Imagens

Imagem gerada por IA

“Uma imagem vale por mil palavras” é uma afirmação que ouvimos com frequência, e não sem razão. A imagem, sobretudo a fotografia, sempre teve um peso determinante na comunicação. Contudo, a difusão da inteligência artificial veio alterar profundamente esse cenário. Hoje, já não basta olhar para uma imagem ou para uma fotografia. É necessário perguntar quem a produziu, de que forma foi criada e o que pretende transmitir.

As recentes imagens geradas por inteligência artificial e divulgadas em contas oficiais do presidente dos Estados Unidos da América, incluindo uma em que o próprio surge representado como Jesus, impõem uma reflexão. Não me parece que se trate de uma iniciativa meramente humorística ou de simples entretenimento. Quando um líder político aparece associado a uma iconografia ligada ao sagrado e a símbolos religiosos, está, inevitavelmente, a querer comunicar algo.

No caso do presidente dos Estados Unidos, estas imagens sugerem a construção de uma figura política colocada acima dos demais, alguém apresentado como portador de uma missão providencial, quase messiânica.

Neste contexto, a política deixa de pedir apenas apoiantes e começa a reclamar devotos. Talvez tenha sido assim que alguns seguidores interpretaram estas imagens, como sinais de pertença, validação e confirmação de que o seu líder se encontra num plano superior.

Não admira, por isso, as reações negativas. Para muitos, não estava em causa apenas uma provocação política, mas a apropriação de símbolos centrais da fé cristã.

Depois da publicação ter sido retirada, surgiu ainda uma tentativa de desvalorização do seu significado. Confrontado pelos jornalistas, o próprio presidente negou que a imagem o representasse como Jesus e afirmou: “Eu postei, e pensei que fosse eu como médico, e que tivesse a ver com a Cruz Vermelha”.

Estas imagens revelam bem os perigos do tempo em que vivemos. Mostram como é necessário reaprender a olhar, apurar o sentido crítico e permanecer atentos às múltiplas formas de manipulação. Em poucos instantes e com escassos recursos, é hoje possível fabricar imagens com enorme impacto emocional.

Por isso, torna-se essencial distinguir claramente entre política e fé. Quando o poder procura revestir-se de sinais sagrados, entra-se num terreno perigoso em que o líder é apresentado como figura intocável. O grande risco é a tentativa de transformar o poder em objeto de fé e o poderoso em sujeito de veneração.