Núncio Apostólico desafia consagrados a viverem uma fé coerente e perseverante

Foto: Duarte Gomes

O Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, presidiu no dia 5 de junho a uma Eucaristia na Sé do Funchal, seguindo-se um encontro com os religiosos e religiosas da Diocese que estiveram presentes na Missa. 

Na homilia da celebração, o representante do Papa destacou a importância de escutar verdadeiramente a Palavra de Deus, de perseverar na fé perante as dificuldades e de viver com coerência o compromisso assumido no Batismo.

Dirigindo-se aos presentes, D. Andrés Carrascosa começou por agradecer o acolhimento recebido durante a sua visita pastoral à Diocese do Funchal, sublinhando a alegria de poder encontrar-se com as diferentes realidades da Igreja diocesana. O Núncio manifestou também gratidão ao bispo do Funchal pelo convite que lhe foi dirigido logo após a sua chegada a Portugal, considerando que estes dias permitiram uma “bela experiência de encontro com a comunidade diocesana a diversos níveis”.

Tomando como ponto de partida a leitura da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo, o Núncio alertou para o risco de os cristãos escutarem frequentemente a Palavra de Deus sem permitirem que esta transforme a sua vida. “Quando entramos por essa porta para uma missa, temos que entrar com esta atitude: ‘O que Deus quer dizer-me hoje?’”, questionou, lamentando que muitas vezes os fiéis regressem a casa sem conseguirem identificar aquilo que o Senhor lhes quis comunicar.

Segundo referiu, um dos maiores desafios da vida espiritual consiste precisamente em escutar Deus para além da rotina e dos gestos habituais. “Por vezes ficamos no superficial e perdemos a ideia de que Deus nos está a falar”, afirmou, recordando que cada leitura proclamada na liturgia é uma palavra dirigida pessoalmente a cada crente.

O prelado observou ainda que não basta ouvir a Palavra de Deus; é necessário acolhê-la e permitir que produza frutos concretos. “Passa tanta Palavra de Deus pela nossa boca e, no fim do dia, não tocou o nosso coração”, lamentou, acrescentando que a Escritura é fonte da “verdadeira sabedoria para a vida” e um instrumento indispensável para discernir o caminho que Deus propõe a cada pessoa.

A partir do exemplo de São Paulo e do seu discípulo Timóteo, D. Andrés Carrascosa destacou a importância da perseverança na caminhada cristã. Recordando as dificuldades enfrentadas pelo Apóstolo dos Gentios, salientou que a sua confiança permanecia inabalável porque sabia que Deus nunca o abandonava. “De todas essas penalidades e dificuldades, o Senhor me livrou”, citou, apontando esta certeza como uma fonte de esperança para os cristãos de todos os tempos.

O Núncio lembrou que a vida cristã não está isenta de sofrimentos, rejeições ou incompreensões. Pelo contrário, observou que o próprio São Paulo advertia que quem deseja viver seriamente a sua fé encontrará inevitavelmente obstáculos pelo caminho. “Também nós experimentamos mais do que uma vez as dificuldades da vida para viver como cristãos neste mundo”, afirmou.

Perante essa realidade, convidou os presentes a não desanimarem nem a cederem ao comodismo espiritual. “Que nunca percamos a confiança em Deus. Que não nos acomodemos perante as provações ou a rejeição das pessoas. Que permaneçamos naquilo que aprendemos e nos foi confiado”, exortou.

Dirigindo-se de modo particular aos religiosos e religiosas presentes, D. Andrés Carrascosa destacou o valor da fidelidade quotidiana, lembrando que a vocação se constrói através de uma resposta renovada todos os dias. “É fácil emocionar-se e dizer sim a Deus por um dia. O complicado é a perseverança. A fidelidade de uma vida não é simples”, afirmou.

O representante da Santa Sé reconheceu que o percurso da vida traz circunstâncias inesperadas e momentos de provação, mas insistiu que a confiança em Deus deve permanecer firme. “Sabemos em quem pusemos a nossa confiança”, recordou, retomando uma das expressões mais conhecidas de São Paulo.

