Núncio Apostólico destaca fé profunda dos madeirenses e desafia Igreja a transmitir a fé às novas gerações

Foto: Duarte Gomes

Durante a sua visita pastoral à Diocese do Funchal, o Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, esteve nos estúdios do Posto Emissor do Funchal onde, com a colaboração do Jornal da Madeira, explicou as razões da deslocação à diocese, partilhou as primeiras impressões sobre a Região, falou dos desafios da Igreja no mundo contemporâneo e refletiu sobre o papel da diplomacia da Santa Sé na promoção da paz.

Qual o motivo desta visita à Diocese do Funchal?

Há pouco mais de três meses cheguei a Portugal e entendo que a minha missão como representante do Papa passa, antes de mais, por conhecer a realidade concreta do país. Não posso ficar fechado num escritório a pensar que compreendo Portugal. Conhecer significa visitar, aproximar-me, escutar e perceber como vivem as pessoas e as comunidades.

Portugal tem 21 dioceses, incluindo as duas das regiões autónomas. Disse aos bispos, quando cheguei, que estava disponível para visitar as comunidades que desejassem encontrar-se com o representante do Santo Padre. O bispo do Funchal foi um dos primeiros a fazer o convite, por ocasião da Festa do Corpo de Deus, e agradeço-lhe muito por isso.

Não venho às dioceses para fazer turismo. Venho para conhecer realidades concretas, encontrar pessoas, comunidades e compreender os desafios e as esperanças que cada Igreja local vive.

Que ideia já construiu sobre a Madeira?

Em dois dias não se constrói uma visão completa, mas há coisas que impressionam imediatamente. Tenho 41 anos de vida diplomática em vários países e fiquei profundamente admirado com a paisagem desta ilha e com a capacidade dos madeirenses para construir comunidade num território tão exigente.

O senhor bispo contou-me uma frase muito curiosa: “Onde chega uma cabra, um ser humano constrói uma casa.” E isso traduz bem a determinação destas pessoas. Ao mesmo tempo, encontrei comunidades muito bonitas, visitei pequenas localidades, igrejas e obras sociais que mostram um trabalho extraordinário.

Fiquei particularmente impressionado com instituições ligadas à Igreja, como a Casa de Saúde São João de Deus, que tem um centro psiquiátrico declarado pela União Europeia de excelência. Isso é único em Portugal. E a obra social que está a ser feita na Ribeira Brava. São exemplos de um serviço notável prestado aos doentes, aos idosos e às famílias. Uma paróquia, tem um centro, com 250 empregados, dando atenção a idosos, a doentes de Alzheimer, atenção até nas casas, até na alimentação é um serviço tremendo. E isso não seria possível se não existisse uma colaboração entre igreja, poderes públicos, empresa privada, etc. O que quero dizer com isso?  Depois de conhecer o mundo por tantos anos, quando se encontra essas coisas, diz-se que esta é a laicidade positiva, como deve ser. Estado laico significa que o Estado não tem religião. É aconfessional. Mas a sociedade sim tem uma religião. A igreja serve a essa população do seu ponto de vista. Os poderes públicos, do seu ponto de vista, são independentes. Se dialogamos e colaboramos, quem ganha são as pessoas. Ao contrário, onde não há diálogo, não colaboramos, quem perde são as pessoas. Acho muito positivo essa capacidade de colaborar pelo serviço concreto dessas pessoas e dessas famílias que estão a sofrer, as famílias que têm uma pessoa doente de Alzheimer, é a família toda que afinal adoece. Estas pequenas coisas me dão ideias para ir compondo esta visão da madeira.

“O Estado é laico e não tem uma religião oficial, mas a sociedade tem valores, tradições e comunidades religiosas que prestam um serviço importante”. 

E revelam aquilo que eu chamo uma laicidade positiva. O Estado é laico e não tem uma religião oficial, mas a sociedade tem valores, tradições e comunidades religiosas que prestam um serviço importante.

Quando a Igreja e as instituições públicas colaboram, cada uma respeitando a sua autonomia, conseguem responder melhor às necessidades das pessoas. Quando não há diálogo, quem sofre são os cidadãos, especialmente os mais frágeis.

Vejo isso de forma muito positiva porque encontrei aqui uma capacidade de colaboração que beneficia concretamente famílias que vivem situações difíceis, como a doença, a dependência ou a solidão.

Foto: Duarte Gomes

Ontem presidiu à celebração do Corpo de Deus. Qual a importância destas manifestações públicas de fé?

A Eucaristia é, por si mesma, um mistério profundamente pessoal. É um encontro íntimo entre cada pessoa e Jesus Cristo. Mas a Festa do Corpo de Deus existe porque a Igreja sente a necessidade de levar este mistério para as ruas.

Quando o Santíssimo Sacramento passa pelas nossas localidades, pelas nossas casas e pelas nossas famílias, estamos a colocar a presença de Cristo no coração da sociedade. Podemos apresentar-lhe as nossas alegrias, os nossos sofrimentos, os doentes, os problemas e as preocupações.

O risco é que estas celebrações se transformem apenas em acontecimentos folclóricos ou turísticos. Temos a responsabilidade de viver aquilo que celebramos. Não pode ser apenas uma encenação bonita ou um espetáculo. É um ato de fé e uma expressão da nossa confiança em Deus.

