“A família grita que Deus é amor.” Foi esta a ideia central que o bispo do Funchal vincou na Eucaristia que encerrou o Dia Diocesano da Família, celebrado este sábado, dia 30, no Colégio do Infante.
A iniciativa realizada na solenidade da Santíssima Trindade, reuniu dezenas de famílias da Diocese do Funchal e integrou um vasto conjunto de atividades que decorreram ao longo do dia, tanto nas instalações do colégio como em vários espaços da paróquia, incluindo a igreja, proporcionando momentos de oração, convívio, reflexão e partilha entre gerações.
A escolha da solenidade da Santíssima Trindade para esta celebração não é circunstancial. Apor isso, ao longo da missa, o prelado procurou mostrar como o mistério central da fé cristã ajuda a compreender também a vocação da família. Deus, explicou, não é solidão nem isolamento, mas comunhão de amor. E é precisamente por isso que a família continua a ser um dos sinais mais expressivos da presença de Deus no mundo.
Logo no início da celebração, o bispo chamou a atenção para a invocação repetida do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “Já aqui, pelo menos três vezes, invocámos Pai, Filho e Espírito Santo”, recordou aos fiéis. Referindo-se a um dos cânticos da liturgia, sublinhou depois uma expressão que considerou particularmente significativa: “Louvava Deus, Pai, Filho e Espírito Santo como amor que nos sacia.”
Mas tratava-se, explicou, de uma saciedade muito diferente daquela que normalmente associamos à satisfação humana. “Deus sacia-nos com a fome da verdade”, afirmou. “Quanto mais nós olhamos para Ele, quanto mais o contemplamos, quanto mais vivemos de Deus, Santíssima Trindade, mais temos fome de Deus, mais temos fome da verdade.”
Segundo o prelado, a experiência cristã não consiste em chegar a um ponto onde já não há mais nada para procurar, mas numa caminhada permanente em direção a Deus. “Deus sacia-nos com esta vontade de caminharmos sempre cada vez mais para Ele, de nos unirmos cada vez mais a Ele, de deixarmos que Ele seja o centro da nossa vida”, afirmou.
Esta dinâmica de comunhão ajuda também a compreender a própria realidade familiar. Por isso, o bispo convidou a assembleia a agradecer o dom das famílias. “Damos graças a Deus porque Ele é família”, afirmou. “É muito bonito que Jesus, para explicar o mistério de Deus, tenha usado precisamente a linguagem da família.”
A partir desta convicção, dirigiu uma ação de graças por todas as famílias da Diocese do Funchal, reconhecendo nelas um espaço privilegiado de crescimento humano e espiritual.
Já na homilia, desenvolvendo a reflexão proposta pela liturgia da Santíssima Trindade, o prelado concentrou-se numa afirmação que considerou fundamental para compreender a identidade cristã. “Deus é amor”, disse. “Eu não estou a dizer que Deus tem amor. Isso já sabíamos. A novidade cristã é dizer que Deus é amor.”
Para o bispo do Funchal, esta diferença muda completamente a forma como os cristãos entendem Deus. “O que é que isso significa? Significa que Deus não sabe fazer mais nada senão amar. Deus não sabe fazer mais nada, rigorosamente mais nada, a não ser amar.”
E reforçou a ideia recorrendo a uma linguagem simples e direta: “Não sabe odiar. Não sabe fazer outra coisa. Apenas sabe amar. Porque Ele é amor.”
D. Nuno Brás contrapôs esta realidade à condição humana. “Nós não somos amor. Nós temos amor”, afirmou. “O que significa que de vez em quando odiamos, de vez em quando somos egoístas, de vez em quando fechamo-nos sobre nós próprios.”

Reconhecendo as limitações humanas, observou que muitas vezes os conflitos familiares, sociais e pessoais nascem precisamente dessa incapacidade de amar de forma plena. “O nosso amor é sempre imperfeito”, sugeriu ao longo da reflexão, mostrando como a vida cristã consiste precisamente em deixar-se transformar pelo amor de Deus.
Segundo o bispo, o primeiro efeito do encontro com este Deus que é amor é a admiração. “Quando somos confrontados com um Deus assim, que só sabe amar, a primeira coisa é maravilharmo-nos.”
Essa admiração nasce também da contemplação do mundo criado. “Nestes pássaros que aqui estão, nestas flores, na água, ouvimos constantemente este testemunho de um Deus que é amor”, afirmou.
“Se nós repararmos bem, tudo isto nos fala de um Deus que é amor. Toda a criação nos fala de um Deus que é amor. E é isso que nos atrai.”
Numa passagem particularmente expressiva, questionou os presentes sobre a origem da beleza que encontram na natureza. “Porque é que nós achamos que as flores são bonitas? Porque é que nós achamos que o mar é bonito, mesmo quando tem aquelas vagas alterosas?”
A resposta, disse o bispo diocesano, está precisamente na capacidade da criação para refletir algo do próprio Criador. “Tudo isto nos fala de Deus. Tudo isto nos diz que Deus é amor.”
Daí o convite à contemplação. “A primeira coisa é contemplarmos”, insistiu. “É deixarmo-nos seduzir. É deixarmo-nos atrair pela beleza deste Deus que é amor. Que não sabe ser outra coisa senão amor.”
Contudo, explicou, esta contemplação conduz inevitavelmente a uma segunda atitude: o reconhecimento da própria fragilidade. “Diante deste Deus que é amor e puro amor, nós temos de reconhecer que somos pecadores.”
Recorrendo a uma imagem muito concreta, afirmou que muitas vezes a vida humana procura aparentar mais do que realmente é. “A nossa vida é uma espécie de pechisbeque”, disse. “Parece ouro, mas depois não é.”
