Na manhã de domingo, 26 de abril, a Paróquia do Atouguia acolheu a celebração do Sacramento do Crisma, reunindo 35 jovens e adultos provenientes das paróquias da Calheta, Atouguia e São Francisco Xavier. A igreja encheu-se de familiares, padrinhos e membros das comunidades, num ambiente marcado pela alegria, mas também por um sentido profundo de compromisso com a vida cristã.
A Eucaristia foi presidida pelo bispo do Funchal, que começou por sublinhar o sentido profundo daquele momento: “Estamos reunidos no amor de Cristo, reunidos no Espírito Santo, para acolher o dom do Espírito Santo”. Inspirando-se na experiência dos apóstolos, recordou como o medo se transformou em coragem após Pentecostes, explicando que “o medo transformou-se em coragem, a tristeza transformou-se em alegria, porque perceberam a presença do Senhor ressuscitado”. Nessa linha, fez a ponte com a celebração daquele dia: “É precisamente isso que vai acontecer aqui hoje. Não virão línguas de fogo nem um grande vento, mas o Espírito Santo vai descer e vai transformar-nos”.
O prelado insistiu na necessidade de uma atitude interior de abertura, lembrando que “o Espírito Santo transforma aqueles que têm o coração disponível” e convidando todos a disporem o seu interior para acolher esse dom. Num tom próximo e pedagógico, preparou a assembleia para viver com consciência o momento que se seguia, sublinhando que o Crisma não é apenas um rito, mas uma verdadeira experiência de encontro com Deus.
Antes da administração do sacramento, o pároco, padre Silvano Gonçalves, apresentou ao bispo o grupo de crismandos, evidenciando o percurso feito ao longo dos últimos anos. Referiu tratar-se de jovens da catequese, mas também de alguns adultos que, por diferentes razões, decidiram agora completar a sua iniciação cristã. “Fizeram a sua caminhada de catequese e, mais recentemente, uma preparação mais próxima”, explicou, acrescentando que todos receberam também o Sacramento da Reconciliação como forma de melhor se disporem para este momento. Concluiu afirmando: “Apresentam-se hoje para receber o Sacramento da Confirmação” e assegurando que estavam preparados.
Na homilia, o bispo desenvolveu uma reflexão centrada na imagem de Jesus como o Bom Pastor, partindo do Evangelho proclamado. “Jesus chama cada uma das ovelhas pelo seu nome e leva-as para fora”, recordou, explicando que esta imagem revela uma relação profundamente pessoal entre Cristo e cada um dos fiéis. “Nós seguimos porque conhecemos a sua voz”, acrescentou, sublinhando que a fé nasce dessa relação de proximidade e confiança.
Aprofundando esta ideia, D. Nuno Brás afirmou: “Ele sabe aquilo que tu pensas, aquilo que tu és no teu coração, aquilo que desejas e aquilo que vives. Ele conhece-te”. E insistiu: “E porque te conhece, ama-te”. Esta certeza foi apresentada como o ponto de partida de toda a vida cristã: “O ponto de partida da nossa vida é este: eu tenho alguém que me ama. E esse alguém é Deus”.
O prelado não ignorou as fragilidades humanas e falou de forma direta sobre a experiência do erro e da queda: “Mesmo quando percebes que fizeste mal, mesmo quando todos te viram as costas, Ele ama-te”. No entanto, fez questão de esclarecer que esse amor não é permissivo: “Ele não gosta daquilo que fizeste de mal, mas ama-te. E porque te ama, dá-te a oportunidade de mudares de vida”. Daqui partiu para uma explicação clara do significado da conversão: “A conversão é precisamente isto: mudar de vida porque Jesus Cristo me ama”.
Num registo muito concreto, deixou um desafio exigente mas realista: “Todos os dias precisamos de acertar a nossa vida. Todos os dias precisamos de mudar qualquer coisa”. Reconhecendo as dificuldades, acrescentou: “Tu não és capaz sozinho, mas com Jesus Cristo és capaz”. Esta insistência na necessidade de um caminho contínuo marcou uma das linhas fortes da homilia.
Outro aspeto destacado foi a dimensão missionária da fé. “Jesus Cristo não nos deixa ficar fechados”, afirmou, recorrendo a uma imagem simples mas expressiva: “Não nos deixa ficar no quarto. Leva-nos para fora”. Explicou que este “sair” não é apenas físico, mas sobretudo interior e espiritual: “Leva-nos para perceber a beleza daquilo que somos, a beleza de sermos filhos de Deus, e para mostrar isso aos outros”.
Neste contexto, sublinhou que a vida cristã não se centra no próprio: “Nós não mostramos a nós, mostramos a Ele”. E acrescentou: “Jesus Cristo é solução para a vida das pessoas”. Por isso, insistiu na responsabilidade de testemunhar a fé: “Os outros precisam de conhecer, precisam de saber. Porque Jesus Cristo não é só bom para ti, é bom para todos”.
O bispo diocesano abordou ainda a realidade concreta da sociedade atual, alertando para o risco de uma fé superficial ou apenas cultural. “Aqui na nossa terra, toda a gente celebra o Natal, e ainda bem”, começou por dizer, mas logo questionou: “Mas será que todos conhecem verdadeiramente Jesus Cristo? Será que se deixam guiar por Ele?”. Explicou que ser cristão implica precisamente isso: “Deixar que Ele conduza a nossa vida, as nossas escolhas, aquilo que somos”.
Num tom mais incisivo, afirmou: “Há muita gente que não conhece Jesus Cristo verdadeiramente” e acrescentou que isso se reflete também nos problemas do mundo: “No meio das guerras todas, o que é que falta? Faz falta Jesus Cristo”. Repetiu a ideia com convicção: “Faz falta Jesus Cristo. Faz falta ao mundo”.
Dirigindo-se diretamente aos crismandos, D. Nuno Brás sublinhou o papel do Espírito Santo que estavam prestes a receber: “É o Espírito de Jesus que toma conta da nossa vida” e “ajuda-nos a viver como cristãos, a ter outra perspetiva”. Explicou ainda que esta ação do Espírito não se limita ao momento do sacramento: “Depois o Espírito Santo transborda, chega aos outros, transforma também a vida daqueles que estão à nossa volta”.
A celebração decorreu também no contexto do dia de oração pelas vocações consagradas, o que levou o bispo do Funchal a deixar um apelo claro à disponibilidade. Num momento mais silencioso e interior, convidou os presentes a dizer: “Aqui estou, Senhor, para aquilo que Tu quiseres”. E acrescentou, dirigindo-se especialmente aos mais jovens: “Se Ele te chamar, não tenhas medo”.
Antecipando possíveis receios, respondeu de forma direta: “Ah, mas eu não sou capaz. Claro que não és capaz. Mas Ele ajuda-te”. E reforçou: “O importante é estar disponível”. Este apelo foi feito não apenas em relação ao sacerdócio ou à vida religiosa, mas como atitude fundamental de qualquer cristão diante de Deus.
A celebração prosseguiu com o rito da Confirmação, momento central da manhã, em que os 35 crismandos receberam a unção com o Santo Crisma, sinal visível do dom do Espírito Santo. Cada gesto, cada palavra, foi vivido com intensidade, tanto pelos que recebiam o sacramento como por toda a assembleia que os acompanhava.
No final, vivia-se um ambiente de alegria serena, marcado pela consciência de que aquele não era um ponto de chegada, mas antes um novo começo. Como foi recordado ao longo da celebração, o Crisma confirma a fé recebida no Batismo e envia cada cristão em missão.



