Numa passagem particularmente incisiva da homilia, o Núncio recordou que seguir Cristo implica aceitar a cruz e assumir as exigências do Evangelho sem procurar atalhos. “Quem quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”, citou, acrescentando depois uma frase que marcou a sua reflexão: “Isso está no contrato que assinámos todos no dia do nosso Batismo”.

A Eucaristia e a Palavra de Deus foram apresentadas como o alimento indispensável para sustentar essa caminhada. “A comunhão eucarística é a nossa luz e a nossa força diária para esse caminho quotidiano de cada dia”, afirmou, explicando que é na proximidade com Cristo que os cristãos encontram a energia espiritual necessária para enfrentar os desafios da missão.

Segundo referiu, a Palavra de Deus continua a ser uma fonte inesgotável de renovação interior. “Ela pode dar-nos a sabedoria que conduz a essa vida que Deus quer de nós”, afirmou, acrescentando que a Escritura serve “para ensinar, para corrigir, para educar na virtude e para crescermos cada dia na vida da fé”.

Comentando depois o Evangelho proclamado na celebração, D. Andrés Carrascosa centrou a sua reflexão na identidade de Jesus e na resposta que cada cristão é chamado a dar. Recordando a pergunta colocada por Cristo aos seus interlocutores, observou que a questão fundamental permanece atual: “Quem é Jesus para mim?”.

“Jesus é o Senhor, é o Filho de Deus. Sim. Mas isso é verdade na sua vida? Na minha vida?”, interrogou. Para o Núncio, a profissão de fé só ganha sentido quando se traduz em escolhas concretas e numa verdadeira adesão ao projeto de Cristo.

“Jesus é o Senhor da minha vida? Chamar-lhe Senhor não é brincadeira. É uma coisa séria”, afirmou, desafiando os presentes a examinarem a coerência entre aquilo que professam e aquilo que vivem.

O representante do Papa advertiu ainda para o risco de uma fé apenas teórica, incapaz de influenciar as decisões do dia a dia. “Quantas vezes tomamos decisões com base em critérios que não têm nada a ver com o Evangelho de Jesus Cristo?”, questionou. E acrescentou que, por vezes, surge uma profunda contradição interior quando os cristãos afirmam querer seguir Jesus, mas acabam por orientar a sua vida segundo critérios opostos aos do Evangelho.

“Por vezes saímos da porta da igreja e comportamo-nos como inimigos da Cruz de Cristo”, alertou, apontando a coerência de vida como um dos maiores desafios da evangelização contemporânea.

Para D. Andrés Carrascosa, a fé cristã não consiste apenas em conhecer doutrinas ou verdades abstratas, mas sobretudo em configurar a própria existência com a de Cristo. “Não apenas em conhecer coisas teóricas sobre Ele, mas em segui-lo, em fazer nossos os valores que Jesus aprecia, em imitar as suas grandes atitudes de vida”, explicou.

Entre essas atitudes destacou o amor filial de Cristo ao Pai, a sua confiança absoluta em Deus, a liberdade interior, a entrega generosa aos outros e a esperança que depositava nas pessoas. São estas características, observou, que devem moldar a vida dos discípulos de hoje.

Na conclusão da homilia, o Núncio Apostólico convidou toda a assembleia a renovar o seu “sim” ao Senhor e confiou a Deus as intenções de cada participante. “Vou pedir a Nosso Senhor que ajude cada pessoa que está aqui e lhe conceda a graça de que mais necessita neste momento”, afirmou.

Terminou pedindo que cada fiel tenha a coragem de responder aos apelos de Deus com generosidade e fidelidade: “Que também nós, como comunidade cristã, sejamos capazes de dar o nosso sim a Deus que Ele hoje nos está a pedir”, desejando que cada pessoa possa corresponder à vontade do Senhor com confiança, perseverança e alegria.