A cidade do Funchal voltou a celebrar com solenidade o seu padroeiro, São Tiago Menor, neste dia 1 de maio, num programa que uniu tradição, fé e participação popular. Antes da Eucaristia, muitos fiéis reuniram-se na Sé para um momento de oração, de onde partiu a imagem do Apóstolo em procissão, levada em ombros pelos Bombeiros Sapadores do Funchal e acompanhada ao compasso da Banda Distrital do Funchal.
O cortejo percorreu as principais ruas em ambiente de devoção, até ao local da celebração, envolvendo numerosos participantes e curiosos.
A Eucaristia que se seguiu, concelebrada por vários sacerdotes, foi marcada por uma forte dimensão simbólica e espiritual, com destaque para a homilia centrada na figura de São Tiago Menor, apresentada como modelo atual para os cristãos.
Logo no início da reflexão, o bispo do Funchal situou o sentido da celebração: “Queremos pedir a São Tiago Menor, nosso padroeiro, que nos ajude a viver melhor como cristãos e como cidadãos desta cidade”. A partir daqui, desenvolveu uma leitura próxima da vida do Apóstolo, destacando o seu percurso de fé como um caminho feito de dúvidas, conversão e compromisso.
Recordando que Tiago inicialmente olhou para Jesus com alguma reserva, afirmou que “essas reticências desapareceram quando se deixou tocar pelo Senhor”, sublinhando que este é também o caminho de muitos crentes hoje. “Há tantos que receberam a fé em pequenos, mas que se esqueceram de Deus”, disse, acrescentando que “no coração permanece sempre a possibilidade de regressar”.
A ideia de conversão atravessou grande parte da homilia, sendo apresentada não como um momento isolado, mas como um processo contínuo: “Deixar-se converter é aceitar que Deus continue a trabalhar em nós”, afirmou, convidando os fiéis a não se acomodarem a uma fé superficial.
Outro ponto forte foi a reflexão sobre a Igreja como comunidade diversa. “O grupo dos discípulos era muito diferente entre si”, recordou, explicando que “o que os unia não eram os gostos ou as opiniões, mas Jesus e a necessidade de anunciar o Reino de Deus”. Numa leitura atual, acrescentou: “Também hoje a Igreja quer abarcar a todos, quem quer que seja, desde que esteja disponível”.
A partir daqui, o prelado aprofundou uma das características mais marcantes de São Tiago: a sabedoria. “Tiago é o homem da sabedoria que nasce da oração e da proximidade com Deus”, afirmou, sublinhando que esta sabedoria permite “olhar a realidade com os olhos de Deus e não apenas com critérios humanos”.
Num tom direto, alertou para os riscos de uma sociedade guiada apenas pela aparência: “Não nos podemos deixar levar pelo superficial, pelo que parece ou pela opinião da maioria”. E acrescentou: “A sabedoria de Deus faz-nos ver mais longe, faz-nos escolher melhor”.
A reflexão ganhou ainda mais força quando D. Nuno Brás colocou a questão no plano concreto da cidade: “Como seria diferente o Funchal se vivêssemosmais guiados por esta sabedoria?”. A pergunta ficou no ar como provocação e desafio à comunidade.
A homilia avançou depois para o testemunho final de São Tiago, destacando a sua fidelidade até ao martírio. “Quando lhe pediram que negasse Jesus, não hesitou”, recordou, acrescentando: “Afirmou diante de todos que só em Jesus há salvação”. Esse gesto foi descrito como um exemplo claro de coragem e coerência.
“Tiago não procurou agradar, procurou ser fiel”, disse o bispo, ligando essa atitude à realidade atual: “Também hoje somos chamados a dar testemunho, mesmo quando isso não é fácil”. E insistiu: “A fé não pode ser vivida pela metade”.
Ao longo da homilia, foram surgindo interpelações diretas aos fiéis. “Não basta celebrar, é preciso viver”, afirmou a certa altura, numa referência à vivência muitas vezes apenas exterior da religião. E reforçou: “A fé que não se traduz em vida acaba por perder força”.
Num dos momentos mais marcantes, o bispo diocesano sublinhou a necessidade de uma fé enraizada e consciente: “Os funchalenses continuam a precisar deste testemunho claro e firme”. E acrescentou: “Não podemos viver apenas de herança, é preciso fazer da fé uma escolha pessoal”.
A dimensão comunitária da celebração também foi valorizada, com uma saudação às autoridades locais, nomeadamente ao presidente da autarquia, respetiva vereação e deputados municipais e instituições presentes. Entre elas, o Instituto de Emprego da Madeira, que assinala 25 anos de existência, foi referido como exemplo de serviço à sociedade. “Damos graças a Deus por todos os que promovem o trabalho digno”, afirmou.
A celebração terminou num ambiente de participação e sentido de pertença, reforçado pela forte adesão popular desde a procissão inicial. A imagem de São Tiago, transportada pelas ruas do Funchal, voltou a ser sinal visível de uma devoção que atravessa gerações.
Mais do que um momento festivo, a solenidade deste ano deixou um apelo claro: viver a fé com mais profundidade, mais consciência e mais coragem. Como resumiu o bispo, “São Tiago continua a apontar-nos o caminho: o de uma vida transformada por Cristo e vivida com verdade”.












Leia na Íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
SOLENIDADE DE SÃO TIAGO MENOR
1 de Maio de 2026
1. Queremos pedir a São Tiago Menor, nosso Padroeiro, que hoje aqui nos reúne, que nos ajude a viver melhor como cristãos e comocidadãos deste nosso Funchal.
A figura deste Santo Apóstolo é riquíssima, e disso se têm feito eco numerosos estudos contemporâneos. No entanto, nesta ocasião, nãoolhemos tanto para as minudências dos estudiosos, quanto sobretudo para os grandes traços da sua personalidade.
