Eucaristia – “fonte e ápice da vida e da missão da Igreja”
«A festa do Corpus Christi convida-nos todos os anos a renovar o enlevo e a alegria por esta maravilhosa dádiva do Senhor, que é a Eucaristia», recordou-nos o Papa Francisco durante o Angelus, na Praça de S. Pedro, no Domingo, 23 de Junho de 2019. Celebramos, portanto, com alegria esta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, logo após a celebração da solenidade da Santíssima Trindade. Desta sequência emerge a Eucaristia como «dom gratuito da Santíssima Trindade», como o Papa Bento XVI escreveu na sua Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis precisamente “sobre a eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da Igreja”, tal como expresso no título da exortação. Convido todos a relerem este belo documento para uma devida revisão e aprofundamento do mistério eucarístico (talvez consultando também o Catecismo da Igreja Católica a este respeito). Aqui, poderíamos deter-nos sobre três aspectos interessantes numa perspectiva missionária.
1. «Eu sou o pão vivo que desceu do céu». O pão “completo” oferecido por Jesus
Esta declaração de Jesus («Eu sou o pão vivo que desceu do céu») faz parte do seu longo discurso após a multiplicação dos pães. Deve ser lembrado que a multiplicação do pão é enquadrada no contexto da incansável missão de Jesus em favor do Reino de Deus. Tudo começa com a bela acção de acolhimento, um sinal de amor sem limites, ao ponto de Se esquecer de Si próprio para servir os outros (cf. Lc 9,10-11). Tanto é assim que a passagem paralela no Evangelho de Marcos explicita que, Jesus, «ao sair, viu uma numerosa multidão e compadeceu-Se profundamente deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas» (Mc 6, 34).
Além disso, como é sublinhado no relato lucano, antes de alimentar o povo com pão, Jesus ensinou-lhes as coisas de Deus até ao declinar do dia! Deste modo, naquele dia memorável, o pão que Ele partilhou com a multidão não era apenas o pão material de cevada ou de trigo, mas também e sobretudo o pão da Palavra de Deus. Jesus cuidou de modo “completo” do povo, dando-Se a Si próprio na missão.
O mesmo acontece com o “pão eucarístico” que Jesus oferece com a instituição da Eucaristia, quando chegou a sua “hora”. Será o pão do Seu corpo e o sangue da Sua carne «pela vida do mundo» (Jo 6, 51), mas ao mesmo tempo será também o pão do ensinamento d’Ele, a Palavra de Deus, que tem «palavras de vida eterna», como se vislumbra no longo Discurso Eucarístico de Jesus, após a multiplicação do pão no Evangelho de João (cf. Jo 6, 26-58. 68). Este é o pão “completo” que Jesus amavelmente oferece para a salvação do mundo.
A este respeito, é indicativa a reflexão do Papa Bento XVI:
Na Eucaristia, Jesus não dá «alguma coisa», mas dá-Se a Si mesmo; entrega o Seu corpo e derrama o Seu sangue. Deste modo dá a totalidade da Sua própria vida, manifestando a fonte originária deste amor: Ele é o Filho eterno que o Pai entregou por nós. Noutro passo do evangelho, depois de Jesus ter saciado a multidão pela multiplicação dos pães e dos peixes, ouvimo-l’O dizer aos interlocutores que vieram atrás d’Ele até à sinagoga de Cafarnaum: «Meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do céu. O pão de Deus é o que desce do céu para dar a vida ao mundo» (Jo 6, 32-33), acabando por identificar-Se Ele mesmo – a Sua própria carne e o Seu próprio sangue – com aquele pão: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne que Eu darei pela vida do mundo» (Jo 6, 51). Assim Jesus manifesta-Se como o pão da vida que o Pai eterno dá aos homens (Sacramentum Caritatis 7).
2. O Pão de Jesus e a missão da comunidade dos crentes
Voltando ao relato evangélico da multiplicação do pão, notamos que a missão de Jesus foi uma missão partilhada com os apóstolos. Eles, que já colaboravam com Jesus na proclamação do Reino e no cuidado dos doentes, seriam também chamados a cooperar com Ele no milagre do pão no final do dia. Com efeito, quando quiseram mandar embora a multidão para ir “procurar alimento”, «Jesus disse-lhes: “Dai-lhes vós de comer.”» Além disso, os apóstolos são convidados a mandar sentar o povo “em grupos de cinquenta”, organizando-os tal como no momento da viagem do Povo de Deus no deserto (cf. Ex 18, 21. 25). Ainda mais importante, é que são precisamente os discípulos que receberão de Jesus os pães e os peixes para os distribuirem pela multidão: «Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou sobre eles a bênção. [literalmente, “abençoou-os”]. Depois partiu-os e deu-os aos discípulos, para eles os distribuírem pela multidão» (Lc 9, 16). Por fim, na menção de que «ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram», pode-se intuir que terão sido estes discípulos a recolhê-los (como explicitado no Evangelho de João [cf. Jo 6, 12-13]).