Segundo o prelado, existe frequentemente uma tendência para esconder ou minimizar as próprias falhas. “Andamos a tentar disfarçar. A fazer uns remendos. Umas coisas para ver se a realidade não aparece.”
Mais preocupante ainda, acrescentou, é aquilo que designou como “o gosto pelo cinzento”. “O cinzento não é a escuridão, mas também não é a luz”, explicou. “É aquela sombra em que parece que estamos bem, parece que somos bons, parece que tudo está resolvido, mas não está.”
Esta mediocridade espiritual, afirmou, constitui um dos grandes desafios do mundo contemporâneo. “Andamos à procura de mostrar que somos muito bons. Somos capazes de inventar inteligência artificial. Somos capazes de chegar à Lua. Somos capazes de tantas coisas extraordinárias.”
Mas depois acrescentou uma observação que marcou a assembleia: “Diante do amor, que é aquilo que interessa, percebemos quanto nos falta.”
Para o bispo do Funchal, o verdadeiro critério da existência humana não está no progresso tecnológico nem no sucesso material, mas na capacidade de amar.
Foi nesse contexto que D. Nuno Brás abordou a linguagem evangélica sobre o julgamento. “Quem não entrega a sua vida ao amor já está condenado”, afirmou. “Condena-se a si mesmo.”
Explicando melhor esta ideia, acrescentou que o amor funciona como uma luz. “O amor ilumina a nossa vida. Mostra o nosso pecado. Põe a nu aquilo que somos.”
Por isso, observou, o encontro com Deus não é cómodo. Obriga a abandonar ilusões e máscaras. Obriga a olhar para a verdade da própria vida. Mas precisamente por isso abre também o caminho da conversão.
A certa altura da homilia, o prelado interrompeu a reflexão para destacar aquilo que considerou ser a grande esperança dos cristãos. “Que bom que é termos um Deus que é amor.”
E continuou: “A nossa sorte é que Deus é amor.”
Numa das passagens mais fortes da celebração, afirmou ainda: “Imaginem que Deus não era amor e que apenas condenava. Estávamos todos arranjados.” Mas a realidade é outra. “Este Deus que é amor inventa tudo para nos salvar.”
Segundo D. Nuno Brás, toda a história da salvação pode ser lida à luz desta iniciativa divina. “Este Deus que é amor inventa tudo para te salvar.”
E prosseguiu: “Até foi capaz de Se fazer homem. De carne e osso.”
Para o prelado, a Encarnação continua a ser a prova maior da proximidade de Deus. “Anda à tua procura”, disse. “Não desiste de ti. Procura-te. Encontra-te. Chama-te.”
Foi precisamente neste contexto que voltou a falar da família, apresentando-a como uma manifestação concreta deste amor divino.
“De uma forma muito particular, nós percebemos este amor de Deus precisamente na família.”
Longe de idealizações, o bispo reconheceu as dificuldades concretas que as famílias enfrentam. “Concreta. Real. Frágil. Difícil. Que é a família.”
Ainda assim, insistiu que é precisamente nessa realidade imperfeita que o amor de Deus se torna visível. “A família é sinal da presença do amor de Deus.” E acrescentou: “É um grito constante a dizer: Deus é amor.”
Comparou ainda o testemunho da família ao da própria criação. “Muito mais do que os pássaros, muito mais do que as águas, muito mais do que o pôr do sol, a família grita que Deus é amor.”
Segundo o prelado, a família continua a ser um testemunho vivo de que o amor não é apenas um ideal abstrato. “A família mostra que é possível viver no amor de Deus.”
Mais do que uma teoria, explicou, trata-se de uma realidade concreta feita de entrega, perdão, fidelidade, serviço e compromisso diário. E continuou descrevendo a ação transformadora do amor vivido em família: “Uma realidade que nos cerca. Que nos procura. Que nos encontra. Que nos transforma.”
Já na parte final da homilia, o bispo do Funchal convidou todos os presentes a não deixarem passar em vão a graça recebida. “Pedimos ao Senhor que nos ajude a perceber e a viver este mistério do Seu amor.”
E concluiu com um apelo à resposta pessoal de cada cristão. “Que não deixemos passar esta graça ao nosso lado sem lhe entregarmos o coração.”
A celebração ficou igualmente marcada por um momento de reconhecimento a um casal que celebrou as suas Bodas de Ouro matrimoniais. Perante a assembleia, os esposos receberam um diploma evocativo, num gesto que procurou valorizar cinquenta anos de vida conjugal, fidelidade e testemunho cristão.
O Dia Diocesano da Família contou ainda com diversas atividades de carácter formativo, recreativo e espiritual, envolvendo crianças, jovens, pais e avós, numa jornada marcada pelo convívio e pela partilha.
No final da Eucaristia, o cónego Rui Pontes, do Secretariado Diocesano da Família, dirigiu palavras de agradecimento ao bispo do Funchal pela sua presença e mensagem, bem como ao Colégio do Infante pela disponibilidade das instalações, às equipas organizadoras, voluntários e participantes que contribuíram para o sucesso da iniciativa.
Terminava assim mais uma edição do Dia Diocesano da Família, celebrada sob o signo da Santíssima Trindade e marcada pela insistência do bispo numa convicção que atravessou toda a sua pregação: a de que a família, apesar das fragilidades, desafios e limitações que enfrenta, continua a ser um dos sinais mais claros e mais fortes da presença de Deus no mundo, porque, como repetiu perante as dezenas de famílias reunidas, “a família grita que Deus é amor”.
































