Pequenos anjos

László Pataky (1857-1912) | Vigília, 1886

Duas crianças pequenas, sozinhas, vagueavam perdidas numa estrada entre Alcácer do Sal e a Comporta. Falavam francês, tinham entre três e cinco anos e caminhavam desorientadas. Segundo as informações divulgadas pela comunicação social, estariam a brincar com a mãe e o padrasto, procurando um brinquedo de olhos vendados, até que aqueles que deviam protegê-las deixaram simplesmente de se fazer ouvir. Os pequenos anjos traziam apenas mochilas com roupa, água, fruta e bolachas, sinais mínimos de sobrevivência no meio de um abandono impossível de compreender. Quando a infância é desprezada, o mundo torna-se inabitável.

Recordei-me então de um quadro do pintor húngaro László Pataky, “Vigília” (1886). Nessa pintura, uma luz atravessa um quarto pobre e silencioso. Há crianças: uma dorme serenamente, outra brinca no chão. Há também um adulto que permanece acordado, velando, cuidando, protegendo aqueles pequeninos das insinuações da morte e da escuridão.

Este quadro fala-me da vulnerabilidade absoluta do ser humano quando deixa de existir um adulto que vigia, protege e ama. E fala-me também da sacralidade da infância. Talvez nada exista de mais sagrado numa sociedade do que uma criança entregue à confiança dos adultos. A criança vive da certeza de que alguém virá, de que uma voz responderá ao seu medo, de que um olhar a procurará se ela se perder. Por isso, o abandono de uma criança é uma ferida moral profunda, uma negação da própria vocação humana ao cuidado e à comunhão.

No quadro de Pataky, alguém permanece acordado durante a noite. Na história destas crianças, felizmente, também houve quem estivesse atento. Houve quem parasse, quem estranhasse, quem acolhesse, quem chamasse ajuda. A vigilância de alguns é sinal de que nem tudo está perdido. São estes gestos de cuidado, discretos e essenciais, que ainda alimentam a esperança na humanidade.

Cada criança abandonada interroga a consciência do mundo inteiro. E cada adulto que permanece acordado para proteger uma vida inocente torna-se, de algum modo, sinal daquela luz que continua a atravessar a escuridão sem jamais ser vencida por ela.