Como na multiplicação do pão, Jesus envolveu os Seus discípulos, o mesmo aconteceu no Mistério Eucarístico com a ordem explícita: «Fazei isto em memória de Mim.» Aliás, esta recomendação é repetida duas vezes no relato de São Paulo sobre a instituição da Eucaristia, depois das palavras sobre o pão e das palavras sobre o vinho. Deste modo, São Paulo concluiu o seu relato conciso com uma observação valiosa sobre a dimensão da proclamação de Cristo que anda de mãos dadas com a participação na Eucaristia: «Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).
E eis uma bela reflexão de Bento XVI precisamente sobre a Eucaristia e a missão da comunidade dos fiéis:
Com efeito, não podemos reservar para nós o amor que celebramos neste sacramento [da Eucaristia]: por sua natureza, pede para ser comunicado a todos. Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de encontrar Cristo e acreditar n’Ele. Por isso, a Eucaristia é fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: «Uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária.» Havemos, também nós, de poder dizer com convicção aos nossos irmãos: «Nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos, para que estejais também em comunhão connosco» (1 Jo 1, 2-3). Verdadeiramente não há nada de mais belo do que encontrar e comunicar Cristo a todos! Aliás, a própria instituição da Eucaristia antecipa aquilo que constitui o cerne da missão de Jesus: Ele é o enviado do Pai para a redenção do mundo (Jo 3, 16-17; Rm 8, 32). Na Última Ceia, Jesus entrega aos Seus discípulos o sacramento que actualiza o sacrifício que Ele, em obediência ao Pai, fez de Si mesmo pela salvação de todos nós. Não podemos abeirar-nos da mesa eucarística sem nos deixarmos arrastar pelo movimento da missão que, partindo do próprio Coração de Deus, visa atingir todos os homens; assim, a tensão missionária é parte constitutiva da forma eucarística da existência cristã (Sacramentum Caritatis 84).
3. «Ite, missa est». Vá levar Cristo a todos!
Tendo em conta as palavras de São Paulo aos Coríntios na segunda leitura, vale a pena recordar o importante esclarecimento do Papa sobre a natureza da proclamação cristã que parte da participação no Mistério Eucarístico:
Sublinhar a ligação intrínseca entre Eucaristia e missão faz-nos descobrir também o conteúdo supremo do nosso anúncio. Quanto mais vivo for o amor pela Eucaristia no coração do povo cristão, tanto mais clara lhe será a incumbência da missão: levar Cristo; não meramente uma ideia ou uma ética n’Ele inspirada, mas o dom da Sua própria Pessoa. Quem não comunica a verdade do Amor ao irmão, ainda não deu bastante. A Eucaristia enquanto sacramento da nossa salvação chama-nos assim, inevitavelmente, à unicidade de Cristo e da salvação por Ele realizada a preço do Seu sangue. Por isso, do mistério eucarístico acreditado e celebrado nasce a exigência de educar constantemente a todos para o trabalho missionário, cujo centro é o anúncio de Jesus, único Salvador. Isto impedirá de confinar, em chave meramente sociológica, a obra decisiva de promoção humana que todo o processo de evangelização autêntico sempre implica (Sacramentum Caritatis 86).
Por fim, será também útil para nós uma outra reflexão do Pontífice no mesmo documento sobre a saudação de despedida no final da celebração eucarística:
Depois da bênção, o diácono ou o sacerdote despede o povo com as palavras «Ide em paz e o Senhor vos acompanhe», tradução aproximada da fórmula latina: Ite, missa est. Nesta saudação, podemos identificar a relação entre a Missa celebrada e a missão cristã no mundo. Na antiguidade, o termo «missa» significava simplesmente «despedida»; mas, no uso cristão, o mesmo foi ganhando um sentido cada vez mais profundo, tendo o termo «despedir» evoluído para «expedir em missão». Deste modo, a referida saudação exprime sinteticamente a natureza missionária da Igreja (Sacramentum Caritatis 51).
Rezemos, pois, em conclusão, para que, tal como o Papa Bento XVI o expressou, «Por intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, o Espírito Santo acenda em nós o mesmo ardor que experimentaram os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) e renove na nossa vida o enlevo eucarístico pelo esplendor e a beleza que refulgem no rito litúrgico, sinal eficaz da própria beleza infinita do mistério santo de Deus» (Sacramentum Caritatis 97). Rezemos para que todos nós possamos acolher sempre com alegria e gratidão o dom do Pão “completo” que Jesus nos oferece em cada Celebração Eucarística, o Pão da Sua Palavra e do Seu Corpo e Sangue, a fim de o partilharmos com os outros na nossa vida, proclamando a morte e ressurreição do Senhor, «até que Ele venha».
