A 41.ª Assembleia Geral da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal decorreu em Fátima, nos dias 27 e 28 de abril, reunindo cerca de 170 participantes. O encontro ficou marcado pela eleição dos novos órgãos da CIRP para o triénio 2026-2029, pela reflexão sobre a secularização e pelo compromisso renovado com a proteção de menores e adultos vulneráveis.
A nova Direção será presidida pela Irmã Ângela de Fátima Coelho, da Aliança de Santa Maria, tendo como vice-presidente o Padre Pedro António da Silva Guimarães, dos Vicentinos. Integram ainda a Direção, como vogais, a Irmã Célia Maria Pedrosa Cabecinhas, das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, a Irmã Paula Jacinta Moreira Gonçalves Carneiro, das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, e Frei José João Quintã Pereira, dos Franciscanos.
Foram também eleitos os membros do Conselho Fiscal, presidido pela Irmã Maria Conceição d’Oliveira Fernandes, das Irmãs de São João Baptista e de Maria Rainha. O Padre Hugo Norberto Mendes Ventura, dos Espiritanos, assume as funções de secretário, e a Irmã Maria de Fátima Fernandes Machado, das Irmãs de São José de Cluny, foi eleita vogal.
Segundo a mensagem final da Assembleia, participaram nos trabalhos Superiores Maiores, religiosos e leigos convidados pelos Institutos. O Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, marcou presença pela primeira vez numa Assembleia Geral da CIRP, dirigindo aos consagrados uma palavra de apreço e sublinhando que a sua missão “não é apenas diplomática, mas de relação próxima com toda a Igreja em Portugal”. Também D. Nélio Pita, recém-eleito presidente da Comissão Mista Bispos e Vida Consagrada da Conferência Episcopal Portuguesa, acompanhou pela primeira vez os trabalhos da Assembleia.
O primeiro dia foi dedicado à formação, com a intervenção do Padre Eduardo Duque, sacerdote da Arquidiocese de Braga, doutor em Sociologia e professor na Universidade Católica Portuguesa. A reflexão centrou-se no tema da secularização, distribuído por três subtemas: “A ‘fé líquida’: compreender os contornos da secularização contemporânea”; “Presença e Testemunho: novos areópagos para o anúncio do Evangelho”; e “Do desencanto ao reencontro: estratégias pastorais para uma cultura em mudança”.
Na mensagem final, os participantes reconhecem que a secularização contemporânea resulta de “uma transformação profunda na forma de compreender o mundo e a existência”. A Assembleia sublinha que, num tempo marcado pela racionalidade técnica e científica, pela autonomia individual e pela pluralidade de referências, “a fé deixa de ser recebida como herança comunitária e torna-se, muitas vezes, um ‘projeto pessoal’”.
Apesar do afastamento institucional de muitos em relação à Igreja e da diminuição da prática religiosa, a CIRP identifica também sinais de procura espiritual. “Num contexto de ‘fé líquida’, surge o paradoxo: ao mesmo tempo que se verifica um afastamento da Igreja e uma diminuição da prática religiosa, permanece uma busca espiritual, sinal de que Deus continua presente no coração do ser humano”, refere a mensagem.
A Assembleia considera que este cenário exige uma renovação profunda da presença da Igreja. O documento afirma que “já não é possível anunciar o Evangelho a partir de pressupostos adquiridos”, sendo necessária “uma verdadeira conversão pastoral”. Essa conversão implica, segundo os participantes, “passar de uma lógica de ocupação de espaços para uma presença encarnada, feita de proximidade, relação e encontro com cada pessoa concreta”.
A reflexão apontou ainda para a importância do testemunho cristão em contextos sociais marcados pela desconfiança. “Mais do que falar da Igreja, somos chamados a ser Igreja através de vidas coerentes, simples e disponíveis, capazes de tornar visível a alegria do Evangelho”, lê-se na mensagem final.
Após o momento formativo, os participantes trabalharam em grupos propostas de ação para a nova Direção. As conclusões convergiram na necessidade de reforçar a comunhão e a sinodalidade na vida consagrada, promovendo maior articulação entre os Institutos Religiosos e criando projetos conjuntos capazes de responder aos desafios do envelhecimento, das migrações e da diversidade cultural.
Foi ainda destacada a importância da formação contínua, da partilha de recursos e de boas práticas, nomeadamente através de redes de apoio nas áreas jurídica e de gestão patrimonial. A Assembleia sublinhou também “a urgência de dar maior visibilidade à vida consagrada como sinal profético na Igreja e na sociedade”, com especial atenção à juventude, à animação vocacional e à ecologia integral.
O segundo dia foi dedicado aos assuntos internos da CIRP, com a presença dos Superiores Maiores e equiparados. O presidente cessante, Padre Adelino Ascenso, afirmou que “a Vida Consagrada deve ser sinal profético e fiel, confiando na ação do Espírito Santo, mesmo em contextos marcados por insegurança, violência e injustiça”. O sacerdote destacou ainda a necessidade de uma alegria autêntica, nascida da vida interior, e apelou à escuta, ao despojamento e à humanização das relações pessoais e comunitárias.
A nova presidente da CIRP, Irmã Ângela Coelho, agradeceu o serviço da Direção cessante, de modo particular do Padre Adelino Ascenso, pelo “testemunho de consagração, liderança, fé e simplicidade ao longo dos últimos três anos”. A religiosa manifestou também gratidão pela disponibilidade da nova Direção e sublinhou a dimensão profética da vida consagrada “na tarefa da reconciliação e da paz”.
No âmbito da proteção de menores e adultos vulneráveis, a Assembleia manifestou comunhão com a Conferência Episcopal Portuguesa no caminho de atenção às vítimas de abusos sexuais. Reconhecendo que está a terminar o processo de compensações financeiras iniciado em conjunto pela CEP e pela CIRP, os participantes afirmaram estar “conscientes de que nenhum valor pago apagará a dor de quem sofreu tão duras vivências”. A mensagem insiste, por isso, na necessidade de prosseguir o compromisso de acolhimento e acompanhamento das vítimas, investindo na formação, prevenção e capacitação dos agentes pastorais, de modo a consolidar “uma efetiva cultura de proteção e cuidado”.
A Assembleia congratulou-se ainda com a eleição da Irmã Ângela Coelho como presidente da União das Conferências Europeias dos Superiores Maiores para o quadriénio 2026-2030.
Durante os trabalhos foi aprovado o relatório de contas da CIRP e foram partilhadas informações da última Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa. Os participantes tomaram também conhecimento dos programas do Curso de Integração Missionária, previsto para 27 a 31 de julho, e do Curso de Missiologia, que decorrerá de 24 a 29 de agosto.
A próxima Assembleia Geral da CIRP está marcada para 16 e 17 de novembro. Em 2027, as Assembleias Gerais realizar-se-ão nos dias 12 e 13 de abril e 15 e 16 de novembro.























