O Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s recebe, este sábado, 16 de maio, pelas 16 horas, a conferência “A Sacramentalidade da Arquitetura Religiosa na Vida da Cidade”, apresentada pelo Pe. João Norton de Matos. A iniciativa integra o programa paralelo da exposição A Invenção do Funchal, patente na sala de exposições temporárias daquele espaço cultural.
Estivemos à conversa com João Norton de Matos, arquiteto e padre jesuíta, doutorado em estética e teologia em Paris. Nascido em Lisboa, em 1963, entrou na Companhia de Jesus em 1990, já com formação em arquitetura, tendo sido ordenado padre na Igreja de São Roque, em 2002, após os estudos de filosofia e teologia. Antecipando alguns dos temas que irá abordar na conferência, o sacerdote explicou que esta reflexão procura ajudar a compreender melhor a identidade urbana e espiritual do Funchal, destacando a importância da arquitetura religiosa na construção da memória coletiva da cidade. A entrada é livre e a participação está aberta a todos os interessados.
Esta conferência integra o programa paralelo de “A Invenção do Funchal”. De que maneira esta reflexão ajuda também a pensar a identidade da cidade?
Penso que tudo parte daí, tentar compreender a cidade do Funchal. Compreender implica conhecer e apreciar. Apreciar implica valorizar e cuidar. Implicar alunos de arquitetura no conhecimento específico da cidade contribui para este processo.
A produção da exposição é desde logo resultado de um estudo e de um muito bom trabalho. Penso que o programa paralelo pretende precisamente gerar diferentes pontos de vista sobre esse objeto.
“A arquitetura religiosa continua a ter um papel importante na cidade, antes de mais pelo seu significado religioso, mas também muito para além da função litúrgica”.
Que marcas deixou a arquitetura religiosa na identidade urbana do Funchal ao longo dos séculos?
A exposição mostra que a arquitetura religiosa do Funchal aparece muito cedo, logo no século XV, começando pelos conventos de São Francisco e Santa Clara, apenas algumas décadas depois da chegada oficial dos portugueses e da colonização da ilha. Depois surge a construção da Sé, a chegada dos jesuítas e outros elementos marcantes. Tudo isso terá tido um papel importante, tanto material como imaterial, no desenvolvimento da cidade.
Quando se fala em sacramentalidade da arquitetura religiosa, do que estamos realmente a falar?
A sacramentalidade é uma noção que vem da liturgia, mas que vou estender à própria arquitetura religiosa. Na liturgia, os sacramentos são sinais visíveis de uma realidade invisível a que chamamos graça de Deus. O que é visível são mediações simbólicas materiais. Não bastam por si só, mas são incontornáveis.
Essas mediações acontecem a muitos níveis. O que um altar é para uma igreja, de algum modo um convento é para uma cidade. É um sinal material que remete para uma realidade que o ultrapassa.
De que forma a arquitetura religiosa pode continuar a ter um papel vivo na cidade contemporânea, para lá da sua função litúrgica?
A arquitetura religiosa continua a ter um papel importante na cidade, antes de mais pelo seu significado religioso, mas também muito para além da função litúrgica.
O património material, e particularmente a arquitetura religiosa, possui muitos níveis de relevância, experiência e significado. Tem um papel presente na própria imagem atual da cidade. Mesmo os conventos que já não desempenham essa função mantêm um importante papel de memória.
A memória não é apenas passado. É uma herança, a presença do passado no presente, tanto no sentido material como espiritual. Se lhes dedicarmos atenção, estes espaços inspiram-nos, ensinam-nos e até corrigem a forma como imaginamos a arquitetura e a cidade futura. As condições sociais e económicas mudam, mas há valores que permanecem durante mais tempo.
“O património religioso possui valor arquitetónico, poético, espiritual e também religioso. Devíamos cuidar muito dos primeiros aspetos, mas o terceiro merece igualmente ser aprofundado”.
As igrejas e espaços religiosos ainda conseguem criar sentido de comunidade numa sociedade cada vez mais individualista?
Tratando-se de conventos, estamos perante uma arquitetura nascida de um verdadeiro projeto de vida comunitário, tanto nos conventos de vida ativa como, ainda mais, nos de vida contemplativa. Isso, por si só, já dá que pensar.
Talvez um convento seja um pequeno modelo de cidade. Alguns bons exemplos da arquitetura modernista inspiraram-se precisamente no modo de vida dos conventos. Como é que um espaço responde às necessidades fundamentais do ser humano? Quais são essas necessidades? O que significa uma cela, um claustro, uma capela ou um horto?
Que dizem estes espaços sobre a vida que ali aconteceu? E será que isso se aplica apenas à vida religiosa ou também pode ensinar algo sobre o equilíbrio da vida na cidade secular? Que valor davam ao silêncio, à beleza, à simplicidade como estilo de vida e à vida comunitária?
Que desafios enfrenta hoje a preservação do património religioso nas cidades?
O principal desafio é contrariar uma gestão da cidade feita apenas por critérios pragmáticos e financeiros, que acabam por comprometer a qualidade de vida e o gosto de viver a cidade.
O património religioso possui valor arquitetónico, poético, espiritual e também religioso. Devíamos cuidar muito dos primeiros aspetos, mas o terceiro merece igualmente ser aprofundado. Um edifício religioso revela a dimensão espiritual do ser humano, isto é, essa procura permanente de sentido, aquilo que nos faz viver e gostar de viver.
Essa dimensão não pertence apenas ao edifício religioso, mas à cultura em geral e também à procura de qualidade na arquitetura e no desenho urbano. A cidade é algo muito complexo. Tentarei introduzir na conferência o conceito de “complexidade harmónica”.
A arquitetura religiosa da Madeira possui características próprias que a distinguem de outros contextos?
Podemos perguntar-nos se a própria arquitetura da Madeira possui características distintas. Não sou especialista nessa matéria, mas diria que sim.
Há condições específicas de clima, topografia, materiais disponíveis e modos de construção que a arquitetura religiosa terá integrado ao longo do tempo. Depois existem constantes, tipologias arquitetónicas que se repetem. São os historiadores de arte que descobrem as variantes dessas tipologias e o seu significado.
“Pensando no futuro, a arquitetura dos conventos pode inspirar novas funções e novos modos de habitar a cidade, sobretudo por contraste com funções para as quais estes espaços não se adequam”.
Que exemplos de arquitetura religiosa considera particularmente inspiradores e porquê?
Vou partir sobretudo dos casos de estudo presentes nesta exposição, porque são muitíssimo ricos. Tentarei imaginar a vida das irmãs num convento de clarissas, o regresso dos frades franciscanos depois das suas voltas pela cidade e pela ilha, ou ainda a vida de um colégio jesuíta, com o pátio da comunidade religiosa e o pátio do colégio, o valor dado ao ensino, ao estudo, às bibliotecas e à vida da comunidade cristã.
Pensando no futuro, a arquitetura dos conventos pode inspirar novas funções e novos modos de habitar a cidade, sobretudo por contraste com funções para as quais estes espaços não se adequam.
O património da arquitetura religiosa continua também a inspirar uma arquitetura que tenha em conta a dimensão espiritual do ser humano. E espiritual não significa algo etéreo. A espiritualidade envolve a totalidade da pessoa, o corpo e os sentidos, a ocupação do tempo, os ritmos, o trabalho, o descanso, a comunidade próxima e alargada, o dia e a noite, o mar e o céu.




















