O bispo do Funchal presidiu este domingo, 31 de maio, à Festa de Nossa Senhora Rainha do Mundo, celebrada no Curral dos Romeiros, numa jornada marcada pela devoção mariana, pela solenidade da Santíssima Trindade e por um forte apelo à conversão e à presença de Deus na vida quotidiana dos cristãos.
A celebração reuniu numerosos fiéis e diversas entidades civis, nomeadamente o presidente da Câmara do Funchal e o presidente da Junta de Freguesia do Monte. No início da Eucaristia, o Pe. Fernando Gonçalves, agradeceu a presença do bispo do Funchal, e deu as boas-vindas aos participantes, lembrando a importância de Nossa Senhora Rainha do Mundo para a comunidade do Curral dos Romeiros, de quem é padroeira.
Já D. Nuno Brás, na saudação inicial, enquadrou a celebração na solenidade da Santíssima Trindade, destacando Deus como comunhão de amor, “Pai, Filho e Espírito Santo”, e apresentando Maria como aquela que mostra ao mundo o rosto desse amor concretizado em Jesus Cristo.
A homilia centrou-se depois numa questão que o prelado foi repetindo ao longo da reflexão e que acabou por se tornar o eixo principal da sua mensagem aos fiéis: “Queremos mesmo que o Senhor caminhe no meio de nós?”
Partindo da primeira leitura, onde Moisés pede a Deus que acompanhe o seu povo, o bispo do Funchal convidou a assembleia a refletir seriamente sobre o significado desse pedido.
“Na primeira leitura, ouvíamos Moisés a pedir ao Senhor que caminhe no meio do povo. E a minha questão é esta: nós queremos mesmo que o Senhor caminhe no meio de nós?”, questionou.
Segundo explicou, muitas pessoas recorrem a Deus nos momentos difíceis, mas nem sempre estão disponíveis para acolher a sua presença quando essa presença exige mudança de vida. “Quando estamos em aflição, logo recorremos a Deus”, observou. “Mas quando tudo corre bem, será que continuamos a querer Deus ao nosso lado?”
Recorrendo a exemplos concretos do quotidiano, o bispo procurou mostrar que a presença de Deus nem sempre coincide com aquilo que as pessoas desejam.
“Imaginem um marido zangado com a esposa. E Deus ali a dizer-lhe: deves perdoar a tua esposa. E ele não quer. Ou a esposa que não quer perdoar ao marido. Será mesmo que queremos Deus connosco?”, perguntou. A mesma lógica foi aplicada a outras situações da vida diária.
“Um aluno vai fazer um teste. Levou umas cábulas para o ajudar. E Deus ali ao lado a dizer-lhe: faz as coisas com honestidade. Será mesmo que queremos Deus connosco?”
Para o prelado, a questão é decisiva porque Deus não se limita a acompanhar passivamente a vida das pessoas. A sua presença provoca mudança, conversão e crescimento.
Reconhecendo as contradições da condição humana, o bispo observou que as pessoas são capazes do melhor e do pior. “Somos capazes de coisas muito boas. Mas também somos capazes de coisas muito más. Sejamos honestos”, afirmou.
Por isso, explicou D. Nuno Brás, acolher verdadeiramente Deus significa aceitar que Ele ilumine aquilo que está errado e ajude cada pessoa a transformar a própria vida. “Sim, queremos Deus. Deus a mostrar-nos o mal como mal.”
Voltando ao exemplo de Moisés, recordou as palavras do patriarca bíblico que reconhece as limitações do povo, mas pede ao mesmo tempo a misericórdia divina.
“Moisés dizia: é verdade que se trata de um povo de dura cerviz. Um povo teimoso. Um povo que insiste muitas vezes no mal. Mas perdoareis os nossos pecados e fareis de nós a vossa herança.”
O bispo do Funchal considerou que essa continua a ser a oração dos cristãos de hoje. “É verdade. Somos pecadores. Somos limitados. Somos egoístas muitas vezes. Mas queremos que Deus esteja connosco.”
Ao longo da homilia insistiu que a vida cristã não pode ser vivida de forma isolada nem individualista. Caminhar com Deus implica também aprender a caminhar com os outros.
“Queremos caminhar com Deus não de uma forma isolada. Queremos caminhar com Deus uns com os outros, cuidando uns dos outros, como Deus nos ensina”, vincou.
Foi precisamente neste contexto que o prelado relacionou a solenidade da Santíssima Trindade com a vida das comunidades cristãs. Deus, explicou, não é solidão, mas comunhão. E por isso os cristãos são chamados a construir relações marcadas pela fraternidade, pelo cuidado mútuo e pela capacidade de perdoar.
“Deus podia perfeitamente ter ficado no Céu”, afirmou. “Criou-nos e podia dizer: agora resolvam a vossa vida. Mas não. Deus quis vir ao nosso encontro.”
Segundo o bispo do Funchal, toda a história da salvação é marcada por esta iniciativa divina de proximidade.“Deus vem sempre ter connosco. Sempre. Nunca desiste de nós.”
A maior prova desse amor, acrescentou, encontra-se na própria Encarnação de Jesus Cristo. “Deus quis caminhar connosco de uma forma semelhante à nossa.”
Perante esta realidade, o prelado deixou um desafio concreto aos fiéis presentes na festa. “Se queremos caminhar com Deus, então dispomo-nos a mudar.”
E explicou porquê: “Quando Deus vem connosco, não nos deixa ficar na mesma. Quando Deus vem connosco, transforma-nos.”
Uma transformação que, segundo o bispo, acontece sempre para melhor. “Quando Deus está connosco, muda-nos sempre. Desde que nós o deixemos entrar na nossa vida.”
Já na parte final da homilia, convidou os fiéis a fazerem da oração de Moisés a sua própria oração. “Senhor, queremos que caminhes connosco. E nós queremos caminhar contigo.”
Reconhecendo as fragilidades humanas, acrescentou: “Somos muitas vezes pecadores. Somos muitas vezes teimosos. Somos muitas vezes egoístas. Somos isso tudo”, concluiu com uma nota de esperança, recordando que a presença de Deus torna possível aquilo que, apenas pelas forças humanas, parece difícil alcançar.
A Festa de Nossa Senhora Rainha do Mundo terminou assim com um forte convite à confiança em Deus e à abertura à sua ação transformadora.
Numa celebração marcada pela devoção mariana e pela solenidade da Santíssima Trindade, o bispo do Funchal desafiou os fiéis a acolherem a presença de Deus nas suas vidas, permitindo que Ele os transforme e conduza por caminhos de maior autenticidade, fraternidade e amor.
Após a Eucaristia, realizou-se a tradicional procissão em honra de Nossa Senhora Rainha do Mundo, que percorreu os arruamentos da localidade, reunindo os fiéis num público testemunho de fé e devoção mariana.