Citações úteis:
Papa Leão XIV, Viagem Apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial (13 – 23 de abril de 2026), Santa Missa, Homilia, Estádio de Malabo, Quinta-feira, 23 de abril de 2026
[…] Como afirma Cristo: «Só aquele que vem de Deus viu o Pai» (cf. Jo 6, 46). No Filho, o próprio Pai manifesta a sua glória: Deus deixa-se ver, ouvir e tocar. Através dos gestos de Jesus, o Redentor, Ele dá plenitude ao que sempre fez: dar vida. Ele cria o mundo, salva-o e ama-o para sempre. Aos que o escutam, Jesus recorda um sinal desta constante providência: «Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram» (v. 49). Refere-se desta forma à experiência do Êxodo: um caminho de libertação da escravidão, que se tornou, porém, uma errância extenuante, com duração de quarenta anos, porque o povo não acreditou na promessa do Senhor, chegando mesmo a sentir saudades do Egito (cf. Ex 16, 3). Sob o jugo do Faraó, realmente, o povo comia os frutos da terra; Deus, pelo contrário, condu-los ao deserto, onde o pão só pode vir da sua providência. O maná é, portanto, uma prova, uma bênção e uma promessa, que Jesus vem realizar. A esse antigo sinal sucede agora o sacramento da Aliança nova e eterna: a Eucaristia, pão consagrado por Aquele que desceu do céu para se tornar o nosso alimento. Se aqueles que comeram o maná «morreram» (Jo 6, 49), quem come este pão vive para sempre (cf. v. 51), porque Cristo está vivo! Ele é o Ressuscitado e continua a dar a sua vida por nós.
Através do êxodo definitivo que é a Páscoa de Jesus, todos os povos são libertados da escravidão do mal. Enquanto celebramos este acontecimento de salvação, o Senhor chama-nos a uma escolha decisiva: «Aquele que crê tem a vida eterna» (v. 47). Em Jesus, é-nos dada uma possibilidade surpreendente: Deus entrega-se por nós. Creio que o seu amor é mais forte do que a minha morte? Ao decidir acreditar n’Ele, cada um de nós escolhe entre um desespero certo e uma esperança que Deus torna possível. Assim, a nossa fome de vida e justiça encontra saciedade na palavra de Jesus: «O pão que Eu hei de dar pela vida do mundo é a minha carne» (v. 51).
Obrigado, Senhor! Nós vos louvamos e vos bendizemos, porque quisestes tornar-vos para nós Eucaristia, pão da vida eterna, para que pudéssemos viver para sempre. […]
Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2023, 22 de Outubro de 2023,
Corações ardentes, pés ao caminho (cf. Lc 24, 13-15)
2. Olhos que «se abriram e O reconheceram» ao partir o pão. Jesus na Eucaristia é ápice e fonte da missão.
Os corações ardentes pela Palavra de Deus impeliram os discípulos de Emaús a pedir ao misterioso Viandante que ficasse com eles ao cair da noite. E, encontrando-se ao redor da mesa, os seus olhos abriram-se e reconheceram-No, quando Ele partiu o pão. O elemento decisivo que abre os olhos dos discípulos é a sequência de ações efetuadas por Jesus: tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-lho. São gestos comuns de qualquer chefe de família judia, mas, realizados por Jesus Cristo com a graça do Espírito Santo, renovam para os dois comensais o sinal da multiplicação dos pães e sobretudo da Eucaristia, o sacramento do Sacrifício da cruz. Mas, precisamente no momento em que reconhecem Jesus n’Aquele-que-parte-o-pão, «Ele desapareceu da sua presença» (Lc 24, 31). Este facto faz compreender uma realidade essencial da nossa fé: Cristo que parte o pão, torna-Se agora o Pão partido, partilhado com os discípulos e depois consumido por eles. Tornou-Se invisível, porque agora entrou dentro do coração dos discípulos para fazê-los arder ainda mais, impelindo-os a retomar sem demora o seu caminho para comunicar a todos a experiência única do encontro com o Ressuscitado! Assim, Cristo ressuscitado é Aquele-que-parte-o-pão e, simultaneamente, o Pão-partido-para-nós. E, por conseguinte, cada discípulo missionário é chamado a tornar-se, como Jesus e n’Ele, graças à ação do Espírito Santo, aquele-que-parte-o-pão e aquele-que-é-pão-partido para o mundo.
A propósito, é preciso ter presente que, se o simples repartir o pão material com os famintos em nome de Cristo já é um acto cristão missionário, quanto mais o será o repartir o Pão eucarístico, que é o próprio Cristo? Trata-se da ação missionária por excelência, porque a Eucaristia é fonte e ápice da vida e missão da Igreja.
[…]
Para dar fruto, devemos permanecer unidos a Ele (cf. Jo 15, 4-9). E esta união realiza-se através da oração quotidiana, particularmente na adoração, no permanecer em silêncio diante do Senhor, que está connosco na Eucaristia. Cultivando amorosamente esta comunhão com Cristo, o discípulo missionário pode tornar-se um místico em acção. Que o nosso coração anele sempre pela companhia de Jesus, suspirando conforme o ardente pedido dos dois de Emaús, sobretudo ao entardecer: «Fica connosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29).



















