Santa Sé: Leão XIV cria comissão para acompanhar os desafios da Inteligência Artificial

D.R.

O Papa Leão XIV aprovou a criação de uma Comissão Interdicasterial sobre a Inteligência Artificial, destinada a promover uma reflexão comum e uma maior articulação entre vários organismos da Santa Sé sobre os desafios colocados por esta tecnologia, incluindo as políticas da sua utilização no próprio Vaticano.

A decisão consta de um “Rescriptum ex Audientia Sanctissimi”, assinado pelo cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, com data de 12 de maio, e tornado público pela Sala de Imprensa da Santa Sé no dia 16 de maio.

A comissão foi instituída nos termos do artigo 28.º da Constituição Apostólica “Praedicate Evangelium”, que prevê a criação de comissões interdicasteriais para matérias de competência comum, que exigem consulta recíproca e frequente entre os diferentes organismos da Cúria Romana.

A nova estrutura surge perante o crescimento da Inteligência Artificial nas últimas décadas e as recentes acelerações na sua utilização generalizada. O documento sublinha, em particular, os efeitos que esta tecnologia pode ter sobre o ser humano e sobre a humanidade no seu conjunto, enquadrando a decisão na preocupação da Igreja pela dignidade de cada pessoa e pelo seu desenvolvimento integral.

A atenção da Santa Sé a esta matéria tem sido reforçada nos últimos anos. Em janeiro de 2025, os Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e a Educação publicaram a nota “Antiqua et Nova”, dedicada à relação entre Inteligência Artificial e inteligência humana. Já no início do seu pontificado, Leão XIV manifestou interesse pelo tema, comparando o impacto da revolução provocada pela IA à revolução industrial.

A Comissão Interdicasterial será composta por representantes do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, do Dicastério para a Doutrina da Fé, do Dicastério para a Cultura e a Educação, do Dicastério para a Comunicação, da Pontifícia Academia para a Vida, da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais.

Cada uma destas instituições deverá designar um representante. Qualquer alteração à composição da comissão terá de ser submetida à aprovação do Santo Padre.

Durante o primeiro ano, a coordenação ficará confiada ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, dirigido pelo cardeal Michael Czerny, podendo este mandato ser renovado. Posteriormente, caberá ao Papa entregar essa responsabilidade a uma das instituições participantes, sempre pelo período de um ano.

A missão da entidade coordenadora será facilitar a colaboração e a partilha de informações entre os membros da comissão sobre atividades, projetos e orientações relacionados com a Inteligência Artificial. O documento refere expressamente as políticas de utilização desta tecnologia no interior da Santa Sé, promovendo o diálogo, a comunhão e a participação entre os organismos envolvidos.

Segundo o Vatican News, esta iniciativa recorda, em alguns aspetos, a Comissão Vaticana Covid-19, criada pelo Papa Francisco em março de 2020, também no âmbito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, para ajudar a Igreja a responder a um dos grandes desafios daquele tempo.

Agora, perante os avanços da Inteligência Artificial, a Santa Sé procura organizar uma resposta comum a uma realidade com implicações éticas, sociais, culturais, comunicacionais e antropológicas. Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, Leão XIV alertou precisamente para as consequências desta tecnologia, capaz de tocar dimensões profundas da pessoa humana, incluindo a sua interioridade e a sua relação com a verdade, com os outros e consigo mesma.