O Papa Leão XIV recebeu, na segunda-feira, 27 de abril, no Vaticano, Sarah Mullally, arcebispa de Cantuária e mais alta autoridade espiritual da Comunhão Anglicana, sublinhando a importância do ecumenismo para o testemunho da paz num mundo marcado por conflitos, divisões e sofrimento.
A audiência decorreu na Biblioteca privada do Palácio Apostólico e integrou a viagem que a responsável anglicana realizou a Roma entre 25 e 28 de abril, pouco mais de um mês depois da sua tomada de posse oficial como arcebispa de Cantuária, a 25 de março.
No discurso dirigido a Sarah Mullally e à sua delegação, Leão XIV evocou o tempo pascal e a saudação de Cristo ressuscitado aos discípulos: “Paz a vós!” (Jo 20, 19). Para o Papa, estas palavras recordam que os cristãos são chamados não apenas a receber o dom da paz, mas também a tornarem-se seus mensageiros.
O Pontífice insistiu na necessidade de testemunhar a “paz desarmada” de Cristo, recordando que o Senhor “sempre respondeu à violência e à agressão de modo desarmado, convidando-nos a fazer o mesmo”. Por isso, defendeu, os cristãos devem oferecer juntos “um testemunho profético e humilde desta realidade profunda”.
Leão XIV advertiu que as divisões entre os cristãos fragilizam a missão comum. “Enquanto o nosso mundo sofredor tem profunda necessidade da paz de Cristo, as divisões entre os cristãos enfraquecem a nossa capacidade de sermos portadores eficazes dessa paz”, afirmou, citado pelo Vatican News.
O Papa acrescentou que, “se queremos que o mundo tome a peito a nossa pregação, devemos ser constantes nas nossas orações e nos nossos esforços”, para “remover qualquer pedra de tropeço que impeça a proclamação do Evangelho”.
A unidade, frisou o Santo Padre, está intimamente ligada à fecundidade da evangelização, tema que acompanha o seu ministério e que se encontra expresso no lema que escolheu quando foi nomeado bispo: “In Illo uno unum”, isto é, “No único Cristo somos um”, expressão inspirada em Santo Agostinho.
Durante o encontro, Leão XIV recordou também o “memorável encontro” entre São Paulo VI e o arcebispo Michael Ramsey, há 60 anos, que abriu caminho ao primeiro diálogo teológico entre anglicanos e católicos. Esse percurso, afirmou, procurava o “restabelecimento da plena comunhão na fé e na vida sacramental”.
O Papa reconheceu, contudo, que o caminho ecuménico “tem sido complexo”. Apesar dos “muitos progressos alcançados em questões historicamente divisivas”, observou que “nas últimas décadas surgiram novos problemas”, tornando “mais difícil discernir o caminho rumo à plena comunhão”. Leão XIV assinalou ainda saber que a própria Comunhão Anglicana enfrenta atualmente muitas dessas questões.
Ainda assim, o Pontífice pediu que as dificuldades não impeçam o anúncio comum de Cristo. “Não devemos permitir que esses desafios constantes nos impeçam de aproveitar toda ocasião possível para proclamar juntos Cristo ao mundo”, disse à arcebispa de Cantuária.
Retomando uma expressão usada pelo Papa Francisco, em 2024, diante dos primazes da Comunhão Anglicana, Leão XIV afirmou que “seria um escândalo” se as divisões impedissem os cristãos de dar a conhecer Cristo. E acrescentou: “Da minha parte, acrescento que seria um escândalo também se não continuássemos a trabalhar para superar as nossas diferenças, por mais insuperáveis que possam parecer”.
Na sua intervenção, Sarah Mullally afirmou que, “no mundo de hoje”, os cristãos são chamados a “viver e anunciar o Evangelho com renovada clareza”. Perante uma realidade marcada por “violência desumana”, “profundas divisões” e “rápidas mudanças sociais”, a arcebispa de Cantuária defendeu a necessidade de continuar a anunciar “uma história de esperança”.
Essa esperança, explicou, passa por testemunhar “que toda vida humana tem um valor infinito, porque somos filhos preciosos de Deus; de que a família humana é chamada a viver como irmãos e irmãs; de que devemos, portanto, trabalhar juntos pelo bem comum, construindo sempre pontes, nunca muros; de que os mais pobres entre nós estão mais próximos do coração de Deus; e de que as forças da morte são vencidas pela vida ressuscitada de Cristo”.
A responsável anglicana agradeceu ainda a recente viagem apostólica de Leão XIV a África, realizada de 13 a 23 de abril, considerando-a “cheia de vida e de alegria”. “O mundo precisava desta mensagem neste momento: obrigado”, afirmou. Sarah Mullally deverá deslocar-se também ao continente africano, em julho, com visitas ao Gana e aos Camarões.
Entre os presentes na audiência esteve o bispo Anthony Ball, diretor do Centro Anglicano em Roma, instituição também criada há seis décadas. Segundo o Vatican News, Anthony Ball será nomeado representante da arcebispa de Cantuária junto da Santa Sé.
No final do discurso, Leão XIV convidou católicos e anglicanos a continuarem a caminhar juntos “em amizade e diálogo”, pedindo que o Espírito Santo guie os seus passos “na oração e na humildade”, em busca da unidade que é, afirmou, “a vontade de Deus para todos os seus discípulos”.




















