhar aqueles que estão longe da fé. A resposta insistiu na humildade, na coerência e no testemunho. “Queridos jovens, para acompanhar os outros na descoberta da beleza da nossa fé, lembrem-se de que nenhum de nós nasceu mestre e que, perante o Senhor, todos somos discípulos”, afirmou.

Por isso, pediu que a transmissão da fé não se faça por imposição, mas pela partilha de um caminho espiritual vivido com autenticidade. “Se rezais com amor, os jovens apreciarão a importância da oração. Se sois ardentes na fé, transmitireis o seu fogo vivo. Buscai todos, nos vossos corações, este fogo do amor de Deus!”

Na parte final, respondendo às perguntas sobre o compromisso dos jovens cristãos na sociedade, Leão XIV valorizou também o matrimónio como vocação. Recorrendo à antiga Carta a Diogneto, o Papa explicou que os cristãos são chamados a viver no mundo “assim como a alma está no corpo”. Esta presença, disse, não significa submissão às modas ou ao espírito do tempo, mas liberdade em Cristo.

Aos jovens, confiou a responsabilidade de transformar a sociedade a partir da vida concreta. “Nesta perspectiva, sobretudo vós, jovens, sois chamados a dar uma nova direção à sociedade, tornando-vos protagonistas da mudança a partir dos vossos laços quotidianos, daquilo que viveis na família, na universidade e no trabalho”.

Leão XIV referiu também a missão no ambiente digital, reconhecendo nos jovens a capacidade de “testemunhar Cristo no mundo, incluindo a realidade digital, para comunicar os valores e a beleza do Evangelho”.

Inspirado no Evangelho, convidou-os a serem “sal da terra e luz do mundo”. Para isso, explicou, é necessário interpretar a sociedade atual com sabedoria, para depois a transformar pelo testemunho. O jovem cristão, disse, é chamado a dar sabor à realidade “sem esperar que a riqueza, o prazer ou o poder lhe deem sabor”.

Perante a indiferença, o conformismo, a guerra e a mentira, deixou um apelo: “sede vós mesmos centelha duma nova humanidade”.

“Agora, quero confiar-vos a todos uma missão: que sejais humanos. Sim, sede humanos! Homens e mulheres de carne e osso. Não aparências, mas rostos fiáveis. Pessoas que procuram a justiça porque têm fome dela, como do pão de cada dia. Pessoas que desejam uma vida honesta e reta, porque fazem de bom grado aos outros o que gostariam que os outros lhes fizessem”, referiu.

A proposta culminou numa referência a Cristo como modelo da verdadeira humanidade e à caridade como força capaz de mudar a história. “Sede humanos como o é Cristo, o homem perfeito, o Ressuscitado que partilha conosco a história em todos os tempos. Cultivando este compromisso, olhai para os Apóstolos, para os primeiros cristãos, habitantes de um mundo pagão. Seguindo o seu exemplo, sede missionários do Evangelho perante as misérias materiais e espirituais do nosso tempo, sabendo bem que a nossa fé é um estilo de vida que se realiza na caridade (cf. Gal 5,6). Esta, queridos jovens, é a virtude que muda a história mais do que qualquer outra. Vós podeis mudar a história! Fazei-o com o amor! Muito obrigado”.