Ao ler os dois primeiros capítulos da nova encíclica “Magnifica Humanitas”, do Papa Leão XIV, regressei à sala de aula da Universidade Gregoriana, em Roma. Foi ali que as grandes encíclicas da Doutrina Social da Igreja eram passadas a pente fino e colocadas em diálogo com os contributos das ciências sociais: a sociologia, a ciência política, a ética, a antropologia e a economia. Para muitos, a Faculdade de Ciências Sociais parecia uma espécie de intrusa, uma filha menor, quando comparada com as históricas faculdades de Teologia, Sagrada Escritura, Direito Canónico ou Espiritualidade. Mas o tempo mostrou a sua verdadeira missão de ajudar a Igreja a colocar o Evangelho em diálogo com os problemas concretos do mundo contemporâneo.
Algo semelhante acontecia com o Centro Interdisciplinar sobre a Comunicação Social, criado pelo cardeal jesuíta Carlo Maria Martini, então reitor daquela universidade. Filho do Concílio Vaticano II, Martini compreendeu cedo que a Igreja não podia limitar-se a falar ao mundo; precisava também de o escutar, conhecer e compreender. Era necessário aprender as linguagens da cultura contemporânea, discernir os sinais dos tempos e enfrentar, com inteligência e humildade, os desafios colocados pelos novos meios de comunicação.
É neste horizonte que vejo a “Magnifica Humanitas”. A primeira encíclica de Leão XIV recupera o melhor da tradição social da Igreja para pensar uma das grandes questões do nosso tempo: a Inteligência Artificial. A sabedoria acumulada da fé cristã, do magistério e da experiência da Igreja é colocada ao serviço dessa “magnífica humanidade” que não pode ser diminuída, substituída ou esquecida.
Leão XIV inaugura, assim, um debate decisivo, que certamente se prolongará durante décadas. Porque as verdadeiras questões ligadas à Inteligência Artificial não são apenas de ordem técnica ou tecnológica de algoritmos e máquinas, mas são profundamente humanas. O que significa ser pessoa? O que distingue a inteligência humana dos algoritmos? Como proteger a dignidade dos mais frágeis? Quem beneficiará dos avanços tecnológicos e quem corre o risco de ser deixado para trás? A Igreja entra neste debate não como quem possui a verdade, mas como quem se recusa a deixar que o futuro seja pensado sem ética nem atenção aos mais vulneráveis.
É sugestivo que “Magnifica Humanitas” surja no site do Vaticano, sem a habitual versão latina. Perante desafios radicalmente novos, como a Inteligência Artificial, a Igreja quer falar nas línguas vivas em que a humanidade hoje pensa, trabalha, sofre, comunica e decide o seu futuro.
A encíclica apresenta, por isso, uma Igreja encarnada, humilde e peregrina. Uma Igreja atenta aos pobres, aos migrantes, aos descartados e a todos os que podem tornar-se invisíveis numa sociedade cada vez mais automatizada. Uma Igreja que, como recorda o texto, «se deixa instruir pelo Espírito Santo» para servir a dignidade humana. Como o pai de família do Evangelho, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas, Leão XIV coloca a sabedoria antiga ao serviço das inquietações contemporâneas. E recorda que no centro de qualquer revolução digital, a pessoa humana deve estar sempre em primeiro lugar.




