Quais são hoje os principais desafios da Igreja no diálogo com a sociedade contemporânea?

Vivemos num tempo de grandes transformações e algumas delas vieram para ficar, como a inteligência artificial. O Santo Padre conhece bem esta realidade. Antes de iniciar os estudos eclesiásticos teve formação em matemática, o que lhe permite compreender os mecanismos tecnológicos e os desafios que surgem.

A inteligência artificial traz oportunidades extraordinárias, mas também riscos que não podem ser ignorados. Quando determinadas tecnologias ficam concentradas nas mãos dos mais poderosos, existe o perigo de manipulação das consciências.

Hoje, os algoritmos conseguem influenciar aquilo que vemos, pensamos e consumimos. Há empresas com recursos superiores aos de muitos Estados. Por isso, o Papa insiste que a pessoa humana deve permanecer no centro de tudo.

“Devemos acolher os aspetos positivos da tecnologia, mas sem perder de vista a dignidade humana e a liberdade das pessoas”.

Que papel pode desempenhar a Igreja num mundo marcado por guerras e instabilidade?

O Santo Padre é uma das poucas vozes verdadeiramente livres que existem atualmente. Fala sem interesses políticos, sem procurar vantagens e sem medo.

A sua preocupação é defender a pessoa humana, a paz e os mais vulneráveis. Num mundo onde tantas vezes prevalecem interesses económicos ou estratégicos, o Papa recorda valores fundamentais que pertencem a toda a humanidade.

Por vezes tenho a sensação de que as pessoas não estão a escutar suficientemente aquilo que ele diz. Quando cheguei a Portugal disse a vários jornalistas que o Papa estava a transmitir mensagens muito importantes, mas que nem sempre eram ouvidas porque ele não grita.

No entanto, continua a falar com serenidade e coragem, defendendo a paz e apelando à responsabilidade de todos.

“Houve ocasiões em que fui detido por homens armados, mas nunca desisti de conversar, eu e mais alguns agentes. Aos poucos foi sendo construída confiança e conseguiu-se criar condições para que aquele movimento abandonasse a luta armada e aceitasse participar na vida democrática”.

A diplomacia da Santa Sé continua a ter relevância internacional?

Sem dúvida. Mas muitas vezes trata-se de um trabalho discreto, longe dos holofotes.

Recordo a minha experiência na República Democrática do Congo. Quando cheguei, o país tinha saído de três guerras civis em apenas dez anos. Havia ainda uma guerrilha ativa e procurei estabelecer diálogo com os seus líderes.

Foi um processo difícil e perigoso. Houve ocasiões em que fui detido por homens armados, mas nunca desisti de conversar, eu e mais alguns agentes. Aos poucos foi sendo construída confiança e conseguiu-se criar condições para que aquele movimento abandonasse a luta armada e aceitasse participar na vida democrática.

Esse trabalho não apareceu nos noticiários, mas contribuiu para a paz. A diplomacia da Santa Sé muitas vezes funciona assim: sem procurar protagonismo, mas procurando resultados concretos para o bem das populações.

“A Madeira deixou-me uma impressão muito positiva: pela fé do seu povo, pela capacidade de serviço e pela colaboração entre Igreja e sociedade em favor das pessoas”.

Que mensagem gostaria de deixar aos madeirenses?

Encontrei na Madeira uma Igreja com uma fé profunda e uma grande capacidade de serviço. É uma terra que deu muito à Igreja em Portugal e ao mundo, através de bispos, sacerdotes, religiosos e leigos comprometidos.

Mas hoje enfrentamos um desafio muito importante: transmitir a fé às novas gerações, temos que transmitir a fé a experiência de Deus, às novas gerações.

Vivemos numa sociedade em rápida transformação, onde por vezes parece existir uma distância crescente entre gerações. Nem sempre é fácil comunicar com os mais jovens, mas não podemos desistir.

A fé transmite-se sobretudo através da experiência. Ninguém pode dar aquilo que não possui. Se não tivermos uma experiência pessoal de Deus, será difícil transmiti-la aos outros.

Os jovens vivem de forma diferente das gerações anteriores e devemos compreender isso. O essencial é ajudá-los a descobrir Deus e a encontrar sentido para as suas vidas, mesmo que utilizem linguagens e formas diferentes das nossas.

Essa é, talvez, uma das grandes missões da Igreja nos nossos dias. E estou muito feliz por poder encontrar aqui comunidades que continuam empenhadas nesse caminho.

Aliás, posso dizer que estou muito feliz com os encontros que tive aqui na Madeira. Como já disse visitei comunidades, instituições, obras sociais e encontrei pessoas muito acolhedoras.

Em pouco mais de três meses em Portugal já estive em várias dioceses do continente e dos Açores, e continuo a procurar conhecer as diferentes realidades do país. Cada lugar tem a sua história e a sua identidade própria.

A Madeira deixou-me uma impressão muito positiva: pela fé do seu povo, pela capacidade de serviço e pela colaboração entre Igreja e sociedade em favor das pessoas.

O grande desafio, agora e no futuro, é continuar a transmitir essa riqueza espiritual às novas gerações.