A apresentação do livro “Tombo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Machico (séculos XV–XVII), decorreu no Fórum Machico, no âmbito do XVIII Colóquio do Mercado Quinhentista de Machico, reuniu investigadores, responsáveis da Igreja entre os quais o bispo do Funchal e entidades locais numa reflexão sobre a importância histórica, cultural e espiritual do documento agora recuperado e editado.
O Cónego Manuel Ramos explicou que a descoberta do livro que deu origem a este agora apresentado aconteceu durante o período da pandemia, quando o confinamento permitiu revisitar arquivos e documentos antigos guardados pela paróquia. “Foi a oportunidade de rever os papéis, arquivos e materiais que fazem parte do recheio da Igreja”, afirmou.
Segundo o sacerdote, o livro foi inicialmente identificado entre outros documentos antigos e começou a despertar atenção depois de ter sido mostrado numa exposição e divulgado nas redes sociais. “Com a exposição na Sala do Tesouro e através da publicação nas redes sociais é que o livro passou a ser mais conhecido e apreciado”, referiu.
A partir daí surgiu o envolvimento da historiadora Maria de Lurdes Rosa e de investigadores ligados ao projeto VINCULUM, dedicado ao estudo do património histórico e documental. A professora explicou que o interesse nasceu precisamente através das redes sociais e do contacto de investigadores madeirenses ligados ao projeto. “Achámos de um maior interesse porque tinha mesmo a ver com o nosso projeto”, afirmou.
Maria de Lurdes Rosa destacou o trabalho coletivo desenvolvido na recuperação, restauro, digitalização e transcrição do documento, envolvendo investigadores, paleógrafos e estudantes universitários. “Foi um processo muito colaborativo que envolveu várias gerações”, sublinhou.
A investigadora chamou ainda a atenção para a riqueza humana presente no Tombo de Machico, considerando que o documento oferece um retrato raro da diversidade social do início do povoamento da ilha. “Há uma enorme diversidade de pessoas, muitas mulheres, pessoas que vieram de fora e pessoas que regressaram”, explicou, acrescentando que o documento permite compreender melhor “o começo da história”.
Testemunho de fé
Também D. Nuno Brás valorizou o significado do tombo, não apenas enquanto património histórico, mas sobretudo como testemunho da fé dos primeiros habitantes da Madeira. “O Tombo fala-nos de um povo com fé. Com fé na vida eterna”, afirmou.
O bispo do Funchal considerou que o documento revela como a fé esteve presente desde o início do povoamento da ilha. “Aqueles que morriam tinham a confiança de que a oração dos que viviam era importante para eles”, observou, referindo-se às missas mandadas celebrar pelas almas dos falecidos.
Para D. Nuno Brás, o documento ajuda também a compreender a centralidade da paróquia na organização social da Madeira dos séculos iniciais. “A paróquia era a grande organização social”, afirmou, acrescentando que ainda hoje “a dimensão da fé continua a ser uma realidade importante e essencial na vida dos madeirenses”.
Já o Cónego Manuel Ramos destacou o impacto do projeto na própria comunidade de Machico, considerando que o livro ajuda a reforçar a identidade local e o sentido de pertença. “Ajuda a retratar o sentido de quem somos”, afirmou, valorizando não apenas o património edificado, mas também “a vida da comunidade cristã de outros tempos”.
Na conclusão da sessão, D. Nuno Brás deixou palavras de reconhecimento à comunidade machiquense pela preservação do documento. “De um livro que estava destinado ao lixo surgiu toda esta realidade bela e importante”, afirmou, acrescentando que alguém teve a sensibilidade de guardar “este livro precioso que hoje nos inspira”.




























