De visita à Madeira: Núncio Apostólico pede cristãos “sem medo de testemunhar Cristo”

Foto: Duarte Gomes

“Não podemos ser cobardes na vivência da nossa fé cristã.” O desafio foi lançado por D. Andrés Carrascosa Coso, Núncio Apostólico em Portugal, durante a homilia da Eucaristia que presidiu esta quarta-feira no Convento da Caldeira, em Câmara de Lobos, integrada na visita que está a realizar à Diocese do Funchal.

Partindo da leitura da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo, o representante da Santa Sé centrou a sua reflexão na coragem necessária para viver e testemunhar a fé cristã no mundo atual, destacando a figura do Apóstolo Paulo como exemplo de fidelidade e perseverança.

“Ouvimos hoje um texto que faz parte do testamento espiritual de São Paulo. É um homem que escreve da prisão, cansado, mas não derrotado. Um homem abandonado por muitos, mas que continua cheio da energia que vem de Deus”, afirmou.

D. Andrés Carrascosa Coso recordou que Paulo, já próximo do martírio, dirige-se ao seu discípulo Timóteo para o encorajar na missão, deixando-lhe recomendações que continuam atuais para todos os cristãos.

“São Paulo diz a Timóteo: reaviva o dom da graça que recebeste. Não sejas cobarde, mas atua com energia, com amor e com bom juízo. Não tenhas medo de dar a cara. Toma parte nos duros trabalhos do Evangelho. Este é um programa vigoroso para todos nós.”

Segundo o arcebispo espanhol, estas palavras não se dirigem apenas aos sacerdotes ou aos consagrados, mas a todos os batizados.

“Todo o cristão é testemunha de Cristo vivo no meio do mundo. Todos somos chamados a evangelizar. Todos somos chamados a anunciar uma boa notícia aos outros no meio da nossa sociedade.”

Fé é dom demasiado grande

Ao longo da homilia, o núncio insistiu várias vezes na necessidade de os cristãos assumirem a sua identidade sem receios nem complexos.

“Não podemos ser cobardes na vivência da nossa fé cristã. Não podemos esconder aquilo que recebemos de Deus. A fé é um dom demasiado grande para ficar fechado dentro de nós”, vincou.

Reconhecendo, ainda assim, que nem sempre é fácil testemunhar Cristo no contexto atual, observou que muitas vezes os cristãos são tentados a permanecer em silêncio. “Às vezes é mais fácil não falar. Às vezes é mais fácil adaptar-nos ao ambiente e passar despercebidos. Mas o Evangelho pede-nos coragem”, vincou

Contudo, acrescentou, o verdadeiro testemunho não se reduz às palavras: “Por vezes é mais fácil falar do que deixar que seja a vida a dar testemunho daquilo em que acreditamos. Há momentos em que a boca se enche de palavras, mas a coerência da vida não acompanha aquilo que dizemos.”

Menos discursos mais testemunhas

“O mundo precisa menos de discursos e mais de testemunhas. Precisa de homens e mulheres cuja vida mostre que vale a pena acreditar em Cristo”, frisou o representante da Santa Sé em Portugal.

O representante do Papa sublinhou ainda que o testemunho cristão nasce da confiança em Deus e não das capacidades humanas.

“São Paulo estava preso, estava sozinho, estava à espera de um julgamento que acabaria no seu martírio. Humanamente tinha razões para desistir. Mas não desistiu porque sabia em quem tinha colocado a sua confiança.”

Inspirado nesta passagem bíblica, convidou os fiéis a interrogarem-se sobre o fundamento da própria vida: “gostaria que cada um de nós saísse desta Eucaristia repetindo as palavras do Apóstolo: sei em quem pus a minha confiança.”

“Quantas vezes colocamos a nossa confiança em coisas que passam, em seguranças que desaparecem, em projetos que podem falhar. Mas Deus não falha”. E por isso mesmo “podemos confiar n’Ele. Podemos entregar-Lhe a nossa vida. Podemos apoiar-nos n’Ele porque Deus não trai. Deus nunca abandona aqueles que colocam n’Ele a sua esperança.”

Palavra de Deus não é arqueologia

Na segunda parte da homilia, comentando o Evangelho proclamado, D. Andrés Carrascosa Coso destacou a resposta de Jesus aos saduceus, que procuravam ridicularizar a fé na ressurreição.

“O Evangelho apresenta-nos pessoas que fazem perguntas não porque procuram a verdade, mas porque querem desacreditar Jesus. É uma atitude que continua a existir também nos nossos dias.”