Em primeiro lugar, sabemos que Tiago foi discípulo do Senhor e membro do grupo dos Doze. Chamado “Irmão do Senhor” por ser da suafamília, foi com algumas reticências que olhou para Jesus quando este deixou Nazaré e tomou Cafarnaúm como centro do seu ministério. Sabemos, no entanto, que essas reticências desapareceram porque, logo depois, vemos Tiago a integrar o grupo dos Doze: é o Tiago chamado “Menor”, ou o “filho de Alfeu”; é o Tiago que — após a ressurreição e depois que Pedro teve que abandonar Jerusalém — assumiu a condução da primeira comunidade cristã.
Tiago é, portanto, a figura daquele que, mesmo tendo nascido ao lado de Jesus, assaltado por reticências iniciais, se deixou converter pelo Senhor, para abraçar decididamente a fé — podemos dizer que Tiago inspira o caminho daqueles madeirenses que, apesar de terem sido batizados em criança e de a sua família viver a fé, se “esqueceram de Deus”, mas em cujo coração existe a disponibilidadepara regressar e se colocar no caminho decidido dos discípulos de Jesus.
Naquele tempo como hoje, o grupo dos discípulos é muito heterogéneo: de gente simples a intelectuais; de pescadores e agricultores a cobradores de impostos e universitários; de reflexivos a gente de acção; homens e mulheres; solteiros e casados; jovens e velhos; soldados romanos e judeus que sofrem as violências da ocupação… — o seu ponto de encontro não eram os gostos, capacidades ouopiniões de cada um, mas Jesus e a necessidade de anunciar a presença do Reino de Deus.
Também hoje a Igreja de Jesus (concretamente a nossa Diocese do Funchal) abarca e quer abarcar a todos, quem quer que seja, desdeque disponível para se deixar converter, tocar por Jesus de Nazaré.
2. Como discípulo e, depois, como Apóstolo, membro do grupo dos Doze, bispo de Jerusalém, Tiago Menor era a figura em que a comunidade se revia, aquele para quem todos olhavam, aquele de quem procuravam conselho e orientação. Esta faceta de homem de sabedoria, somos capazes de a perceber com facilidade quando lemos a Carta de S. Tiago, presente no Novo Testamento, cheia de discernimento, de conhecimento e meditação das Escrituras — Palavra de Deus para nós os crentes, mas, igualmente, repositório de sabedoria humana para todos.
Tiago é, de facto, o homem da sabedoria, da interioridade que se ganha na oração e na proximidade com Deus. É o homem capaz de olhar a realidade não com um simples olhar humano mas com os olhos de Deus, com os olhos da fé. Ele convida-nos todos a deixar-nostocar pela sabedoria. A não nos deixarmos levar pela primeira opinião, por aquilo que aparece e que parece, pelo superficial e pelasmodas, ou até pela opinião da maioria. Convida-nos, antes, a deixar-nos iluminar pela luz de Deus, que faz ver mais longe, com outros critérios. Como seria diferente a nossa cidade, se nela vivessem mais sábios ou, pelo menos, mais crentes que se deixassem confrontar e iluminar pela sabedoria divina!
3. Tiago é, finalmente, o discípulo que não hesita em caminhar para o martírio. Com efeito (contam-nos várias fontes, mesmo não cristãs) que, olhando-o como homem sábio e respeitado por todos, os líderes judaicos de então, num momento de convulsões e de vazio de poderromano (ano 62), lhe pediram que subisse à parte mais alta do Templo de Jerusalém para, diante do povo, confessar que Jesus tinha sidoapenas um judeu bom e sensato, mas nada mais, devendo todos regressar à tranquilidade anterior à Páscoa do Senhor.
Ao ver a possibilidade que lhe ofereciam de dar testemunho do Ressuscitado, Tiago não hesitou e, diante de todos, afirmou alto e claramente que apenas em Jesus existe a salvação. Foi quanto bastou para o precipitarem do lugar alto onde estava, para o lapidarem e, por fim, terminarem com a sua vida terrena com um maço de pisoeiro.
Em 2002, foi encontrado um ossário com a inscrição “Tiago filho de José, irmão de Jesus”, e que vários estudiosos defendem ter guardadoos restos de S. Tiago, perto do Templo de Jerusalém. A ser verdadeiro, tratar-se-ia não só de um vestígio arqueológico de Tiago comotambém do próprio Jesus. Convenhamos, no entanto, que não é dele que depende a nossa relação com este Apóstolo.
Aliás, o achado de pouco nos importa, diante do testemunho firme, corajoso, claro — e indiscutível! — que Tiago deu em favor do Senhor ressuscitado. E como os funchalenses, cuja esmagadora maioria recebeu a fé ainda antes de ver a luz do dia, continuam a necessitar dessetestemunho oferecido pelo Apóstolo seu padroeiro!
Possa a figura de São Tiago Menor, a quem há mais de 500 anos os funchalenses invocam como Padroeiro, continuar a defender e ainspirar a vida desta sua cidade, em particular dos cristãos desta sua cidade e desta sua diocese.
No início desta celebração, quero saudar todos os membros do executivo camarário e dos demais órgãos autárquicos, eleitos no passado mês de outubro para conduzirem a nossa cidade. Pedimos para todos uma especial protecção de São Tiago Menor.
Saúdo, igualmente, o Instituto de Emprego da Madeira, que celebra os 25 anos da sua existência. Damos graças a Deus por quantos, aolongo destes anos, promoveram o trabalho digno e foram esperança para tantos madeirenses. Pedimos ao Senhor que continue aabençoar esta instituição e quantos nela trabalham.


















