A Paróquia de Fátima, no Funchal, encheu-se ontem, 12 de maio, de oração, silêncio e emoção numa das mais sentidas manifestações de fé mariana vividas neste mês de maio.
Centenas de fiéis voltaram a acompanhar esta caminhada em honra de Nossa Senhora de Fátima, presidida pelo bispo do Funchal, D. Nuno Brás, numa noite marcada pela devoção profunda à Mãe de Deus e pelo apelo à paz num mundo ferido pela guerra e pela falta de esperança.
Ao longo das ruas, iluminadas pela luz suave das velas via-se gente de todas as idades rezando o terço, cantando e acompanhando a imagem de Nossa Senhora.
Junto a um estabelecimento comercial 400 velas aguardavam a chegada do andor, que fez uma pequena paragem junto de outra imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Muitas casas abriram portas e janelas para saudar Virgem de Fátima nesta noite de luz ténue, mas significativa. Das varandas pendiam colchas e toalhas bordadas, enquanto idosos faziam o sinal da cruz emocionados e crianças olhavam em silêncio para a imagem da “Mãe do Céu”, transportada por elementos dos Bombeiros Sapadores do Funchal.
Mãe que quer a todos
Mas antes da procissão a Eucaristia, com D. Nuno Brás a saudar os presentes e em particular as autoridades civis que se associaram ao momento.
Num tom de grande proximidade e ternura, o bispo do Funchal recordou que Maria continua a ser mãe para cada pessoa. “Ela é de facto a nossa Mãe, a nossa Mãe querida, a nossa Mãe que nos quer a todos e a cada um”, disse, perante uma assembleia atenta.
As palavras do prelado ganharam ainda maior intensidade quando convidou os fiéis a trazerem no coração as dores do mundo atual. “Que nos nossos corações esteja também este nosso mundo tão precisado de paz, tão precisado de fé, tão precisado de esperança”, apelou.
O bispo do Funchal partiu depois da leitura do Apocalipse para deixar outra reflexão profunda sobre a humanidade nova que Deus deseja construir.
“Vi um novo céu e uma nova terra”, recordou, explicando que essa promessa não é apenas uma realidade distante, mas um caminho já iniciado no coração dos homens e mulheres que acolhem Deus.
“É Deus quem constrói a Nova Jerusalém. É Deus quem a dá”, sublinhou.
Ao comentar a imagem bíblica da cidade santa “bela como noiva adornada para o seu esposo”, D. Nuno Brás aproximou imediatamente essa visão da figura de Nossa Senhora de Fátima, colocada diante dos fiéis nesta noite de oração.
“Quem é Nossa Senhora de Fátima senão esta noiva belíssima, vestida para o casamento”, questionou.
O bispo explicou que Maria representa a humanidade plenamente transformada pela graça de Deus. “Nossa Senhora não é apenas aquela rapariga de Nazaré que deu carne humana a Jesus”, afirmou. “Ela é a humanidade final, perfeita, preparada para Deus.”
Transformação que pede esforço
Num dos momentos mais fortes da homilia, D. Nuno Brás afirmou que Maria representa aquilo que cada cristão é chamado a tornar-se. “Nossa Senhora representa aquilo que cada um de nós pode ser, aquilo que cada ser humano é chamado a ser”, disse.
Mas essa transformação, alertou, não acontece sem esforço e sem combate interior. “Esta transformação que Deus quer realizar em nós não se faz sem luta”, afirmou várias vezes ao longo da reflexão.
Num mundo marcado por conflitos e violência, o bispo recordou as imagens de guerra que diariamente entram nas casas através dos noticiários. “Abrimos o telejornal e vemos aquelas tristes notícias, desde a Ucrânia até ao Médio Oriente”, lamentou.
Contudo, fez questão de distinguir claramente a violência da luta cristã. “Eu não disse que precisamos de fazer guerra”, esclareceu. “Disse que precisamos de lutar contra a guerra.”
“Lutar pela paz com as armas da paz. Lutar pelo amor com as armas do amor. Lutar pelo bem com as armas do bem”, afirmou, sendo escutado em silêncio pelos presentes.
Ao longo da homilia, Nossa Senhora foi apresentada como exemplo dessa luta perseverante, feita de amor, entrega e fidelidade a Deus. “Nossa Senhora não é uma mulher de braços cruzados”, disse D. Nuno Brás. “É uma mulher que luta.”
Lutadores por Deus e para Deus
Recordando as várias manifestações marianas ao longo da história, desde Nossa Senhora do Pilar até Lourdes, Aparecida, Monte e Fátima, o prelado sublinhou que Maria nunca abandona os seus filhos. “Onde há cristãos, aí está Nossa Senhora”, afirmou.
“Isto não é atitude de quem desiste. É atitude de uma mãe que continua a caminhar com os seus filhos.”
O prelado convidou ainda os presentes a levarem essa luta para dentro da própria vida, começando pela família e pelas pequenas realidades do dia a dia. “Precisamos de lutar na nossa vida pessoal, na nossa família, na nossa comunidade”, apelou.
“Não com as armas que nós inventamos, mas com as armas que Deus faz nascer no nosso coração.”
