Maios

Foto: "Maio" - Biblioteca Francisco Álvares de Nóbrega | G.A.

Um dos elementos caraterísticos da procissão do Voto de São Tiago Menor, no primeiro de maio, é o uso dos “maios”, os tradicionais colares de malmequeres amarelos que adornam a imagem do padroeiro da Diocese do Funchal e acompanham muitos dos fiéis no percurso entre a Sé e a igreja de Santa Maria Maior.

Abel Marques Caldeira, em “Falares da Ilha”, define o maio como “rosário de mal-me-queres amarelos” colocado ao pescoço das crianças no 1.º de Maio. Também Deolinda Macedo, em 1939, registava que estes “malmequeres amarelos” abundavam pelos campos da Madeira e serviam para fazer coroas e cordões.

A etnografia portuguesa ajuda a compreender melhor este costume. Ernesto Veiga de Oliveira, em “Festividades Cíclicas em Portugal”, anotou que em muitas terras se colocavam giestas, flores e ramos em portas, janelas, currais e noutros lugares da vida quotidiana. Eram associados à proteção da casa, à fertilidade dos campos e à esperança de um novo ciclo de abundância.

Mas os “maios” não se exprimem apenas em flores. Em Machico, como recorda Albino Viveiros, num artigo publicado na revista “Ilharq” (2002), os “maios” assumem também a forma de bonecos feitos de trapos, palha, jornais, roupas usadas e outros materiais simples. Estas figuras representavam tipos reconhecíveis da comunidade: o emigrante, o casal de noivos, o camponês, o homem marcado por uma deformidade física ou outras personagens da vida local. Colocados de madrugada, antes do nascer do sol, em quintais, poios, janelas e terraços, estes bonecos eram uma espécie de teatro popular ao ar livre, assumindo uma dimensão de sátira social e humor.

Esta tradição encontra paralelo noutras regiões portuguesas. No Algarve, a “maia” podia ser representada por uma jovem vestida de branco, adornada com flores, fitas e joias, ou, mais tarde, por bonecos de palha e trapos colocados junto às casas. Nos Açores, especialmente na Terceira, surgem também bonecos associados ao “maio”, colocados em janelas e varandas.

No Funchal, a herança popular dos colares de maio cruza-se com a devoção a São Tiago Menor. Fernando de Aguiar recorda (1951), que a procissão era também conhecida como “procissão dos maios”. Assim, também a primavera entra na linguagem da fé e a flor campestre oferece ao padroeiro da cidade, beleza e luz.