Porto Santo: Capela de São Pedro em fase final de restauro

Processo de desinfestação | Foto: Atelier Sentir a Arte

A Capela de São Pedro, situada numa posição dominante na encosta do Pico Ana Ferreira, no Porto Santo, está a ser alvo de uma intervenção de conservação e restauro que visa preservar um dos mais relevantes testemunhos do património religioso e cultural da ilha. Com origens no século XVII e profundamente marcada por uma reedificação no século XVIII, a capela apresenta uma traça simples no exterior, mas integra elementos de influência maneirista e barroca que lhe conferem particular valor histórico e artístico. Como sublinha o pároco Da Piedade e Espirito Santo, padre Hélder Gonçalves, “este pequeno templo revela uma identidade arquitetónica que importa preservar”, destacando ainda que “a sua localização e enquadramento paisagístico reforçam o seu valor simbólico e patrimonial”.

Os trabalhos atualmente em curso incidem sobretudo no teto da capela-mor e na imagem de São Pedro, ambas datadas do século XVIII. Segundo o sacerdote, “esta intervenção insere-se na continuidade do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, ao longo dos últimos anos, na conservação do património religioso da ilha, fruto do empenho dos meus antecessores e da própria comunidade”, acrescentando que “cuidar deste património é também cuidar da memória e da fé de um povo”.

No que diz respeito ao financiamento, o padre Hélder Gonçalves recorda que “este processo teve início com a preocupação demonstrada pelo Padre Fábio Ferreira, entre 2018 e 2019, ao promover candidaturas a fundos de apoio”, sublinhando que “sem essa visão inicial dificilmente teríamos chegado a esta fase”. Acrescenta ainda que “a estas iniciativas juntam-se apoios municipais, contributos de mecenas da ilha e donativos de particulares, tanto locais como oriundos de fora, permitindo assim a concretização destas obras”, considerando que “este é também um sinal claro do envolvimento da comunidade e do apreço que tem por este espaço”.

Paralelamente às obras de restauro, a nova direção da Confraria de São Pedro tem vindo a dinamizar a valorização do espaço. “Há um cuidado renovado com a capela e com tudo o que envolve a festa e a devoção a São Pedro”, refere o pároco, adiantando que estão previstos “um novo andor, uma nova imagem de São Pedro para as procissões e um novo pendão”, elementos que, no seu entender, “irão enriquecer significativamente as celebrações e reforçar o sentido de pertença da comunidade”.

Respeito pela autenticidade

Do ponto de vista técnico, Carlos Manuel, responsável pelo Atelier Sentir a Arte – Conservação e Restauro, explica que “os trabalhos de conservação e restauro do teto da Capela de São Pedro, no Porto Santo, tiveram início em finais do mês de janeiro e princípios do mês de fevereiro”, acrescentando que “até ao momento, não surgiu nenhuma dificuldade de maior; o trabalho tem sido regular”, o que, segundo afirma, “permitiu cumprir o planeamento definido desde o início”.

Sobre a natureza da intervenção, detalha que “a intervenção pauta-se por princípios de carácter conservativo e restauro, limitando-se apenas o restauro às ações imprescindíveis de estabilização física e leitura estética da obra, por processos eticamente aceitáveis”, sublinhando que “não se trata de alterar a obra, mas de garantir a sua integridade e legibilidade”. Acrescenta ainda que “o objetivo desta intervenção é proporcionar ao teto um tratamento adequado, apostando na vertente conservativa que assegure a sua preservação e valorização”, frisando que “cada decisão é tomada com o máximo respeito pela autenticidade do bem”.

O especialista sublinha também a importância desta intervenção no contexto mais amplo do património regional, afirmando que “a Capela de São Pedro configura-se como um bem cultural de matriz religiosa, com características arquitetónicas e artísticas maneiristas e barrocas”, sendo que, enquanto património vivo, “a sua relevância transcende a materialidade do edificado”. Nesse sentido, acrescenta que “estamos a falar de um espaço que tem uma função litúrgica e devocional muito enraizada, com um forte simbolismo para a comunidade porto-santense”.

Relativamente ao estado de conservação, Carlos Manuel alerta que “esta intervenção revelou-se de extraordinária importância para a preservação do teto da capela-mor, uma vez que este sofreu múltiplos danos provocados por infiltrações no telhado que perduraram por mais de uma década, sobretudo na zona junto ao arco”. Explica ainda que “sendo o teto em madeira policromada, o tratamento foi determinante porque o estado de conservação estava num ponto crítico”, acrescentando que “havia risco real de perda total do suporte e consequente policromia, o que representaria uma perda irreparável”.

A conclusão dos trabalhos está prevista para meados de junho. “A nossa expectativa é que tudo esteja concluído dentro do prazo”, refere o responsável pelo restauro, enquanto o padre Hélder Gonçalves manifesta satisfação pelo andamento da obra, sublinhando que “será uma alegria poder celebrar a Festa de São Pedro com a capela renovada e dignificada”. A festividade terá lugar nos dias 28 e 29 de junho, constituindo um dos momentos mais significativos do calendário religioso local.