Segundo explicou, Cristo responde reafirmando uma verdade fundamental da fé cristã.

“Deus não é um Deus de mortos. É um Deus de vivos”, vincou para logo sublinhar que “Esta é uma das afirmações mais belas e mais consoladoras de toda a Escritura. Deus destina-nos à vida e não à morte.”

O Núncio Apostólico recordou que a morte continua a ser um mistério para todos os seres humanos, mas encontra sentido à luz da ressurreição de Cristo.

“A morte não é o nosso destino. O nosso destino é a vida. Estamos destinados à plenitude da vida. Estamos destinados a viver para sempre com Deus” sublinhou.

Evocando as palavras de Jesus no Evangelho de São João, acrescentou:

“Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem acredita em Mim não morrerá para sempre. Esta promessa continua a sustentar a esperança dos cristãos ao longo dos séculos.”

D. Andrés Carrascosa Coso referiu ainda que a fé na vida eterna não afasta os cristãos da realidade presente, mas dá-lhes uma nova forma de olhar para ela.

“Quando sabemos que fomos criados para a vida eterna, aprendemos a viver de outra maneira. Relativizamos muitas preocupações e descobrimos aquilo que verdadeiramente importa.”

“O cristão sabe que a sua história não termina no túmulo. Sabe que Deus o chama à comunhão plena consigo.”

O Núncio Apostólico estabeleceu também uma ligação entre a Eucaristia e a promessa da vida eterna, referindo que “a Eucaristia é já um antegosto dessa vida nova. É comunhão com Cristo ressuscitado; quem participa na Eucaristia encontra a força para continuar o caminho e recebe a garantia da vida que Deus prometeu aos seus filhos”, disse.

“A vida daqueles que acreditam em Deus não termina; transforma-se. Esta é a esperança que sustenta a Igreja em todos os tempos.”

Concluindo a homilia, convidou os presentes a acolherem a Palavra de Deus como uma realidade viva e transformadora.

“A Palavra de Deus não é arqueologia. Não é apenas uma recordação do passado. É uma palavra viva que Deus dirige hoje ao seu povo; é uma palavra eficaz, que entra no coração humano e o transforma.”

“Peçamos ao Senhor que nos dê ouvidos atentos para escutar esta boa notícia e coragem para a viver todos os dias.”

Antes da Eucaristia, D. Andrés Carrascosa Coso visitou o Mosteiro de Santo António no Lombo dos Aguiares, onde viveu a Madre Vrgínia, aliás conforme disse visitar mosteiros de clausura tem sido um dos seus propósitos, e a Casa de Saúde São João de Deus, onde contactou com religiosos, profissionais e utentes.

Durante a visita àquela instituição, de que gostou particularmente, uma vez que esteve quase a entrar para a Ordem em vez de ser sacerdote diocesano, destacou a importância do cuidado prestado aos mais frágeis, considerando que “cuidar dos doentes é tocar a carne de Cristo sofredor” e que “uma sociedade mede-se pela forma como trata os mais frágeis”.

“O amor torna-se credível quando se transforma em gestos concretos. As obras de misericórdia não são uma teoria; são a expressão viva do Evangelho”, afirmou.

Da parte da tarde, o Núncio Apostólico deslocou-se ao Centro Social e Paroquial da Ribeira Brava, onde conheceu o trabalho social e pastoral desenvolvido junto da população, nas mais diversas valências, mas em particular no lar e na unidade de alzheimer e visitou a igreja local.

Presidir ao Corpo de Cristo

A visita pastoral prossegue esta quinta-feira, 4 de junho, com um dos momentos centrais da agenda, a presidência da Solenidade do Corpo de Deus. A celebração terá início às 18 horas, no Largo do Colégio, seguindo-se a tradicional procissão até à Sé do Funchal.

Antes disso o Núncio Apostólico irá visitar a Matriz de Machico e também a Capela dos Milagres, o que acontecerá pelas 12 horas.

No dia 5 de junho, D. Andrés Carrascosa Coso presidirá à Eucaristia na Sé do Funchal, seguindo-se um encontro com os religiosos e religiosas da Diocese. A visita termina no dia 6 de junho com a participação na reunião do Conselho Diocesano de Pastoral, na Cúria Diocesana.

A deslocação do Núncio Apostólico à Madeira constitui um momento de proximidade entre a Santa Sé e a Igreja local, permitindo o contacto direto com diversas realidades pastorais, sociais e religiosas da Diocese do Funchal e reforçando os laços de comunhão com o Papa e a Igreja universal.