Na conclusão da homilia, D. Nuno Brás pediu a Nossa Senhora que ajude os cristãos a serem construtores de uma humanidade nova, mais próxima de Deus e mais próxima dos irmãos.
“Pedimos-lhe que cada um de nós se torne um lutador por Deus e para Deus. Um lutador pelo homem e para o homem”, afirmou.
Procissão até o Colégio
Seguiu-se então a procissão das velas, que percorreu as ruas da paróquia até chegar ao Colégio Salesiano. Momento que muitos certamente aproveitaram para meditar nas suas vidas, para pedir e agradecer e lembrar que, de facto, Fátima é apelo à conversão, à mudança de vida, de atitudes e é preciso que cada um de nós entenda o que é que a Mãe de Jesus pede hoje, nestes tempos conturbados, a cada um de nós.
Com Nossa Senhora já no recinto desportivo, colocada em lugar de destaque e os peregrinos sentados nos seus lugares o prelado voltou a usar da palavra para reiterar o apelo à paz, convidando os fiéis a olharem para Nossa Senhora como modelo de esperança e de reconciliação num mundo marcado pela violência e pela divisão.
Dirigindo-se à assembleia, o prelado sublinhou o desejo de uma humanidade reconciliada e capaz de viver no amor. “Desejamos o amor realizado e definido”, afirmou.
D. Nuno Brás recordou depois a insistência da Igreja na necessidade urgente de construir a paz, evocando também o exemplo e os apelos deixados pelo Papa Leão. “Queremos, por isso, pedir-lhe, de uma forma muito particular, pela paz no mundo”, disse. “É a grande luta que o Santo Padre, o Papa Leão, nos tem indicado.”
Mas o apelo do prelado não se limitou à realidade internacional. D. Nuno Brás insistiu também na necessidade de cada pessoa deixar que a paz de Deus transforme o próprio coração e as relações humanas do quotidiano. “Queremos olhar para a Virgem Maria e pedir-lhe que, no nosso coração, ganhe a paz”, disse.
Num ambiente profundamente devocional, perante numerosos fiéis reunidos em oração, o Bispo pediu ainda que essa paz se torne visível nas famílias, nas comunidades e nas relações entre as pessoas. “Queremos olhar para a Virgem Maria e pedir-lhe que, à nossa volta, sejamos todos semeadores da paz”, apelou.
A terminar toda a celebração o Pe. António Marcelino, salesiano e pároco da paróquia de Fátima, aproveitou para fazer os habituais agradecimentos saudando as diversas entidades presentes, entre elas representantes do Governo Regional, da Assembleia Legislativa da Madeira, da Câmara Municipal do Funchal, da Assembleia Municipal, das forças militares e de segurança, bem como várias instituições civis e religiosas.
Um dos momentos mais especiais aconteceu durante a referência aos bombeiros sapadores do Funchal, presença habitual nas celebrações marianas desde os tempos da pandemia. O sacerdote recordou particularmente “Carlinhos”, bombeiro que, apesar das limitações físicas resultantes de uma operação, fez questão de continuar a ajudar no transporte do andor de Nossa Senhora.
“Agora já não pode correr, que era aquilo de que tanto gostava, mas quis vir transportar o andor de Nossa Senhora porque pode andar”, referiu, num momento que levou muitos dos presentes ao aplauso emocionado.
O sacerdote dirigiu-se ao bispo do Funchal, D. Nuno Brás, recordando que aquela celebração coincidia com o aniversário natalício do prelado, sendo também o primeiro vivido sem a presença da mãe, falecida recentemente.
“É o primeiro aniversário que celebra connosco sem a voz da sua querida mãe aqui na terra”, afirmou, recordando igualmente outra família da comunidade que vivia o luto pela perda da mãe.
As palavras levaram muitos dos presentes ao silêncio e à emoção, num ambiente de grande recolhimento espiritual. “Diante de uma mãe, esteja ela no Céu ou cá na terra, muitas vezes apetece-nos fazer silêncio”, disse o sacerdote.
Foi precisamente o silêncio um dos fios condutores daquele momento de oração. “Um silêncio de contemplação, um silêncio de agradecimento, um silêncio que fala”, descreveu.
Inspirando-se numa referência ao músico Pedro Abrunhosa e numa antiga canção do padre Zezinho, o sacerdote evocou “o silêncio que canta e reza”, convidando todos a viverem aquele instante com interioridade e confiança.
Enquanto os cânticos marianos ecoavam pelo recinto e muitos fiéis permaneciam de olhos postos na imagem de Nossa Senhora, a celebração terminou com uma oração confiada à Virgem Maria, pedindo conforto, proteção e paz para todas as famílias.
“É no silêncio de Deus que pedimos à Virgem Maria que nos conforte, que nos abençoe e nos conceda a todos o dom da paz”, afirmou no final.
Seguiu-se a retirada do andor com a Mãe do recinto em procissão, com os fiéis presentes a se despedirem da imagem de Fátima com um aceno de lenços brancos.






























